Pogacar é um génio perigoso
Gosto de Tadej Pogacar, confesso. Quando penso que já não pode surpreender, eis que se reinventa e volta a deixar todos de boa aberta. Em San Remo, naquele monumento que lhe faltava caiu a 33 quilómetros da meta. «Acabou» exclamaram todos os entendidos, com razão. As imagens da televisão mostravam o caos. Rasgado, ensanguentado, levantou-se e voltou à estrada. De forma inacreditável, como se não sentisse dor, sofrimento ou medo. Encontrou forma de ganhar ao sprint. Quatro centímetros. Por quatro centímetros, transformou a corrida numa vitória impensável, memorável.
E ninguém questionou esta exibição de superioridade por se tratar de Pogacar. Parecia normal, foi normal, por ser Pogacar, que já mostrou que nada está fora do seu alcance. Mais do que ler – e li – as centenas de comentários nas redes sociais que cada vez mais questionam a naturalidade da sua competência e agitam a eterna e resistente bandeira do doping, colada irremediavelmente ao ciclismo, pergunto-me até onde esta normalização dos seus feitos nos levará.
Atacou, insistiu, venceu. No final, soube-se que o fez com uma bicicleta danificada, travões comprometidos! Como se não bastasse apenas a sua exibição de superioridade, ainda somos confrontados com mais este doce pormenor. Como não adorar um enredo destes?! Um final feliz para um herói que nem é particularmente expressivo ou entusiasmante, quando salta da bicicleta.
Às vezes, parece que oiço o saudoso Fernando Emílio e imagino o que diria de Pogi. Uma parte sei, mas não posso reproduzir aqui por pudor, ainda que a ideia me faça sorrir ao imaginar aquele sotaque alentejano a reproduzir as suas teorias.
Gosto de Pogacar, gosto dos heróis, mas questiono se estaremos a normalizar a sua superioridade e por que caminho isso nos leva. O problema não é o esloveno – assim espero, porque ninguém aguentaria mais um herói com pés de barro - que é, provavelmente, o ciclista mais completo da sua geração. Ou de várias gerações. O problema é o que projetamos nele. A necessidade quase infantil de transformar cada vitória num feito épico, cada risco numa virtude, cada limite ultrapassado numa prova de grandeza moral. E quando tudo isto for normal, então o que é que deixa de ser?
Chamam-lhe génio. Talvez seja. Mas há uma linha ténue entre o génio e a exceção perigosa — aquela que reenquadra o padrão e obriga todos os outros a segui-la. Quando o impossível se torna norma, o desporto entra num território onde ganhar já não chega — é preciso sobreviver ao absurdo para merecer.
Pogacar não tem culpa disso. Ele corre. E ganha. Como sempre se pediu aos campeões. O problema não é Pogacar não ser normal. É começarmos a achar que isto devia ser.