Destino Aventura é a rubrica em que A BOLA dá a conhecer os jogadores espalhados pelos cantos mais remotos do mundo

A difícil adaptação à... comida da Moldávia: «Pensei que ia morrer de overdose»

Hugo Moreira, lateral-esquerdo de 35 anos, fala sobre a experiência na Moldávia, ao serviço do Zimbru, e o regresso a Portugal, depois da mudança frustrada para Espanha

Destino Aventura é a rubrica em que A BOLA dá a conhecer os jogadores espalhados pelos cantos mais remotos do mundo. Hugo Moreira, lateral-esquerdo do Hong Kong, recorda a passagem pelo Zimbru (Moldávia), em 2016 e 2017, e o regresso a Portugal pela porta do Cinfães.

— Como foi a chegada repentina à Moldávia? 

— No domingo houve um churrasco em casa do presidente do Zimbru para estarmos todos juntos, para nos ambientarmos. Posso garantir que depois desse churrasco... fiquei com uma diarreia. Na segunda-feira, de madrugada, vomitava... Esquece, passei a noite toda na sanita. A meio da noite liguei ao Rémulo. ‘Olha, não consigo quase falar e ter dois minutos de descanso. Fala com o médico para ir aqui, por favor. Meia hora depois lá aparece o doutor. Era o típico russo, grandalhão. Umas mãos que eram três das minhas. Muito engraçado, gente boa. E ele: ‘Não te preocupes que vou tratar de ti. Amanhã vais estar novo. Deu-me não sei quantas pastilhas. Deu-me uma caixa com não sei quantos comprimidos. Sei que eram três caixas. De uma vez, tinha de tomar nove ou 10 comprimidos. Ele a dizer-me isso tudo e eu a perguntar de quantas em quantas horas... E ele: ‘Não, é já. Vais já tomar. Daqui a três horas vais comer qualquer coisa e vais tomar outra vez esses nove ou 10 comprimidos’. Pensei que ia morrer de overdose de tanto comprimido. O que é certo é que fiquei bem. Mas isto foi na segunda-feira e na quinta estava a jogar na pré-eliminatória da Liga Europa com o Osmanlispor e eu joguei os 90 minutos. Nos primeiros 15 minutos não parava de olhar para o placard e a dizer ‘Meu Deus'. Estava morto, mas lá está, com a adrenalina de tudo e a atmosfera, depois de um toque, dois toques, as coisas começam a sair bem e até consegui fazer um bom jogo. 

— Voltaste a experimentar a comida da Moldávia ou desististe? 

— Voltei, que remédio. Morávamos no hotel do clube. Aquilo era um complexo grande, tinha um estádio, as casas dos miúdos lá dentro, o hotel, campo de treino, sintético. A nível de infraestruturas era muito bom. Saías à volta do complexo e eram prédios completamente destruídos, era uma pobreza tremenda. Mas lá no complexo tínhamos grandes condições. Comia sempre lá, pequeno almoço, lanche, almoço, jantar... Tive de me ambientar. Tinha um restaurante e íamos lá algumas vezes. Gostávamos muito da sopa. Depois era tudo à base de massas. Lá no hotel do clube era tudo muito à base de frango. Acho que nunca comi frango de tantas maneiras. Inventavam pratos de frango. Nunca vi nada assim.  

— Como foi a adaptação em relação ao clima e à língua? 

— Ao início era o único português, mas tínhamos muitos brasileiros. Quando cheguei lá, na altura em que estávamos na Liga Europa, o César Boaventura andava a meter muitos jogadores. Era eu português, havia um angolano, um guineense e sete ou oito brasileiro, sem exagero. No início facilitou-me bastante. O inglês deles era bastante primitivo, digamos assim. Eles tinham um vice-presidente que esteve alguns anos em Portugal e falava português. Qualquer assunto que quiséssemos abordar com a direção, ou a direção connosco, era ele que fazia essa ponte. Depois tive outro português, passado um mês e tal, que era o Hugo Neto, que vinha da formação do Benfica. Ele sentiu um bocadinho mais de dificuldades e sentes mais na pele, no sentido em que se tu jogas e se estás bem, dão-te tudo. Até ao nível do ordenado. Pagam-te o ordenado todo. Se não estiveres a jogar e não gostarem tanto de ti, são capazes de te dar aos terços. Aí torna as coisas um bocado mais difíceis e ele sentiu um bocadinho mais de dificuldades do que eu nesse sentido. Quando estás longe, o teu objetivo é mais a nível financeiro, poderes amealhar algum dinheiro para depois voltares a Portugal ou ires para outro lado. Quando a parte financeira não está a corresponder, sentes que estás um bocadinho a mais e perguntas-te o que estás ali a fazer.  

