Quem é o homem por trás do laboratório das bolas paradas do FC Porto?
Quase um em cada quatro golos do FC Porto tem origem em lances de bola parada. Mais do que isso: surge especificamente na sequência de pontapés de canto. Numa análise mais concreta, 23% dos tentos dos azuis e brancos na era Farioli surgem desses momentos — 16 dos 69 marcados pelo dragão na época em curso, contabilizando todas as provas (só na Liga são 10).
Na outra ponta do campo, os portistas apenas concederam de canto, em duelos do campeonato, por... uma vez, na receção ao SC Braga (2-1). Casa Pia (livre lateral) e Sporting (de grande penalidade) são as equipas que também marcaram à turma da Invicta em lances de bola parada.
Por trás destes números e do sucesso está, sobretudo, um homem: Lino Godinho. O adjunto do treinador principal italiano — conheceram-se no Qatar, quando ambos trabalhavam na Aspire Academy — é o maestro das bolas paradas no Dragão e, com o auxílio imprescindível de Lucho González e Carlos Pintado (coordenador de análise), construiu um laboratório de excelência que produz jogadas made in Olival. O antigo médio argentino, principalmente, também cumpre um papel fulcral na preparação e análise.
Estudioso de Big Data e fiel ao seu método baseado em dados e estatística, fatores que ajudam no planeamento deste momento com cada vez maior preponderância no futebol moderno — veja-se o exemplo do Arsenal —, Lino Godinho abraçou o projeto do FC Porto no verão passado, quando passou a integrar o corpo técnico de Farioli. Antes, tem no currículo uma longa passagem pelo Médio Oriente, onde desempenhou várias funções no Qatar (de 2011 a 2020), bem como trabalhos na Suíça (Grasshoppers), Portugal (Académica) e Itália (Veneza e Torino).
Durante as partidas muito interventivo, levantando-se e dando indicações nas bolas paradas ofensivas e defensivas, o adjunto do timoneiro azul e branco é «um profissional preparado» que entende bem «todas as áreas do treino».
Quem o garante é João Carlos Pereira, que trabalhou com o técnico em três emblemas distintos — Aspire Academy, Grasshoppers e Académica.
«Comigo tinha outro tipo de papel, era um adjunto com mais responsabilidades no treino individual. Ou seja, tudo o que fosse complementar ao treino coletivo e que tivesse a ver com questões táticas, com fundamentos de jogo. Tudo o que fosse no campo individual, desenvolvimento ou estabelecimento de objetivos individuais dos jogadores, implementação de exercícios relacionados com as carências dos jogadores. Mas o Lino é um profissional preparado e que entende bem todas as áreas do treino», frisa o treinador e atual presidente do Marinhense, em conversa com A BOLA.
«Não é surpresa, até porque nós também fazíamos todo o trabalho de bolas paradas. Era desenvolvido, na altura, pelo João Gião, que está na equipa B do Sporting, mas todos nós tocávamos em todas as áreas. Era visível que era uma coisa que lhe agradava e da qual ele gostava. Disso não há dúvida nenhuma», complementa João Carlos Pereira.
«Não sei se foi ele que enveredou por esta área ou se foi este tipo de tarefas que lhe foi atribuído. É uma pessoa bem preparada e com capacidade para refletir sobre o processo de treino. Não me surpreende de maneira nenhuma que esteja a fazer um bom trabalho. Como faria noutras áreas», refere ainda o técnico ao nosso jornal, antes de destacar a preparação de Lino Godinho ao longo dos últimos anos no futebol.
«Quem anda no futebol tem que se rodear de boas pessoas e de bons profissionais. As oportunidades às vezes chegam, outras vezes não chegam. E há algo fundamental para mim: quando chegam, que as pessoas estejam preparadas e que sejam competentes. E o Lino é daqueles profissionais que, ao longo da carreira, se foi dotando de conhecimento, foi-se rodeando de pessoas que lhe podiam aportar conhecimento também. Foi aprendendo, foi evoluindo e não tenho dúvidas nenhumas de que é um técnico altamente qualificado, porque se preparou para isto», rematou.
Gabri Veiga como executor de topo
Se o momento que atravessa não é o melhor no que toca ao jogo jogado, Gabri Veiga confirmou, na deslocação ao FC Porto à Choupana, que continua, pelo menos, a ser ameaça permanente nos lances de bola parada, em particular nos pontapés de canto.
Na Madeira, ao colocar a bola redondinha na cabeça de Jan Bednarek para o golo que decidiu o encontro, o médio espanhol chegou à oitava assistência da temporada — ninguém no plantel dos dragões soma mais —, a quinta na conversão de um canto. O camisola 10 não fazia um passe decisivo desde 14 de janeiro, dia em que a turma de Farioli venceu o Benfica por 1-0, nos quartos de final da Taça de Portugal: aí, serviu (novamente) Bednarek para o triunfo.
O peso dos pontapés de canto na produção goleadora do FC Porto na Liga é, de resto, assinalável e iguala a do total da temporada: 23%. Os dragões são a equipa com mais tentos nascidos desse tipo de lance, mas o Tondela, por exemplo, marca um terço dos golos assim...