Seleção com ambições mundiais renovadas
A oito dias de partir para o Azerbaijão, onde, entre 4 e 11 de outubro, se irá disputar o 39.º Mundial Baku-2026 — grande prova da temporada em que um bom resultado pode proporcionar um passo de gigante no objetivo de chegar aos Jogos de Los Angeles-2028 —, a Seleção Nacional de judo apresentou-se à imprensa no Jamor.
Dos nove judocas selecionados — e por isso integrados no top 100 do ranking mundial de cada categoria, caso contrário não poderiam competir no evento que se realiza pela segunda vez naquela ex-república soviética, depois da estreia em 2018, edição na qual apenas Catarina Costa (-52 kg) chegou aos combates finais pelas medalhas —, apenas não compareceram o antigo bicampeão do mundo Jorge Fonseca (-100 kg) e Rochele Nunes (+78 kg), esta a preparar-se fora de Portugal.
-60 kg Bernardo Tralhão 1.º Mundial ACM
-66 kg Miguel Gago 2.º Mundial Académica
-73 kg Otari Kvantidze 3.º Mundial Sporting
-100 kg Jorge Fonseca 10.º Mundial Sporting
Entre os restantes: Catarina Costa (-48 kg), Joana Crisóstomo (-63 kg), Taís Pina (-70 kg), Patrícia Sampaio (-78 kg), Bernardo Tralhão (-60 kg), Miguel Gago (-66 kg) e Otari Kvantidze (-73 kg), acompanhados pelos selecionadores Pedro Soares (masculinos) e Marco Morais (femininos), reinava a boa disposição. Ambiente que se manteve ao longo de duas horas.
Algo diferente de há cinco meses, quando Portugal foi ao Europeu de Tbilisi privado de Fonseca, Catarina, Taís e Patrícia — habituais candidatos a lutar pelo pódio — por estarem todos a recuperar de lesões ou mesmo de intervenções cirúrgicas. Agora, a única baixa é a de Bárbara Timo (-70 kg), duas vezes medalhada em campeonatos do mundo.
-48 kg Catarina Costa 8.º Mundial Académica
-63 kg Joana Crisóstomo 2.º Mundial U. Lusófona
-70 kg Taís Pina 3.º Mundial Algés
-78 kg Patrícia Sampaio 6.º Mundial Gualdim Pais
+78 kg Rochele Nunes 5.º Mundial Benfica
Um desses casos complicados de lesão foi o de Patrícia Sampaio, que, no início de fevereiro, sofreu uma rotura no ligamento lateral interno do joelho esquerdo e não pôde defender o título europeu de Podgorica-2025. Recuperou a tempo do Mundial, depois de na edição anterior, Budapeste-2025, ter subido ao pódio para receber a medalha de bronze.
«Neste momento, estou mentalmente muito mais estruturada e estável do que fisicamente. Tenho um histórico de lesões grande. Não tenho uma idade avançada, mas possuo um corpo muito gasto. A idade dá-nos isso, mas também uma experiência e maturidade diferentes para lidar com este tipo de situações. E isso pode ser a minha grande vantagem nos próximos dois anos para conseguir ter alguma consistência de resultados», afirma Patrícia, de 27 anos, quanto à hipótese de, agora recuperada, voltar a conseguir uma sequência mágica como a que viveu desde que foi bronze nos Jogos de Paris-2024, quando subiu ao pódio em oito das nove provas disputadas até se lesionar. Ela que, como 6.ª do ranking mundial, será o único elemento da Seleção a figurar como cabeça de série em Baku.
Para o Campeonato do Mundo conta que: «Apesar de agora o Grand Slam de Lausana ter corrido muito bem [bronze], também me deixou um bocadinho mais frágil…», deixa no ar. «Porque o meu joelho não está a 100 por cento e vai ser uma bomba-relógio a segurar nestes dois anos. Mas quando vemos essa performance é impossível desassociar a parte física da mental. Tudo está ligado. Não é 50-50, num dia uma vai ajudar a outra a subir e acredito que dá para sonhar com os objetivos grandes que tenho. Podem ser atingidos devido a esse equilíbrio. Vou conseguir dar a volta», afirmou, convicta.
Igualmente de regresso à Seleção, após ter sido operada ao cotovelo, está Catarina Costa. Quatro vezes medalhada em Europeus, já por duas ocasiões ficou a uma vitória do pódio mundial. Assegura que, apesar de caminhar para o oitavo campeonato do mundo e de achar que já pesa a… experiência: «Continuo a ter vontade de querer afirmar-me a nível mundial, de gostar de competir e estar neste nível alto».
Revela que, por ter estado parada, agora sente «uma frescura que, nesta reta final do ano, muitas outras atletas não têm; estão um bocadinho mais arrastadas porque o Circuito [Mundial] é muito intenso e longo. Mas, apesar de tudo, para mim este é também um momento de recuperação, de voltar atrás, muitas vezes ao zero, mas penso que me fez mais bem do que mal».
E isso permite-lhe ir como a Baku? «Acima de tudo, tranquila. Numa posição de que até gosto, de underdog. Foi assim em 2018, também em Baku, quando fui pela primeira vez ao Mundial e terminei no 5.º lugar. Vou tentar ir buscar um bocadinho de inspiração à Catarina de 21 anos, que encarou esse campeonato de peito aberto e garra», prometeu.
