No fim de semana tivemos, numa liga não principal (Liga 3), um Académica-Belenenses, com 15 mil pessoas - Foto: Académica
No fim de semana tivemos, numa liga não principal (Liga 3), um Académica-Belenenses, com 15 mil pessoas - Foto: Académica

O que valem os adeptos no sucesso?

'O lado invisível' é o espaço de opinião de Rui Lança, diretor executivo de outros desportos do Al Ittihad, da Arábia Saudita

A descida do Aves SAD da I Liga volta a colocar um tema estrutural na vida dos clubes: o papel dos adeptos no seu sucesso. Não há uma relação direta entre dimensão da massa adepta e títulos, até porque no alto rendimento só poucas equipas conquistam as diversas competições por época, mas há uma correlação relevante entre consistência competitiva e base de apoio.

Adeptos leais garantem presença nos momentos críticos, deslocações, ambiente em jogos decisivos e, sobretudo, uma continuidade emocional e social quando os resultados falham. Claro que existe o reverso com a exigência e pressão, mas raramente temos o melhor dos dois mundos num contexto tão competitivo como este. Mesmo assim, a ausência de adeptos tende a pesar muito mais do que a sua exigência.

Clubes que nascem hoje numa espécie de tubo de ensaio enfrentam um desafio enorme: criar pertença. Sem ou com pouca história, na maioria das vezes sem raízes locais e sem comunidade, a sustentabilidade fica fragilizada. Em Portugal, exemplos recentes como clubes que se transferem ou querem nascer em zonas com quadros competitivos mais fáceis, mostram que a falta de massa crítica como pessoas no estádio, ligação ao território, identidade corrói qualquer (até pode ser bom) projeto. O problema não é apenas financeiro, é estrutural, emocional e social.

Podemos recolher boas estratégias como exemplos. O Como 1907 investe em experiência, o tal belonging e posicionamento para competir numa zona com muita oferta. O FK Bodo/Glimt demonstra que é possível ter sucesso com uma base menor, mas num contexto onde nenhum clube tem grandes multidões. São realidades distintas, mas com um denominador comum, a intenção estratégica sobre o que fazer com o adepto. No fim de semana tivemos, numa liga não principal (Liga 3), um Académica-Belenenses, com 15 mil pessoas. E se a hora tivesse sido por exemplo 15h00 e não 19h00, se calhar teríamos mais interessados.

Em Portugal, tratamos mal os adeptos, não por intenção, mas por definição de prioridades. Temos problemas de organização de uma jornada para a outra, estádios pouco ou nada operacionais e confortáveis, deslocações penalizadoras e um modelo de receitas excessivamente dependente de terceiros (nomeadamente direitos televisivos) que reduzem a capacidade de os clubes influenciarem a sua própria procura. O resultado é ter menos gente, menos receita própria, menor ligação.

Adiciono três condicionantes. Primeiro, a concentração: a esmagadora maioria dos adeptos identifica-se com três clubes e também a maioria dos clubes que não os grandes têm de dividir os seus adeptos com os tais grandes. Segundo, a preferência pelo clube em detrimento do desporto traz valores que por vezes não interessam, o que limita o interesse por jogos fora desse eixo. Terceiro, o modo errático e a pouca predisposição para acolher adeptos visitantes, desperdiçando várias oportunidades de fazer com que as pessoas fiquem apaixonadas pelo jogo e não apenas pelo clube.

Conclusão: mais adeptos não garantem sucesso ou títulos, mas aumentam a probabilidade de estabilidade, receita e rendimento mais sustentável. Ignorar isto é um enorme risco. Porque quando os adeptos faltarem em maior escala, o vazio não vai ser apenas nas bancadas, será na competição, no jogo e no modelo do clube. E aí, recuperar vai ser mais complexo, até porque as novas gerações procuram diferentes emoções e não se reconhecem no mesmo.