Rui Alves quer travar «golpada» da Liga e explica as mudanças no Nacional
Em entrevista à RTP Madeira, Rui Alves, presidente do Nacional, acusou a Liga de Clubes de violação do Decreto-Lei n.º 22-B/2021, que determina a titularidade de direitos de transmissão dos campeonatos de futebol da Liga e Liga 2 e estabelece regras relativas à sua comercialização, em relação à proposta do organismo referente aos direitos televisivos, pelo que apresentou uma exposição à Autoridade da Concorrência, para a travar, deixando ainda muitas críticas à gestão de Reinado Teixeira, presidente da Liga. Rui Alves abordou ainda a saída de Tiago Margarido, as mudanças no plantel que estará à ordem de João Gião, o novo treinador.
«Estou absolutamente chocado com a apresentação da proposta da Liga [Portugal]. Nunca pensei que fossem capazes de a apresentar aos clubes e estranho que não haja um coro coletivo de oposição», referiu. «É um cozinhado feitos pelos grandes clubes que fazem parte da centralização, que representam 20% dos que têm capacidade eleitoral na Assembleia Geral (AG). E a Liga a tentar transmitir que tem uma proposta altamente consensualizada pelos clubes. Conduziram o processo e Maquiavel não faria melhor, no sentido de satisfazerem totalmente as exigências da Liga 2, por forma a que na AG conseguissem os 15 votos desse escalão, mais os 4 privilegiados da chave», apontou.
Por isso, Rui Alves tomou medidas para travar essa proposta: «Estando em violação clara do Decreto-Lei n.º 22-B/2021 [que determina a titularidade de direitos de transmissão dos campeonatos de futebol das I e II Ligas e estabelece regras relativas à sua comercialização] achei que deveria fazer uma exposição/queixa à Autoridade da Concorrência (AC), no sentido de administrativamente poder parar. Já foi entregue e vamos ver se há uma posição da AC no sentido de travar esta golpada, porque senão o Nacional terá de caminhar para as instâncias judiciais e eventualmente até as europeias.»
«Há duas semanas viajei com o presidente do Marítimo para reunir em Lisboa com o presidente da Liga [Reinaldo Teixeira] e os seus sequazes, para ver se conseguíamos parar este disparate»
Nesta luta, Rui Alves afirmou que tem a seu lado Carlos André Gomes, presidente do rival Marítimo. «Desde a primeira hora que conversamos sobre esta matéria. O presidente do Marítimo trabalhou uma proposta, que estava próxima da do Nacional. De referir que a nossa teve a participação de um especialista da área económica que já incorporou órgãos sociais do Marítimo, e é preciso separar a rivalidade do campo, com os objetivos comuns das instituições. Há duas semanas viajei com o presidente do Marítimo para reunir em Lisboa com o presidente da Liga [Reinaldo Teixeira] e os seus sequazes, para ver se conseguíamos parar este disparate», revelou. «O presidente da Liga tem uma personalidade um pouco diferente do anterior [Pedro Proença], em que procura a todo o momento ficar bem com Deus e com o Diabo, sabendo-se que muitas vezes isso não é possível. Isto é má liderança», acusou.
Época bipolar
Sobre a época que findou Rui Alves considerou o percurso do Nacional como «bipolar», com «bom comportamento nos jogos mais difíceis frente a emblemas mais poderosos» e «um tanto ou quanto medíocre» frente a adversários «do seu nível». «Este comportamento bipolar acabou por nos conduzir a um campeonato, em que só na última jornada conseguimos o objetivo. Poderíamos e devíamos ter ficado melhor classificados», disse.
Para o presidente do Nacional, a saída de Tiago Margarido não foi surpresa. «Não tive que me preocupar muito com essa hipótese, porque desde há algum tempo - até pela proximidade que tinha com ele - percebi que a sua ambição passava por uma saída do país, o que compreendo perfeitamente».
João Gião é o sucessor de Margarido e será apresentado na próxima sexta-feira. Assinou por 1 época, porque Rui Alves entra no último ano de mandato, e «não ficaria bem assumir responsabilidades para além dele». O presidente do Nacional pede que João Gião, seja ele próprio. «Não terá de ser um seguidor de nada. Quando digo continuidade, será pelo sucesso do Nacional, que para a dimensão do clube, será sempre manter-se na Liga, nem que seja na última jornada. Mesmo com a nossa dimensão, os tempos em que assumíamos candidaturas às competições europeias estão um pouco distantes, até porque há uma estratégia um pouco diferente, estamos numa fase de transição. Os contratos de financiamento público passaram a ter uma duração de quatro anos, estamos a meio do ciclo, e vamos esperar que as duas instituições que nesta época participam na Liga tenham êxito e que chegamos ao fim deste ciclo com condições para um posicionamento um pouco mais ambicioso do Governo, como já foi manifestado», manifestou.
Sobre o plantel, abordou o fecho de um ciclo de alguns jogadores: «O Lucas França não pode ser considerado uma saída de peso, porque participou em 4 jogos. Foi um jogador importante num determinado contexto. Para já ainda não saiu, tem contrato com o Nacional, embora tenha o meu compromisso de não criar qualquer obstáculo à rescisão do contrato. O Nacional poderá perder o Paulinho Bóia, como jogador importante que terminou o contrato, e poderá perder outros jogadores que se destacaram, e é normal que outros emblemas com capacidade financeira possam apresentar propostas. Por exemplo, o nosso ponta-de-lança [Jesús Ramírez] e os dois jogadores do centro da defesa [Léo Santos e Zé Vitor]. Provavelmente poderá acontecer isso. Mas essa mobilidade é normal nas janelas de mercado.»
Kaique [Palmeiras] e Alan Nuñez [Cerro Portenho], que estavam emprestados, interessam. «Estamos em conversações com os clubes com o qual os atletas têm vínculo contratual. Vamos ver, podemos ter êxito ou não, mas queremos os dois porque são jogadores que faziam parte do onze inicial. Continuarmos com eles é menos uma dor de cabeça», afirmou Rui Alves, que disse ainda que o futuro plantel será com «40% de jogadores novos» e não garantiu a presença dos 60% que continuam, alguns deles mesmo com contrato. Certa, pelo menos na pré-epoca, é a presença de Faias, extremo da equipa B.
Rui Alves gosta de ter mão na construção dos plantéis, para que não se compre um «Ferrari» quando se pode comprar um «Fiat», e isso contribui para a «estabilidade económica» do clube. Sobre se a qualidade dos jogadores poderia ser melhor, respondeu: «Não nenhum clube que tenha um acerto de 100%. Neste ano tínhamos um atleta [Gabriel Veron] que custou 12 milhões ao FC Porto e mesmo assim acabou por não ser opção para os jogos mais complicados na fase final da época. Esse atleta para estar cá, depois do investimento do FC Porto, correspondeu a um erro. Não há nenhum clube ou presidente que acerte sempre. Na nossa métrica, falharam três jogadores na construção do plantel.»
Rui Alves revelou ainda que o orçamento para a próxima época será de 7 milhões de euros, uma redução de 1,5 milhões «devido ao final do contrato dos direitos audiovisuais, negociados em 2016 com um a duração de 10 anos, num quadro com alguma concorrência, que possibilitou aos clubes terem uma melhoria substancial. Após o entendimento dos operadores no capital social da Sport TV, o nosso país, praticamente, vive numa situação de monopólio, pela realidade do mercado», explicou.