Joana Crisóstomo: «Pronta para o segundo Mundial»
«Irei a este meu segundo Mundial com maior experiência e maturidade, dois pontos que considero essenciais para que a prova corra melhor. Se a estreia em Doha-2023 pesou? Sim, pesou. O judo tem destas situações, às vezes as coisas não nos correm bem, noutras sim… É um bocado ingrato, mas continuei e estou pronta para o segundo.»
«Honestamente, não vejo grande diferença entre um Grand Slam e um Mundial. Sei que o relevo é distinto, mas quando se está por dentro da competição, é só mais uma prova. Com grandes atletas, sem dúvida, mas isso acontece em todas. Preparo-me tão bem para o Mundial como para um Grand Slam ou Europeu. E sim, fiz a preparação que desejava, quer a nível técnico como físico. Está tudo a correr bem.»
Taís Pina: «As coisas estão a evoluir»
«Trata-se do meu terceiro Mundial. Nos outros dois perdi ao segundo combate, mas agora quero tentar dar o máximo, com a medalha em vista, mesmo vindo de um pós-operatório devido a lesão [dedo da mão]. Por isso, não estou tão bem como desejava. Já fiz duas provas e, apesar dos resultados não terem sido os pretendidos, deu para perceber que as coisas estão a evoluir.»
«Não irei no pico de forma, mas vou com toda a garra, como sempre. Enquanto recuperava da operação [chegou a ter ferros no dedo], não podia agarrar bem para treinar, por isso tive oportunidade de treinar outras técnicas e soluções para também mudar um bocadinho o meu judo e saber que tenho opções diferentes para combater. Fiz mais técnicas à esquerda, que não é habitual usar.»
Bernardo Tralhão: «Tiraram-me horas de sono»
«Tenho um carinho muito grande por esta oportunidade que me estão a dar neste primeiro Mundial e quero corresponder às expectativas que têm em mim. Até superá-las. Não digo que este era o sonho porque esse é ir aos Jogos Olímpicos, mas faz parte do caminho e é um grande desafio que tenho pela frente.»
«Sim, a oportunidade que me estão a dar fui eu que a conquistei, mas a realidade é que há um mês, a 20 de agosto, ainda não estava no top 100 para poder competir em Baku. Foram-me dadas as oportunidades de participar nos Grand Slam de Lausanne e Budapeste, consegui os pontos que necessitava e, neste momento, sou o 61.º do ranking. Mas, até lá, tiraram-me algumas noites [de sono]. »
Miguel Gago: «Preparei-me o máximo»
«Para este segundo Mundial vou mais confiante e maduro, são essas as palavras. No primeiro senti algum peso do momento. Não por se tratar da primeira vez, foi mais por ser uma experiência diferente. Havia uma atmosfera muito mais pesada, comparando com outras provas.»
«Sim, acho que um campeonato do mundo é bastante diferente de um Grand Slam. Envolve muito trabalho, o título em causa, os atletas que lá estão... Ali está tudo atrás do mesmo, enquanto grand slams existem muitos e são provas de circuito, em que uma corre bem e a outra mal. O Mundial já é algo para o qual nos preparamos o ano inteiro. Preparei-me ao máximo e cumpri aquilo que o meu treinador mandou. Acredito no meu trabalho e no dele.»
Otari Kvantidze: «Foi porrada, porrada, porrada!»
«As minhas expectativas são maiores do que nunca porque a preparação que a equipa fez todo o verão foi muito grande, por isso estamos mais do que confiantes. Foram quatro meses a fazer estágios internacionais, com porrada, porrada, porrada todos os dias. Treinámos muito, por vezes três vezes por dia. Depois disto, quando olhamos para trás e sabemos a quantidade de esforço e dedicação que tivemos, isso dá-nos um backup para estar confiantes. Procurei treinar mais táticas e situações específicas em que errava e agora melhorei bastante. Sinto que estou mais forte do que nunca .»
Pedro Soares: «Existem medalhas invisíveis»
«A equipa está bem, mas o Jorge [Fonseca] está numa fase diferente da carreira face àquela que esteve em 2019, 2020 e 2021, em que conseguiu dois títulos de campeão do mundo e a medalha olímpica [bronze]. Tem um potencial e um talento enorme que pode, num dia bom, como aconteceu em Budapeste [Grand Slam], colocá-lo na zona das medalhas, Mas, neste momento, incluindo a equipa feminina, existem medalhas invisíveis que gostaria de concretizar. Desejava que deste grupo de nove todos estivessem solidificados no projecto olímpico ou que no final do campeonato muitos dos nove estivessem apurados virtualmente para os Jogos.»
Marco Morais: «Vamos para disputar medalhas»
«Contamos com uma seleção feminina homogénea naquilo que é a vontade de disputar o Mundial. Preparámo-nos durante o verão para estar nesta prova de elevado nível. O outro lado é mais heterogéneo, pelas diferentes experiências que cada tem, mas todas vêm desde a formação com provas dadas e resultados em campeonatos, algumas com grandes feitos. Por isso, a minha expectativa é que nos iremos superar, pois estamos preparados para enfrentar qualquer adversário Vamos para disputar medalhas. Tenho essa confiança nas atletas pelo seu trabalho. Não só de agora, mas ao longo dos anos.»
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