«Foi a primeira e única vez que vi um treinador a dar instruções com um megafone»
Destino Aventura é a rubrica em que A BOLA dá a conhecer os jogadores espalhados pelos cantos mais remotos do mundo. Hugo Moreira, lateral-esquerdo de 35 anos, recorda a passagem pelo Zimbru (Moldávia), em 2016 e 2017, e a mudança para Hong Kong, em 2024.
— Qual foi a realidade que encontraste na Moldávia, em comparação com Portugal?
— Nós estávamos na capital, que era Chisinau, mas não havia muitas coisas para fazer. Tanto é que quando os meus pais me iam visitar, em três dias viam tudo. A minha vida, nesse sentido, era levantar-me, tomar pequeno-almoço, treinar, ginásio, almoçar, ginásio e descansar. Era a vida que eu tinha basicamente. Quando tínhamos folga íamos até ao shopping dar uma volta, jogar um bowling. De resto havia pouco a fazer. Juntávamo-nos nos quartos para jogar um FIFA ou ver futebol. Depois eu era do Benfica, o Hugo era do Sporting, o Jean, que era um brasileiro que estava connosco, era do Corinthians.... Começámos a ganhar esse laço um bocado familiar e a partilhar os gostos de cada um.
— Chegaste a contar uma história sobre um treinador que usava um megafone para dar instruções. Queres recordar esse episódio?
— Nunca tinha visto uma coisa assim. Não era o treinador da nossa equipa. Quando começo a ouvir aquilo pensei que era alguém da claque, um chefe da claque... Quando olho para o banco, está ele de megafone a dar instruções. Surreal, mas não me surpreendeu. Nem estava muita gente nos estádios. Na altura, eles estavam a fazer um bom campeonato, estava a resultar... Mas foi muito engraçado. Foi a primeira e única vez que vi uma coisa daquelas, mas sendo na Moldávia não me surpreendeu muito.
— O campeonato moldavo tinha qualidade?
— Não existe comparação com Portugal. O Sheriff tinha alguma gente a assistir aos jogos. O Zimbru tinha aquela parte mais dos ultras, que iam para todo o lado, um bocadinho mais avariados do que o costume.
A mudança para Hong Kong
— Voltaste a deixar Portugal para ires para Hong Kong, como é que tiveste essa oportunidade?
— Foi um amigo meu, que jogou comigo na formação do Salgueiros muitos anos. Sempre mantivemos contacto. Ele aos 18 anos sai de Portugal e vai para França. Esteve lá nove anos e veio para cá para Hong Kong. Está aqui há sete anos. Todas as vezes que visitava Portugal, principalmente no verão, chateava-me a cabeça para ir para Hong Kong. ‘Podias jogar lá, queres ser treinador também, podes trabalhar lá, ganhar dinheiro’. E eu disse que não. Na altura em que começou a insistir mais, eu ainda estava a tirar o primeiro nível de treinador. Entretanto acabei a licença, só que estava numa relação. A minha ex-namorada acaba comigo e, no dia a seguir, a minha reação foi tomar um novo rumo na minha vida. Mando mensagem ao Jean, pergunto-lhe se a oferta de trabalho ainda estava de pé e ele, todo contente, disse logo que ia tratar disso. Isso foi no início de março [de 2024], as conversas começaram por surgir e em abril tive a minha entrevista de trabalho com a empresa com que estou a trabalhar. Eles gostaram de mim. Só que tive de esperar alguns meses até ter o visto de trabalho. Tive de esperar até agosto. Estava demorado, havia sempre um documento que faltava. Em agosto tive o sinal verde para viajar. Comecei a trabalhar numa empresa de coaching e com o Jean na nossa empresa de treinos individuais. Comecei a treinar no Hong Kong FC, que é a equipa em que estou atualmente.
— E não jogas futebol?
— Este ano estou a jogar. No outro ano não joguei. Estive a fazer uma semana de treinos com eles, gostaram bastante, mas o orçamento era curto. É tipo um clube privado, com muitos sócios, mas têm vários desportos. Ofereceram-me pouco dinheiro por mês e num domingo, a fazer treinos individuais, fazia aquilo. Treinar quatro vezes por semana, mais o jogo ao fim de semana... Primeiramente não tinha tempo e depois o dinheiro não compensava. No ano passado também estava a trabalhar aos sábados e domingos de manhã. Eu era treinador dos sub-14 do Hong Kong e os jogos tanto podiam ser ao sábado como ao domingo à tarde. Era impossível conciliar. Este ano as coisas estão um bocado diferentes. Estou como adjunto dos sub-18, os jogos são às sextas-feiras à noite e facilita-me imenso na questão de jogar. Treino ainda duas equipas, os sub-11 tem uma primeira e uma segunda equipa. Depende se tens muitas inscrições. Eles metem quatro equipas se for preciso. Depois há muito trabalho nas escolas, a empresa está agregada a várias escolas daqui.
— Como é a vida em Hong Kong?
