O último reduto

O que temos por cá é a opacidade, senão mesmo a escuridão da arbitragem

Q UASE passou despercebida a notícia de que, a partir da nova época, a Série A italiana passará a publicar as conversas tidas, ao longo dos jogos, entre os árbitros e o VAR. O dirigente Gianluca Rocchi salientou que «a federação italiana será a primeira a veicular áudios de ocorrências que são objecto de discussão». Ao anunciar esta medida corajosa e inovadora, referiu ainda que «o problema não é se um erro foi cometido, mas porquê».  Anotemos que esta medida foi tomada pelo órgão arbitral. Isso mesmo, pelos árbitros, que, por esta via, se oferecem ao escrutínio público, sem medo de se verem confrontados com os seus erros ou hesitações e sensíveis à pedagogia da aprendizagem constante. 

Por cá, temos a opacidade, senão mesmo a escuridão da arbitragem. O Conselho de Arbitragem (CA) finge-se morto, nada se passa, as nomeações são um enigma, as dos VAR outro enigma são, os erros tornam-se jurisprudência selectiva, as classificações dos juízes são sujeitas a critérios (e pressões?) de um inaceitável secretismo. O famigerado CA é uma organização de árbitros que, simultaneamente:

a) acha que não tem contas a prestar a ninguém, mesmo a quem paga directa ou indirectamente (nós) a arbitragem;

b) entende que o escrutínio, a transparência e a accountability são assuntos a evitar;

c) não estimula a meritocracia, antes promove a mediocridade e formas ínvias de putativos poderes;

d) se apraz num labirinto interno onde a culpa é sempre alheia e o erro é promovido à normalidade;

e) e que, lá do seu falso pedestal, não sabe conviver com a legítima crítica a que todos os intervenientes estão sujeitos.

No Portugal democrático, também a forma como se punem jogadores e técnicos quando exprimem a sua opinião divergente sobre lances ou momentos críticos da arbitragem é incompreensível e cheira a mofo autocrático. Suas Excelências acham-se auto-imunes à apreciação e entendem não ter de dar explicações a ninguém. Não falo da má educação, do insulto ou do despautério de certas declarações que, obviamente, devem ser objecto de justa apreciação disciplinar. Falo, tão-só, do direito à discordância e à crítica do seu trabalho. Depois queixamo-nos da ausência de árbitros portugueses no Mundial e lamentamos que a nossa Liga seja um produto dificilmente exportável…

Com um bom propósito, porém, louva-se a iniciativa anunciada pela FPF de constituir um grupo de trabalho para se avançar para um modelo de organização da arbitragem que contemple uma entidade externa, tal como acontece em outros países.

Espero estar enganado, mas quando tal comité é liderado pelo presidente do irreformável CA e envolve a APAF,  desconfio dos resultados. Por outras palavras, pedir ao imobilismo corporativo  para se auto-reformar não me parece o melhor caminho a seguir

E.T. Leio agora que, no Mundial feminino, as decisões do VAR serão explicadas em tempo real a toda a gente. Muito bem!
 

 

FOLHA SECA
Castigos para ‘mouros’

David Neres foi castigado por simpatia. Um joguinho, para não ficar atrás dos castigos de portistas no ano passado. O Conselho de Disciplina (CD) veio agora justificar a decisão pelo facto de Neres ter usado as expressões  ‘chupa’ e ‘chora bebé’. Assim se julgou com resultados iguais o que na sua génese foi bem diferente. Ou seja, entendeu-se que insultar boçalmente um clube enquanto instituição é o mesmo que uma piada (de discutível gosto, é certo) a um jogador adversário, e que chamar ‘f.p.’ é  idêntico a dizer as invocadas expressões de Neres.


O CD veio também explicar que, afinal, por razões formais, não puniu o jogador por ter alegadamente chamado ‘lagarto’ ou ‘tripeiro’ aos seus colegas de profissão. Não fosse assim, e lá teria o Neres levado uma acrescida punição. As velhas ‘alcunhas’ que, desde sempre, se disseram, em geral com bonomia e humor, entre os clubes podem ser agora pecados para o tão sensível CD! Cá para mim, chamarem-me ‘lampião’ não é um insulto, é antes uma expressão humorada de pertença que jamais renego. Já coisa diferente e no mínimo depreciativa é chamar ‘mouros‘ aos rivais da capital. E que eu saiba, nunca tal insulto foi punido!

Ah, falta agora castigar Vlachodimos pelo que terá dito no recato do balneário, após o jogo que o Benfica venceu no Dragão (shit team these guys are). Ou terá sido cheat team these guys are? Foneticamente, a diferença entre shit team e cheat team (equipa enganadora, com truques) é muito subtil.

Mas eu confio no linguista que, por certo, vai dilucidar o CD sobre o inglês do grego. Seria bom saber o que se terá dito na cabina do clube adversário, mas isso são outras histórias a que, aliás, já estamos habituados a ouvir no banco e durante o próprio jogo.
 

 


JOGOS FLORAIS

'Mérito do Carlos, excelente atitude'
NOVAK DJOKOVIC, após perder a final de Wimbledon

Wimbledon sempre. Foi assim que o quase imbatível Novak Djokovic sintetizou a final de Wimbledon em que foi superado pelo espanhol Carlos Alcaraz. Escolhi esta frase, como poderia ter escolhido outras desta final ou de tantas outras partidas de ténis, em geral com elevado grau de fair play. Em Wimbledon - o torneio mais emblemático do mundo, numa inigualável junção da tradição, da solenidade e da frescura estética -  assistimos a um jogo electrizante ente um veterano de 36 anos habituado a ganhar e um jovem de 20 anos ávido de vitórias.  


FAVAS CONTADAS

A terceira vez. Pela terceira vez (descontados os anos da pandemia) não haverá a Eusébio Cup. Criada em 2008, não se realizou em 2017 e 2019. Este ano, aponta-se como um dos motivos da desistência a nova relva da Luz. Recordo que já se disputou, por exemplo, no Algarve. Lastimo a reincidência da ausência. Eusébio merece que jamais se falhe no jogo da taça que tem o seu nome.


FOTOSSÍNTESE

TOUR SEMPRE INCOMPARÁVEL. Sempre gostei de acompanhar o Tour. Lembro-me como me regozijei com um então quase impensável 10.º lugar de Alves Barbosa em 1956 e com os notáveis feitos de Joaquim Agostinho. Então socorria-me das muitas páginas que A BOLA dedicava ao Tour. A televisão era escassa e os Alpes e Pirenéus com os seus ‘col’ eram mais produto da imaginação do que da imagem visionada. Este ano um Tour ainda mais luminoso com a fantástica disputa entre os vencedores dos últimos dois anos. Com soberbas emissões televisivas, seja no interior do pelotão seja no contexto paisagístico e patrimonial. E com o excelente duo de comentadores Marco Chagas e João Pedro Mendonça.