O legado de Amorim mede-se também pela mensagem que deixa a um futebol cada vez mais curto de memória e de coragem — Foto: IMAGO
O legado de Amorim mede-se também pela mensagem que deixa a um futebol cada vez mais curto de memória e de coragem — Foto: IMAGO

Ruben Amorim e a resistência que desafiou a cultura descartável do futebol moderno

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de João Rodrigues dos Santos, professor de Economia do Desporto e Coordenador Científico da área de Economia e Gestão da Universidade Europeia

 

No turbilhão de decisões rápidas que hoje dominam o futebol de alto nível, poucas histórias representam tão bem a tensão entre autenticidade e descartabilidade como a de Ruben Amorim no Manchester United.

O despedimento de Ruben Amorim do Manchester United não é só mais um episódio na longa lista de separações rápidas entre clubes e treinadores. No futebol contemporâneo, o tempo deixou de ser um aliado e a convicção passou a ser vista como um risco, não como uma virtude. O antigo treinador do Sporting desafiou tudo isto.

Amorim chegou a um dos palcos mais exigentes do mundo com aquilo que sempre o definiu. Chegou com ideias claras, uma identidade assumida e a coragem de não abdicar do que acredita. Num futebol cada vez mais formatado, onde se pede aos treinadores que se adaptem ao ruído, à urgência e à pressão externa, o técnico português escolheu resistir. Resistir às soluções fáceis. Resistir à tentação de diluir a sua visão em nome de uma sobrevivência confortável.

Essa resistência tem um custo. Teve-o em Inglaterra, como tantas vezes teve noutras geografias e noutras carreiras. Mas é precisamente aí que reside o seu valor. Porque, num tempo em que os treinadores são tratados como peças substituíveis, Amorim lembrou que liderar não é apenas reagir aos resultados, mas sustentar um caminho, mesmo quando ele é incómodo.

O futebol moderno habituou-se a confundir paciência com fraqueza e coerência com teimosia. Exige-se impacto imediato. Neste cenário, a figura do treinador transformou-se num amortecedor de frustrações, alguém que se troca para dar a sensação de mudança, ainda que o problema raramente se resolva apenas com essa decisão.

Ruben Amorim recusou esse papel passivo. Assumiu responsabilidades, enfrentou o desgaste e manteve-se fiel a uma ideia de jogo e de liderança que não se constrói ao sabor de cada resultado. Essa postura, hoje rara, pode não garantir longevidade imediata, mas constrói algo mais duradouro. Constrói credibilidade.

O legado de Amorim não se mede apenas pelo que conseguiu ou deixou por alcançar. Mede-se pela mensagem que deixa a um futebol cada vez mais curto de memória e de coragem. A mensagem de que é possível chegar ao topo sem abdicar da identidade. De que o treinador não tem de ser um gestor do medo, mas um defensor de princípios.

Talvez o futuro do futebol precise exatamente de menos pressa em descartar e de mais capacidade de compreender processos. Menos obsessão pelo imediato e mais respeito pelo tempo que o jogo exige. Se assim for, a passagem de Amorim por Manchester não terá sido em vão. Terá sido um lembrete de que, mesmo quando o sistema empurra para a conformidade, há valor em resistir.

Ruben Amorim sai de cena, mas deixa uma marca clara. Num futebol que trata treinadores como descartáveis, resistir pode ser, afinal, o ato mais transformador de todos.

Nenhuma carreira se mede apenas pelos troféus erguidos, mas também pela forma como, perante adversidades, um treinador defende as suas convicções e influencia positivamente aqueles ao seu redor. Nisso, Ruben Amorim deixa um legado ímpar.