Cristiano Ronaldo, 41 anos, capitão da Seleção Nacional
Cristiano Ronaldo, 41 anos, capitão da Seleção Nacional

Ronaldo, o andarilho e o velho do Restelo

Desportiva_MENTE é o espaço de opinião de Liliana Pitacho, Psicóloga e docente no Instituto Politécnico de Setúbal

Esta última terça-feira, 23 de junho, em Houston deu-se um milagre português. Afinal, a estátua moveu-se e o capitão fez mesmo um golo aos 6 minutos. A forma como festejou sozinho deixou evidente o quanto todos os colegas estão saturados da sua presença.

Logo em seguida e claramente à sua revelia, sim, porque é Cristiano Ronaldo quem manda e não quer deixar os colegas brilhar, Nuno Mendes cobra um livre e faz golo. O capitão não poderia ter ficado mais chateado, a sua revolta foi tanta que ligou o turbo do andarilho e bisou.

É claro, que isto só foi possível porque o Uzbequistão é uma seleção de qualidade inferior e claramente que se estivesse outro jogador no lugar do capitão, ainda teríamos feito mais golos, talvez aí uns dez.

Até porque, num jogo destes, se ele fosse mesmo bom, teria feito o hat trick como Messi, afinal, oportunidades não lhe faltaram. Não que ele soubesse escolher o posicionamento e os movimentos corretos, mas porque teve sorte e ainda assim não conseguiu concretizar.

Não enlouqueci para escrever um texto destes, na verdade o tema e grande parte do texto já estava preparado mesmo antes do jogo de terça-feira. É claro que o jogo contra o Uzbequistão veio permitir dar-lhe mais ironia e conteúdo, afinal a maioria das frases acima são inspiradas, infelizmente, em muitos textos e comentários que tenho lido e ouvido.

Durante a última semana um grupo de alunos questionou-me: professora, nesta situação qual será o estado psicológico do Cristiano Ronaldo?  Em 2025 escrevi um artigo nesta mesmo coluna intitulado: 'Cristiano Ronaldo: um exemplo de mindset vencedor', e aí escrevi entre outras coisas o seguinte: «Desde os primeiros tempos que Cristiano Ronaldo parece ter aproveitado todos os desafios como oportunidades para crescer. Mesmo perante as várias críticas o atleta demonstrou a sua resiliência quer nas suas palavras quer nos seus comportamentos dentro de campo.»

Foi exatamente nisto que me baseei para responder aos meus alunos, o mindset do Cristiano Ronaldo permite reagir positivamente a este tipo de adversidade e por isso era expectável que pudesse dar esta resposta.

A minha única preocupação era o contexto, o momento de carreira em que ele se encontra e isso sim poderia fragilizá-lo. Mas Cristiano Ronaldo respondeu à Cristiano Ronaldo e toda a selecção nacional respondeu com ele. Pois, se ele nunca será o único responsável pelas derrotas, também é para o grupo que deveremos olhar nas vitórias.

Cristiano Ronaldo é sim um atleta completo, pois alia à sua performance física e técnico-tática a um mindset de sucesso. Mas, aquilo que me leva a escrever este texto não é o mindset do nosso capitão, mas sim a forma como a sociedade tem lidado com isso porque isto sim começa até a tornar-se perturbador. 

Diogo Dalot esta semana afirmou, quase em tom de revolta, que «há imensas pessoas que não querem que Portugal ganhe». Muito se criticou o atleta e a sua afirmação. Mas eu percebo, tantos são os discursos de verdadeiros profetas da desgraça. E, talvez isto diga mais sobre nós enquanto nação e identidade colectiva do que sobre Cristiano Ronaldo ou sobre a Seleção.

Há em Portugal uma espécie de velho do Restelo coletivo, esse olhar descrente que Camões tão bem eternizou em Os Lusíadas, sempre pronto a anunciar a queda antes mesmo da partida. Junta-se-lhe uma certa melancolia do fado, essa familiaridade quase cultural com a tristeza, a perda e a desgraça anunciada, uma verdadeira romantização do sofrimento.

Queremos ganhar, claro que queremos, afinal o país pára para ver a Seleção, mas muitas vezes parecemos fazê-lo com o corpo inclinado para a derrota, como se estivéssemos sempre à espera de que algo corra mal para confirmar a nossa própria narrativa.

E quando corre mal, não há apenas tristeza: há quase um estranho conforto em dizer 'eu já sabia'. Mas talvez haja aqui algo ainda mais inquietante do que o velho do Restelo ou a melancolia do fado. Porque uma coisa é a tendência quase cultural para esperar a queda; outra, bem diferente, é parecer desejar essa queda apenas para confirmar uma opinião negativa sobre Cristiano Ronaldo.

No final daquele primeiro jogo, quantas vozes se ouviram quase a vangloriar-se do triste fado da seleção que elas próprias já tinham proclamado? Não sei se estavam realmente felizes com o insucesso, ou se era apenas o ego de terem razão depois de terem profetizado a desgraça, sobretudo porque Cristiano Ronaldo estava em campo.

E isto, mais do que pessimismo, começa a tocar a fronteira da falta de respeito. Não por se criticar um jogador, isso faz parte do futebol, mas por se esquecer, com uma facilidade quase ingrata, tudo aquilo que esse jogador já deu à Seleção, ao país enquanto nação desportiva e ao próprio futebol mundial.

Arrisco ir ainda mais longe: muitos comentários deixam claramente de pertencer ao campo da análise desportiva a partir do momento em que recorrem a adjetivos desrespeitosos, quase humilhantes, para caracterizar um atleta. Criticar opções técnicas, rendimento, posicionamento ou decisões dentro de campo é legítimo; transformar essa crítica em desprezo público já é outra coisa.

E isto não deveria depender de se chamar Cristiano Ronaldo. Deveria ser válido para qualquer atleta, porque há uma fronteira que separa a exigência da humilhação, a análise da chacota e a opinião da falta de respeito.

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