Prestianni, Vinícius & UEFA — desinfectante, já!
Este texto foi escrito antes do Real Madrid-Benfica e, por isso, será ainda mais irrelevante, não só por tudo e mais alguma coisa que já foi escrito e dito sobre o assunto, mas também pela matéria desportiva e comunicacional que, seguramente, produziu esse jogo na capital espanhola. Mais de uma semana depois do que se passou entre Vinícius e Prestianni no Estádio da Luz, do que foi dito e feito, dos sentimentos que nos provocou, este caso poderia servir para refletirmos sobre nós e sobre a sociedade em que vivemos.
Antes de mais nada, um ponto que deveria ter sido prévio: na luta contra o racismo estamos todos do mesmo lado e vestimos a mesma camisola. Todos. Quem não estiver, pode parar já de ler no ponto final seguinte.
Agora que ficaram só os que interessam, podemos conversar.
Desde o que se passou, então, na Luz entre Vinícius e Prestianni, ouvimos tudo, sobretudo condenações e absolvições instantâneas e passionais, claques de um lado e de outro, moralistas a decretar sentenças e, no entanto, ainda desconhecemos o essencial — o que realmente disse Prestianni. Enquanto não soubermos, existe a acusação racista e a negação da acusação racista. Até que alguma coisa mude — novas informações, por exemplo — tem de prevalecer o princípio elementar do nosso contrato social: o da presunção de inocência.
Acusação ainda não pode ser condenação para lá de qualquer dúvida. Se as acusações bastarem para que castigos e punições sejam aplicados, abrimos uma caixa de pandora que ataca os fundamentos da civilidade. Ainda há poucos dias o presidente do Atlético Madrid, Enrique Cerezo, disse que a decisão de a UEFA suspender preventivamente Prestianni, sem falar dos méritos que a sustentaram, iria criar muitíssimos problemas. Suspeito que poderia estar a falar disso.
Ao mesmo tempo e em medida semelhante, considerar Vinícius arquiteto da própria queda, ou seja, responsável pelo que lhe aconteceu em campo por eventuais provocações recentes ou passadas, é igualmente errado. Os festejos são, para o que se passou entre os dois, tão irrelevantes como o que podemos pensar que Prestianni disse ou deixou de dizer.
Precisamos, pois, de muito cuidado com o salto quântico inverso — concluir que, como não sabemos o que foi dito, nada aconteceu. O perigo de converter uma vítima potencial em culpado está aí, também, em todo o esplendor e deveria envorgonhar quem o pratica.
O Benfica deveria, desde o primeiro minuto, ter condenado qualquer manifestação de racismo, mesmo defendendo a versão de Prestianni. Pois se acredita nele, mais um motivo para deixar bem claro, desde início, que não tolera comportamentos racistas. Ao mesmo tempo estaria a reforçar a posição de Prestianni. Corrigiu mais tarde.
Se alguma coisa este caso terá de bom será o contributo que poderá dar para que não se repita — em campo entre jogadores, fora dele, seja na forma como são julgados pela justiça desportiva ou, simplesmente, na forma como olhamos e reagimos em situações tão delicadas.
Aqui chegados só com uma decisão que todos possam compreender, com explicação de todos os fundamentos, revelação dos testemunhos, argumentações de acusação e defesa, podemos dar um passo em frente. Esta, como outras situações, precisa do melhor desinfectante — a transparência.
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