Jorge Braz: «Começamos no fundo da montanha e temos de ir escalando»
Portugal regressa a Liubliana, oito anos depois de aí ter conquistado o primeiro de dois Campeonato da Europa de forma consecutiva, para disputar a fase de grupos do Euro 2026, que começa contra a Itália, no sábado, a partir das 13h30. Jorge Braz, Selecionador Nacional desde 2010, vai comandar a equipa lusa numa grande competição pela décima vez.
O técnico de 53 anos que acumula tarefas de coordenação das equipas técnicas das seleções nacionais analisa os adversários da equipa das Quinas na fase de grupos, reitera a dificuldade crescente de elaboração da convocatória e exalta o potencial da «família» lusa, em entrevista a A BOLA.
— Mais do que um objetivo, a conquista do tricampeonato europeu é uma consequência do processo que tem vindo a ser construído?
— Andámos vários anos a acreditar muito que era possível conquistar um título e conseguimos. A última competição [eliminação nos oitavos de final no Mundial 2024] correu mal, foi a pior desde que eu estou aqui, mas é desporto. Todos os dias temos que querer mais. Queremos estar no último jogo, mas isto vai ser passo a passo. Começamos no fundo da montanha, como todos os outros, e temos de ir escalando. O problema é quando colocamos o ênfase no final da competição. O percurso constrói-se ao longo dos jogos: ganhar o grupo e depois ir preparando os jogos a eliminar. Sabemos muito bem o que é construir este percurso competitivo para chegar a algo que nos orgulhe a todos. Definir objetivos é muito fácil. O problema é lembrar-me todos os dias do que estou a definir. Se defino um objetivo dessa magnitude, o meu comportamento diário tem que andar nesse nível, senão depois não vou reagir, especialmente aos momentos maus em que as coisas não acontecem como previa. Por isso é passo a passo. Sabemos muito bem quem somos, do que é possível e onde queremos chegar. Assumimos que todos os jogos são para ganhar. Queremos passar em primeiro no grupo e estar na próxima fase.
— A conquista dos últimos Campeonatos da Europa acrescenta responsabilidade ?
— A responsabilidade é sempre a mesma. Estarmos a representar a Seleção Nacional e o futsal português. Estar nesta casa pressupõe uma enorme responsabilidade estar no desporto neste nível pressupõe querermos sempre mais. Queremos estar novamente na final e ter a oportunidade de voltar a levantar um troféu. Mas não traz mais pressão. A responsabilidade tem que ser intrínseca, diária, sentida, para todos os dias nos prepararmos para o que vem aí.
— Quando anunciou a convocatória final disse que pela primeira vez tinha deixado «quase uma equipa de fora». O alargamento da base de recrutamento atesta a evolução do futsal português?
— Esse é talvez o principal fator de desenvolvimento e a principal diferença em relação há uns anos. Antes discutíamos um/dois jogadores que não iam e podiam ir. Agora discutimos sete, oito ou nove. Isso tem a ver com o trabalho de desenvolvimento das seleções jovens, que dão a oportunidade aos miúdos de se irem preparando ao longo das etapas de formação para chegarem qualificados lá acima. Não é só fruto da Federação, mas também do trabalho de excelência de muitos clubes e associações. Previa que isto fosse possível, queria muito que este processo crescesse em quantidade e qualidade para que o selecionador tivesse estes problemas. Felizmente aconteceu e está a acontecer de forma natural. Foram surgindo sempre jovens nas grandes competições. Esta sustentabilidade de qualidade da seleção nacional é decisiva se queremos estar nas decisões e ter oportunidade de ganhar títulos. O que está em baixo e que ninguém vê é fundamental. Só vêem o Jorge Braz e a Seleção Nacional. Os sub-19 são campeões da Europa. Cada seleção distrital, cada clube, cada associação que trabalha isto com qualidade é o que nos sustenta.
— Na convocatória para o Euro há três estreantes: o Diogo Santos, o Ruben Góis e o Bernardo Paçó…
— Em 2021, o Bernardo foi ter connosco ao hotel e disse-lhe ‘então desequipaste-te?’. Pensei que era o Tomás, mas era o Bernardo. Os três já têm muita experiência competitiva no clube e em seleções jovens. O Bernardo e o Diogo já estiveram connosco na qualificação. O Diogo num nível top, o Bernardo num ou outro jogo também com uma resposta fantástica. Existirá de certeza essa ansiedade positiva da primeira vez numa fase final, mas com a qualidade e com o nível de experiência competitiva que já têm e com a vontade com que estão vão acrescentar ainda mais irreverência, vontade e motivação à equipa.
— O Rúben surge muito bem nos jogos particulares, aproveitando a ausência do Zicky Té…
— O Góis foi aproveitando muito bem. Talvez pelas dificuldades que passou durante duas ou três épocas desportivas cresceu em maturidade competitiva. Está ele como podiam estar outros jovens. Os nomes que estão cá são fruto do processo normal e natural. O ‘careca’ teve de decidir os 14. São os que achámos que nos dariam a maior variabilidade para ser uma equipa fortíssima. Para estarem uns, têm que ficar outros de fora, é um processo normal que cada vez acontece com mais jogadores. Vieram mais campeões da Europa e mais campeões do mundo do que não vieram. É um indicador muito positivo do trabalho que se está a fazer, mas, acima de tudo, tenho um respeito enorme pelos jogadores que tanto se esforçaram, lutaram e trabalharam para estar numa fase final e não vão estar. Sei que isto mexe com as carreiras deles. Do ponto de vista humano é sempre difícil, mas do ponto de vista profissional, este é o cenário. Tomara eu poder convocar 30 para dar oportunidades a todos de jogar. Muitos dos que não estão, [bate na mesa], se não acontecer alguma coisa, vêm e a resposta é exatamente a mesma. Os objetivos não se alteram.
