Pedro Afonso: «Os campeões são esquecidos, quem deixa um legado é sempre lembrado»
Perfil realizado por Vasco Félix de Oliveira, no âmbito da disciplina de Jornalismo Desportivo da Licenciatura em Comunicação Social e Cultural da FCH-Católica, à qual A BOLA se associa.
Come arroz em todas as refeições, foge das superstições, admite que vai viver eternamente na ‘idade dos porquês’ e compra dois pares de sapatilhas sempre que precisa de calçado novo para correr. Não é um capricho. O pé direito é maior do que o esquerdo, e acaba por escolher usar uma sapatilha de cada cor. É só mais um detalhe curioso num atleta que nunca pareceu encaixar nos moldes habituais.
Aos 19 anos, Pedro Afonso já foi vice-campeão europeu Sub-20 dos 200 metros, correu em Mundiais seniores e bateu quase duas dezenas de recordes nacionais. Mas, quando fala do futuro, raramente começa pelas medalhas. «Os campeões são esquecidos. Quem deixa um legado é sempre lembrado», diz, sublinhando que toda a gente sabe quem é Usain Bolt, mas «ninguém sabe quem é o atual campeão olímpico dos 100 metros». E é essa ideia que parece mover um dos maiores talentos da velocidade portuguesa da atualidade.
A maturidade da reflexão contrasta com a idade. Enquanto muitos atletas da sua geração falam sobretudo de tempos, medalhas ou sonhos, Pedro Afonso prefere discutir ideias. Não tem problemas em estar sozinho, gosta de pensar, de questionar as próprias decisões e de perceber o porquê das coisas. Foi essa forma de estar que o levou a adotar uma alimentação vegana aos 14 anos e a encarar a carreira como um projeto de longo prazo. O objetivo não é apenas correr mais depressa do que os outros, mas sim deixar uma marca.
A forma como se prepara para competir também foge ao habitual. Nos aquecimentos é comum vê-lo de headphones colocados, mas raramente está a ouvir música. Usa-os para reduzir o ruído e «criar um espaço próprio». Não procura adrenalina nem motivação extra. Prefere concentração.
A forma como olha para a vida não surgiu por acaso. Há cerca de três anos, teve uma das conversas mais importantes do seu percurso, não com outra pessoa, mas consigo próprio. Percebeu que, algumas vezes, se estava a enganar e mentia para ele mesmo, «como a maioria das pessoas faz». Era mais fácil encontrar desculpas para os erros, ignorar algumas falhas ou adiar mudanças do que enfrentar as «verdades que doem». Desde então, decidiu deixar de mentir a si mesmo.
«Gosto muito de filosofar e perceber as coisas»
Para alguém que passa boa parte do tempo a refletir, foi um momento decisivo. Acredita que «só é possível evoluir quando se aceita que há erros e aspetos a melhorar». A mudança não aconteceu de um dia para o outro. Foi um exercício que o obrigou a olhar para as suas fragilidades, a admitir aquilo de que não gostava em si e a reconhecer erros sem procurar culpados. «Começas a ver as coisas de uma forma mais clara», explica.
Essa procura por evolução ajuda a explicar a forma como encara o sucesso. As medalhas, os recordes e as internacionalizações são importantes, mas surgem como consequência. O que verdadeiramente o entusiasma é a sensação de estar a caminhar na direção certa. Melhorar. Aprender. Descobrir novas formas de pensar. É por isso que fala tantas vezes em legado e tão poucas em resultados e marcas. Aos 19 anos, já alcançou mais do que muitos atletas conseguem numa carreira inteira, mas continua a olhar para o futuro como uma obra em construção.
O fascínio que surgiu na pandemia
O atletismo nunca fez parte dos seus planos. Nascido a 10 de janeiro de 2007, Pedro Afonso passou pela equitação, rugby, hóquei em patins e trampolins antes de descobrir a modalidade que mudou a sua vida. Foi durante a pandemia da Covid-19, enquanto acompanhava os Jogos Olímpicos de Tóquio, que percebeu que queria experimentar aquele desporto que «nem sabia que havia em Portugal».
A primeira tentativa não correu bem. Encontrou um clube no Pinhal Novo, mas os treinos eram feitos na rua, em estrada, com voltas e sprints improvisados. «Não gostei muito», admite. Faltava-lhe aquilo que imaginava quando via atletismo na televisão: a pista, o ambiente, «a sensação de estar num lugar feito para correr».
Foi então que o acaso entrou em cena. Durante um curso, o pai conheceu uma senhora cuja filha fazia atletismo e passou-lhe o contacto de Fernando Ferreira, treinador em Setúbal.
Quando falaram, a resposta inicial não foi animadora. O grupo já estava cheio de miúdos e o treinador até sugeriu que talvez não valesse a pena aparecer. A mãe insistiu. Dizia que o filho era muito rápido e que valia a pena vê-lo correr.