A mudança frustrada para Espanha e o regresso a Portugal

— Depois da experiência na Moldávia, regressas a Portugal para representar o Cinfães na segunda metade da época 2017/2018. Como é que surgiu essa hipótese?  

— Eu era para ir para a Segunda Divisão Espanhola, para o Zamora. Iam entrar lá uns investidores que iam meter o Dominguez como treinador. A única coisa que eu tinha de fazer era rescindir com o Zimbru. Consegui a rescisão de contrato, também me deviam dois meses. Abdiquei dos dois meses e pronto, ia assinar um contrato de dois anos. Estive dois anos na Moldávia. Lá, o Sheriff é como se fosse um Bayern. Vai buscar todos os jogadores que se destaquem, principalmente estrangeiros. Na altura eu e o Jean estávamos a render e em todas as janelas o Sheriff fazia proposta. O Zimbru dizia que não. Quando eu assino a rescisão, eles obrigam-me a assinar uma cláusula de que durante um ano não posso voltar a jogar num clube moldavo, sem ser o Zimbru. Eu queria estar mais perto da minha família e indo para Espanha era ótimo. Nem pensei nisso. Tinha assinado um pré-contrato com o Zamora. Mas, entretanto, nas últimas semanas de janeiro, o Zamora tem um intervalo de jogos e, azar o meu, penso eu, porque a minha carreira poderia ter sido diferente no futebol, ganhou os quatros jogos e o treinador já não foi embora. Na altura ia eu e o Digas, um amigo meu que estava no Boavista e esteve no Cinfães também comigo. Íamos os dois e ficou sem efeito. Isto foi a 30 de janeiro, o mercado fechava a 31. O Digas estava lá no Cinfães e eu tinha de arranjar uma solução muito rapidamente. Foi aí que surgiu a hipótese de ir para o Cinfães. 

— Nessa altura, o Cinfães liderava a sua série no Campeonato de Portugal...  

— Estávamos em primeiro. Eu trouxe a má sorte. Acabámos por ficar em sexto ou lá o que foi. Tínhamos uma equipa muito boa, jogávamos bem. Mas ao fim de semana a bola não entrava. No final de maio, o Rémulo contacta-me outra vez a dizer que surgiu uma proposta do Sheriff. Ele avisou-me logo daquela cláusula que tinha assinado. O meu pai e o Rémulo foram à Moldávia. O Rémulo conhecia lá muita gente. O que é certo é que eles não facilitaram, pediam muito dinheiro pela minha rescisão, uma coisa absurda. Era um contrato de dois anos, em que conseguia juntar bastante dinheiro, e tinha a possibilidade de jogar as pré-eliminatórias para a Champions. Acabou por não dar em nada. Nesse verão estive à espera que aparecesse alguma coisa e não apareceu. Decidi ir para o Cinfães outra vez. Ligaram-me outra vez do Cinfães, precisavam de um lateral-esquerdo e eu não podia ficar mais tempo parado. Só que depois descemos de divisão e o telemóvel em vez de tocar 10 vezes, só toca duas. Senti-me frustrado pelo que aconteceu durante esse ano. Surgiu a proposta do Salgueiros outra vez. Contactaram-me do Salgueiros e eu tinha na cabeça a ideia de voltar a estudar. Os treinos do Salgueiros eram às sete da noite, ali no Cerco, e deu para juntar o útil ao agradável. Voltei ao Salgueiros e a estudar. Fui estudar gestão desportiva para o ISMAI.    

Hugo Moreira regressou a Portugal, depois da experiência na Moldávia, pela porta do Cinfães - Foto: DR
Hugo Moreira regressou a Portugal, depois da experiência na Moldávia, pela porta do Cinfães - Foto: DR

— Não surgiu nova oportunidade para ires para o estrangeiro, sem ser Hong Kong?  

— Propostas concretas não tive nenhuma. Depois estava a seguir com os estudos, comecei a tirar o curso de treinador. O tempo vai passando e percebes que o timing de qualquer coisa a mais já tinha passado. Tive essa consciência.