— A derrota contra a Eslovénia (2-4), em novembro, serve de alerta, nomeadamente pelos golos sofridos cedo e após erros lusos?
— Faz parte do crescimento. Vão existir erros no Campeonato da Europa. As vitórias escondem-nos e parece que foi tudo perfeito. As derrotas trazem-nos ao de cima e tornam mais visíveis as nossas falhas porque toda a gente fica mais atenta porque Portugal perdeu. O problema é quando isso até acontece em vitórias e achamos que estamos bem. O processo de preparação foi bom até nesse sentido. O nível de distração neste Campeonato da Europa tem que ser muito menor do que já foi noutros. Não tenho dúvidas. E é para isso que nós estamos a preparar para não haver distrações.
— Gostou da resposta com a Ucrânia, medalha de bronze no Mundial 2024, durante a preparação?
— Brutal. O foco, o compromisso e a forma como competimos com a Ucrânia nos dois jogos foram muito bons. No processo de preparação, independentemente deste lado mais estratégico, o foco está sempre em nós próprios. O que interessa é o que temos de fazer para estarmos bem. E não estarmos excessivamente focados nos jogos com Itália, Hungria e Polónia.
— Tendo em conta a forma como Portugal joga, espera que os adversários abdiquem de ter bola e procurem jogo direto?
— Hungria e Polónia talvez. Itália não. Itália talvez simplificará para não correr riscos em algumas situações, mas têm jogadores com muita qualidade. A Hungria é extremamente organizada e sabe gerir muito bem o jogo. A Polónia é uma equipa muito física, muito direta que vai tentar aproveitar o que e fazem de bom. Mas temos que estar preparados para isso e adaptarmo-nos ao que for exigido para vencer.
—Jogar a fase de grupos de uma competição que é organizada por três países na Eslovénia, palco da conquista de 2018, acrescenta peso emocional?
— (risos) Nos últimos anos a seleção tem sido a minha primeira família. Passo muito mais tempo aqui [Cidade do Futebol] do que em casa. Esta é a minha casa. A Eslovénia traz-nos memórias que nos vão ajudar ainda mais a sentirmo-nos em casa. Em Liubliana, o hotel é o mesmo, a arena também, tudo nos vai trazer essa recordação. Sentimo-nos sempre muito bem, como família, aqui. Que Liubliana reforce ainda mais esses laços para continuarmos a ser extremamente positivos e alegres a jogar futsal.
— Passa aqui mais quase muito mais tempo do que em casa, também porque acumula um papel mais abrangente de coordenação....
— Agora temos mais uma pessoa fantástica a ajudar e que está a coordenar a maioria dos escalões, o Bruno Travassos. Coordenamos todas as equipas técnicas. Das maiores alegrias que tenho é agora estarem ali os 30 sub-15 a treinar antes de nós. Convivemos com eles. Toda esta rede de oportunidade prática desportiva tem que estar alinhada e ligada. Só acredito na ligação de tudo isto com presença física, não é só através dos documentos e projetos. É depois convivermos e estarmos juntos, discutirmos com os treinadores, estarmos nas associações de futebol. A relação que temos com os clubes é bestial. A seleção A também é muito o que é graças à qualidade dos nossos treinadores da Liga Placard e de outros que estão no estrangeiro.
— As condições estruturais também ajudam a permanecer aqui...
— Claro. Também não saio muito daqui porque as condições são excelentes. Agora é mais fácil ficar. Todo o contexto agora é de excelência. Isto tem que ser sentido. Estar aqui pressupõe um patamar de responsabilidade, de dedicação e compromisso. Aqui tem que se viver isto intensamente e diariamente para podermos qualificar todo o processo.
— O que é que falta e o que é que pretende conquistar ainda, enquanto treinador e coordenador?
— Este [Campeonato da Europa,]. Eu sabia que esta época desportiva ia ser deste nível de exigência. Entrámos em estágio dia 25 de agosto de 2025, com os sub-19 e fomos campeões da Europa. Depois tivemos quatro datas A com mais uns sub-17 e sub-19 femininas pelo meio. Mas depois tínhamos esta etapa de preparação dos A's muito importante e pelo meio o campeonato do mundo feminino, o primeiro, onde também foi preciso trabalhar na excelência e o Luís [Conceição] e toda a equipa foram fantásticos. Não foi a cereja no topo do bolo [Portugal perdeu na final frente ao Brasil, a 7 de dezembro]. mas foi um processo fabuloso. Não ganhámos a final, mas somos vice-campeões do mundo do primeiro campeonato do mundo feminino. E agora vinha este, portanto é nonstop. O futuro só será risonho se todos os dias nos focarmos nisto. O que é que quero ganhar no futuro? Nada, agora é isto, construir este percurso competitivo para conseguirmos estar numa final. Sempre tive muitas dificuldades em olhar muito à frente. Onde é que quero estar em 2030? Não vou estar em sítio nenhum se eu hoje não desempenhar bem as minhas funções e ajudar quem tenho que ajudar. As coisas acabam por cair para o nosso lado.