— É tudo muito intenso. O pessoal vive muito para o trabalho e posso confirmar isso, porque agora ao jogar basicamente não tenho nenhum dia de folga. A minha folga este ano é ao domingo, no ano passado era à quinta-feira. Mas até há meses em que não tenho dia de folga, porque os jogos muitas das vezes calham ao domingo. O resto é sempre andar de um lado para o outro. Depois, tudo aqui parece tão perto e ao mesmo tempo tão longe, porque andas muito a pé. Os transportes públicos são espetaculares. A nível de mobilidade, é muito fácil. Vens cá uma vez, entras numa estação de metro e dificilmente te perdes. Ou é quase impossível, está tudo tão bem sinalizado. Só que depois andas de um lado para o outro, parece perto e já andaste 20 ou 25 minutos. O que no Porto é impossível. Qualquer coisa pegas no carro e vais nem que seja para andar um quilómetro. Aqui não. Andas sempre a pé ou usas os transportes públicos. É tudo mais facilitado do que em Portugal. Não falham a nível de horários, não há autocarros e metros atrasados. Organização pura. A nível de infraestruturas, não é nada como Portugal. Constroem tudo em altura, o metro quadrado aqui é caríssimo. Se me falares em qualidade, estádio e tudo... nós jogamos muitas vezes em Mong Kok e parece relva de jardim. É das piores relvas que já vi.
— As pessoas de Hong Kong gostam de futebol?
— Não. De maneira nenhuma. Nada a ver com Portugal e com a Europa. Se vierem cá jogar o Manchester United, Milan, Liverpool, ficam todos entusiasmados e enchem os estádios. Ainda jogámos há pouco tempo contra o Lee Man e o Tai Po, que é o atual campeão nacional e, e estão, sei lá, umas 200 ou 300 pessoas a ver o jogo.
— E relativamente à qualidade do campeonato?
— Os estrangeiros têm qualidade, principalmente os que jogam nas melhores equipas. Na minha equipa temos muitos estrangeiros, mas não têm qualidade. A nossa equipa é muito fraquinha. Adotam um estilo de apostar mais em jogadores da academia do que propriamente investir para fortalecer a equipa para lutar pelo título nacional. O objetivo deles é meter os miúdos a jogar e que possam ter algum sucesso com isso. Nas outras equipas até há vários brasileiros com muita qualidade. Até já foram naturalizados para poderem jogar pela seleção de Hong Kong. Mas o nível médio é fraco. O jogador local é fraco.
— Se calhar não têm grande formação...
— É, a nível tático é horrível. Mas acho que o problema deles é a mentalidade futebolista e cultural que têm no sentido desportivo. São pouco competitivos. Tive um choque enorme quando comecei a treinar a minha equipa de sub-14. Os miúdos basicamente não querem saber de futebol. Se ganharem está tudo bem, se perderam está tudo bem na mesma. Aqui no Hong Kong FC, os miúdos têm muitas posses, os pais são ricos. Houve alturas em que os pais falavam comigo e diziam que o filho não ia poder jogar porque iam de férias ou de fim de semana ou porque iam ter uma festa num barco. E eu... Então não pode ir depois ou ir lá ter? É a mentalidade que têm no futebol, é para passar tempo. Os miúdos aqui praticam mais de cinco desportos. Têm o futebol, praticam atletismo, rugby... fazem tudo. Nos sub-18, o treinador principal perguntou-lhes o porquê de jogarem futebol. Quando és sub-18 e eu estava lá, dos seniores, podiam dizer que o objetivo era chegar à primeira equipa. E não. As respostas deles é que era para se manterem em forma, divertirem-se, estar com os amigos. Tanto é que temos duas equipas em cada escalão e já tivemos de juntar as duas equipas e tivemos 12 jogadores. Desculpas... horrível. Mas é a mentalidade competitiva deles. O futebol não está em primeiro plano. Não tem nada a ver com Portugal.
— Qual é o desporto mais popular em Hong Kong?
— Diria que é o rugby, porque tem muita influência britânica. Aqui no clube, quando há dias de rugby, o estádio está cheio. Quando somos nós a jogar em casa, temos 200 pessoas, nada de especial.
— Como foi e é em termos da língua?
— No clube toda a gente fala bem inglês. Nas escolas em que vamos trabalhando, os miúdos também falam inglês. Têm inglês desde muito cedo. Têm o mandarim, cantonês. Depois depende da escola. Há escolas francesas, australianas. Pessoal local e mais velho tem mais dificuldades, mas conseguem perceber.
— Já dás uns toques no cantonês?
— Esquece, aqui o cantonês é mais difícil de aprender do que o mandarim. Quando cheguei aqui estive para aí uma ou duas semanas a tentar aprender. Não dá.
— Pensas num regresso a Portugal?
— Se tivesse de dar uma resposta agora, diria que brevemente volto para Portugal, tentar trabalhar em Portugal. Jogar não. Diria que o meu último clube vai ser aqui. A nível físico tem sido brutal.
— E carreira de treinador?
— Não tenho esse sonho de ser treinador de um grande... Não me revejo muito nesse papel. Talvez mais num papel mais secundário, mas gosto muito de trabalhar com crianças. Vejo-me mais como treinador da formação, integrar uma equipa técnica, talvez.