Há conversas estúpidas num serviço de oncologia
Há uma semana foram detidos e levados a Tribunal 124 adeptos de Sporting e Benfica que se deslocaram ao Pavilhão João Rocha para apoiar a equipa num jogo de futsal. Rico apoio… Dou por mim a pensar na cara de miúdos a entrar num Tribunal e a ter pena deles. Têm a autoestima tão baixa que acreditam que só conseguem obter validação juntando-se a grupos desordeiros para a prática de crimes… E se a falta de autoestima e a opção feita já é uma situação penosa o suficiente, junta-se outro erro trágico: a de acreditarem que os líderes do grupo se preocupam com eles e os defenderão em todas as ocasiões. Nem percebem que são apenas munição num canhão que lhes vai consumir a alma ainda antes de picar a carne e quebrar todos os ossos. E vão perceber dolorosamente que os pactos de sangue são uma via de um único sentido, aquele em que o líder precisa de tolos que se atravessem no caminho da bala.
Há uma semana que se fala de racismo com mais grito que tino. Dei a minha opinião, recebi mais correio do que o normal. Todos com educação, saliento, quase todos críticos com Vinícius Jr. e incomodados com o volume da discussão. Percebo-os. De facto, em certos momentos o antirracismo pode pisar os mesmos terrenos de intolerância e gritaria que o racismo. Uma vez mais é no equilíbrio que encontramos a virtude. Resumo o que defendi: insultar uma pessoa com base numa característica física, orientação de vida ou nível económico, cultural ou social é um desumano exercício de humilhação que dói. Duvido que haja um único leitor que não tenha sido discriminado ou gozado uma vez que fosse na vida e que não se tenha sentido mal. Defendo que Prestianni não é racista mas pode ter cometido um ato racista. Ter chamado macaco ou maricas (homossexual) não muda nada. Mas Prestianni pode também ser uma vítima ao nível de quem sofre discriminação: a de ser condenado por estar inocente. A presunção de inocência e a necessidade da prova não podem ser suprimidas em situação alguma.
Meus amigos, acham mesmo que a vida é tão longa que nos podermos dar ao luxo de desbaratar tempo com zangas, gritaria e incompreensões? Não acham que já temos lenha suficiente para nos queimarmos sem necessidade de deitar gasolina? Que bom se cada um de nós nos dessemos a oportunidade de conhecer e enriquecer com o outro, com a diferença. Permitam também que o outro se fascine por nos conhecer melhor, cada um de nós também tem muito a acrescentar à vida dos outros. E se pensar pela positiva não for o suficiente, partilho um texto que me tocou do jornalista - passou perla revista de automóveis Auto Foco, de A BOLA - e escritor João da Silva - , para já três vezes vencedor do jogo da vida contra o cancro.
«Farto da conversa estúpida dos brancos e dos pretos e dos católicos e judeus e muçulmanos e heterossexuais e homossexuais e por aí fora. Vivi semanas a fio num sítio onde todos sangrávamos da mesma cor, todos nos encolhíamos quando nos enfiavam agulhas nas veias para receber a quimioterapia, todos vomitávamos da mesma cor, todos chorávamos de dor e de medo de morrer, todos ansiávamos desesperadamente por ir para casa e abraçar quem amamos e todos víamos, embora os tentassem esconder, os sacos pretos onde pessoas de todas as cores, credos e escolhas eram levados para a última morada. Há pessoas a quem umas tardes a fazer voluntariado num hospital oncológico curariam qualquer tipo de preconceito»
Estamos juntos. Sempre estivemos. Sempre estaremos.