Fernando Ferreira acabou por aceitar, sem grandes expectativas. «Quando estive com ele pela primeira vez não vi nada de especial nos discretos testes que fiz», recorda o treinador. Na altura, «Pedro queria ser fundista». O treinador levou-o a um corta-mato regional, onde «terminou nos últimos lugares». A experiência serviu para afastar de vez essa ideia. Ficou a treinar, primeiro à experiência, depois de forma mais regular. Aos poucos, começou a revelar qualidades que nem o próprio treinador tinha identificado no primeiro contacto.
Pedro lembra-se da primeira vez que entrou na pista municipal de Setúbal. Foi com a mãe, chegou tímido, sem falar muito, rodeado de desconhecidos. Mas o que lhe ficou na memória foram as cores do céu do fim da tarde e o vermelho da pista. Naquele primeiro dia, com o céu a mudar de cor e o cheiro do tartan, teve a sensação de ter encontrado o lugar certo. Agora, depois de ter vestido as cores do Vitória Futebol Clube, representa o Sport Lisboa Benfica e continua a ser treinado por Fernando Ferreira.
«Sempre quis ser o melhor, mas faço desporto por diversão»
Alexandre Costa, técnico nacional de velocidade, recorda que bastou vê-lo competir uma vez para perceber o talento que tinha pela frente. «Achei que estava ali um potencial atlético enorme», afirma. A convicção foi tal que decidiu convocá-lo para um encontro internacional Sub-20 quando Pedro tinha apenas 15 anos. Recorda ter encontrado «um jovem com ideias diferentes do habitual para a sua idade».
A evolução foi rápida. Em pouco tempo passou de um miúdo que mal conhecia a modalidade para presença habitual nas seleções jovens de Portugal. A primeira internacionalização surgiu em 2023, no Dynamic New Athletics, competição europeia disputada na Polónia. Foi a confirmação de que estava a evoluir mais depressa do que imaginara. Vieram os recordes nacionais, o bronze no FOJE (Festival Olímpico da Juventude Europeia), a prata nos Europeus Sub-20 e as participações em campeonatos do mundo seniores de pista curta e de estafetas.
Embora a idade ainda não tenha chegado ao escalão sénior, Pedro já corre ao mais alto nível, tendo como melhores marcas pessoais 20.66 segundos nos 200 metros e 45.78 segundos nos 400 metros – integrando a estafeta sénior masculina de 4x400 metros que detém os recordes de Portugal ao ar livre e em pista curta (2:59.01 e 3:04.75 minutos, respetivamente) e, mais recentemente, agregou-se à estafeta sénior masculina 4x100 metros.
O seu percurso nos escalões de formação foi igualmente impressionante. Na categoria Sub-20, fixou os recordes nacionais de 100 (10.33s) e 200 metros em pista curta (21.37s), além dos 400 metros em pista curta (46.69s). Uma marca tão forte que é, simultaneamente, recorde nacional de Sub-20 e de Sub-23. Mais atrás, no escalão Sub-18, já brilhava com os recordes nacionais de 200 metros (22.01s) e 300 metros (34.17s), sendo este último o primeiro registo oficial da sua carreira a entrar nos ‘livros’ dos recordes.
Fernando Ferreira acredita que a ligação entre os dois foi determinante para o crescimento do atleta. «A relação atleta-treinador é um dos pontos altos da sua evolução». O técnico destaca a disponibilidade do jovem para aprender e seguir as orientações. «Nunca mostrou desinteresse ou dúvidas ao que lhe indico para fazer».
Seguiram-se experiências e responsabilidades que poucos atletas da sua idade acumulam. Participou em mundiais seniores de estafetas, em pista curta e ao ar livre. Em Tóquio’2025 integrou a equipa portuguesa que terminou no nono lugar, em Torún’2026 terminou na sétima posição e no Botsuana’2026 fez parte da estafeta que alcançou o quarto posto do mundo – todas em 4x400 metros.
O potencial de Pedro Afonso não passa despercebido a quem o acompanha de perto. «Se mantiver uma evolução natural, quer a nível físico quer psicológico, podemos ter um atleta capaz de lutar por grandes resultados internacionais nos próximos anos», diz Alexandre Costa.
Lado social e personalidade
Apesar da imagem reflexiva e por vezes introspetiva, Pedro Afonso está longe de ser uma pessoa fechada. Em conversa com colegas do clube e da seleção, a unanimidade é clara: É visto como alguém divertido, que gosta de conversar e contagia o ambiente positivamente com a sua energia. É também um bom amigo, embora reconheçam que ele sabe quando precisa do seu espaço.
