Conversas provocaram verdadeiro tumulto nas redes sociais

Proença: um líder nunca despe o fato

O futebol português continua a ser de fina ironia; último escândalo até nasceu de gravação ilegal, mas relevante

O futebol português tem uma capacidade quase poética para transformar os bastidores num tribunal de praça pública. A publicação de áudios de Pedro Proença (gravados há cerca de dois anos, quando presidia à Liga e candidatava-se à FPF) é apenas mais uma prova da devassa política vigente e, ao mesmo tempo, um olhar íntimo de como jogam as peças no poder.

O tom despretensioso com que Proença desclassifica a qualidade da arbitragem nacional assenta que nem uma luva no ceticismo do adepto comum e mostra que o discurso público é muito diferente do que realmente se pensa. Os cargos ditam posturas e há coisas que, evidentemente, deviam ficar para consumo interno.

Para quem fez da defesa da transparência e da modernização o seu cavalo de batalha, ver a linguagem de bastidores exposta fragiliza a autoridade moral de Proença. Estas declarações dinamitaram o setor, como se vê pelo comunicado da APAF, associação da qual Proença já fez parte e da qual foi, seguramente, seu principal integrante.

A gravação tem algum tempo, é certo, e mesmo que Proença explicasse o que pretendia da arbitragem aos interlocutores, com a publicação dos áudios perde trunfos na imparcialidade institucional e atinge quem tem de garantir a verdade desportiva.

O impacto vai muito além da imagem individual de Proença, porque acerta em cheio na própria estrutura do futebol nacional. Ao classificar os árbitros como sendo, na maioria, medíocres, Proença subscreveu informalmente o discurso corrosivo de clubes e adeptos.

Como podem agora a FPF (e o seu autónomo Conselho de Arbitragem) exigir respeito pelos árbitros, quando se ficou a saber que o próprio presidente verbalizou o mesmo descrédito que dirigentes e adeptos usam como arma de arremesso? A credibilidade do setor e a coesão entre os órgãos sociais ficam seriamente abaladas.

Ainda assim, o detalhe mais revelador está no timing e na intenção. A divulgação de um registo com dois anos, devidamente selecionado e cortado, só pode ser considerado como um ataque cirúrgico e politicamente pensado.

O objetivo é desferir um golpe direto no coração do mandato de Proença, minando a sua liderança no exato momento em que precisa de autoridade para lidar com tudo o que se passa na arbitragem: a demissão de Duarte Gomes e a consequente investigação da Justiça sobre alegadas interferências nas nomeações de árbitros para jogos.

Sabe-se que pelo menos um dos áudios é a gravação de um ato de campanha junto do Benfica. Portanto, há duas entidades, e pelo que se apurou, apenas duas, naquele encontro: a candidatura de Proença e o clube da Luz, representado, pelo menos, pelo presidente da AG, Fernando Seara, a quem Proença fala em tom quase ameaçador. Seara, recorde-se já agora, era apoiante do concorrente de Proença, Nuno Lobo.

E Proença aprendeu agora, de forma dura, a regra de ouro do futebol português: nos corredores do poder, o microfone está sempre ligado e um líder nunca pode despir o fato . O futebol nacional também continua a ser de fina ironia… Sabemos isto porque alguém cometeu a ilegalidade de gravar uma conversa (alegadamente) não autorizada. E, já agora, o clube com quem decorre pelo menos uma das conversas, apoiou o projeto de Proença. Terá ficado convencido, então, com o que ouviu. O Benfica e outros, diga-se.

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