O presidente da Federação Portuguesa de Atletismo, Domingos Castro, e o vice-presidente Sérgio Guedes, reforçam esta faceta divertida, mas acrescentam um toque de «reguila» e «rebelde» à descrição, episódios como a sua vestimenta fora do dress code nas viagens que representa Portugal e os «desaparecimentos nos aeroportos» sublinham o seu espírito livre e «irreverente».
Desafios encarados com positividade
Ainda assim, a sua carreira não tem sido isenta de desafios. Um dos mais marcantes ocorreu no Europeu Sub-18, em 2024, na Eslováquia, na prova de 200 metros, quando rompeu três músculos. Apesar da gravidade da lesão, que o levou ao hospital e o afastou das pistas por seis meses, a sua perspetiva manteve-se inabalável. «Não saí da pista triste, estava só em baixo porque não me queria lesionar», recorda. A sua abordagem pragmática levou-o a pensar: «Bem, tenho de ir para Portugal fazer fisioterapia e daqui a uns meses volto». E a verdade é que, nove meses depois, estava a competir nos mundiais de Tóquio, um testemunho notável da resiliência e capacidade de recuperação.
Outro momento frustrante surgiu nos Europeus Sub-20, realizados em 2025, na Finlândia. Considerado o favorito nos 200 metros, Pedro Afonso tinha feito o melhor tempo da competição nas eliminatórias. Contudo, na final, acabou por ficar no segundo lugar por milésimos. «Ninguém passou o meu tempo das meias-finais», lamenta, reconhecendo que se desorientou com o adversário que partiu melhor e acabou a contrair-se excessivamente na tentativa de o ultrapassar, uma lição que o jovem teve sobre a gestão da pressão em momentos decisivos.
Vegano aos 14 anos
«Comecei a ser vegano por causa da saúde. Não quero ter no meu corpo coisas que a carne tem. É um regime sustentável para o ambiente. Gosto muito da minha dieta», declara.
Aos 14 anos tomou uma decisão pouco comum para um adolescente e ainda mais para um atleta. Tornou-se vegano. Não foi por influência dos pais, ou porque alguém o convenceu e nem porque procurava melhorar o rendimento desportivo. A decisão surgiu depois de ler livros, ver documentários, pesquisar e questionar aquilo que sempre considerou normal. Quando concluiu que aquela era a escolha mais alinhada com os seus valores, mudou. Sem hesitações.
O legado para lá da pista
Quando fala das pessoas que mais admira surgem Barack Obama e Kobe Bryant. O que o atrai não são apenas os títulos ou o reconhecimento público, mas a capacidade de influenciar pessoas e de sair do seu nicho. A ideia de legado volta a aparecer. Pedro Afonso quer ganhar medalhas, bater recordes, ser olímpico e competir ao mais alto nível. Mas quer também construir algo que sobreviva no fim da carreira desportiva. Fala de empreendedorismo, de criar projetos próprios e de gerar impacto para lá da pista.
Pedro Afonso terminou o 12.º ano, na área de ciências, onde gostava de biologia – tendo mesmo participado nas Olímpiadas da Biologia e terminado «bem classificado». Mas decidiu não seguir para a faculdade. Não por falta de capacidade ou de gosto pelo estudo, mas porque não se revia no tipo de vida profissional que um curso superior lhe iria proporcionar. «Não eram as portas que as universidades abrem que eu ia querer abrir». A decisão encaixa-se na lógica que rege o resto da sua vida: não aceitar um caminho só porque é o mais comum, mas escolher aquele que faz sentido para os seus objetivos.
A ambição de deixar uma marca também tem um preço. Enquanto muitos jovens da mesma idade dividem os dias entre aulas, amigos e saídas, a rotina de Pedro Afonso é mais simples: casa, treino e competição. Fernando Ferreira conhece bem essa realidade. «Não é fácil, na idade dele, viver casa-treino e treino-casa, afastando-se de muitos dos prazeres sociais da juventude», explica. Para o treinador, uma das características que mais impressiona é a forma como o atleta lida com responsabilidades pouco comuns para alguém de 19 anos.
Pedro Afonso continua a somar recordes e a ambicionar voos mais altos, mas sem nunca ‘perder o pé’. Entre as viagens internacionais, os treinos em Setúbal e os dois pares de sapatilhas que compra por necessidade, o jovem velocista vai traçando um caminho que é só seu.
Recusa prender-se a superstições, acreditando que rituais vazios apenas serviriam para limitá-lo, e prefere confiar na sua própria preparação e mentalidade. Mais do que as medalhas que guarda ou os milésimos de segundo que tenta bater, o que o move é a vontade de não ser apenas mais um campeão passageiro. Com uma maturidade invulgar para os seus 19 anos e uma resiliência que já foi testada, Pedro corre para deixar uma marca que dure tanto quanto as suas sapatilhas de cores trocadas. No fim de contas, para quem decidiu viver e correr sem limites, o verdadeiro legado está na coragem de ser autêntico, dentro e fora da pista.