Saint James Park IMAGO

O truque contabilístico que mascara perdas milionárias no futebol inglês

Venda de ativos dentro do mesmo grupo empresarial para gerar lucros fictícios ameaça tornar-se regra

A saúde financeira do futebol inglês está em xeque, com a maioria dos clubes a apresentar prejuízos avultados, uma realidade que está a levar a manobras contabilísticas controversas, como a venda de ativos dentro do mesmo grupo empresarial para gerar lucros fictícios, avança o The Athletic.

A divulgação dos relatórios e contas da última época revelou um cenário preocupante. Dos 19 clubes da Premier League que apresentaram as suas contas, apenas seis registaram lucro. No total, os prejuízos combinados ascendem a 713 milhões de libras (cerca de 844 milhões de euros).

Contudo, a situação é ainda mais grave. Dois desses seis clubes, o Aston Villa e o Newcastle, só alcançaram resultados positivos devido a vendas intragrupo, uma reestruturação interna de ativos que gerou lucros combinados de 247 milhões de libras no papel. O Everton, que mesmo assim apresentou perdas, utilizou uma tática semelhante para gerar 49 milhões de libras. Excluindo estas operações, os prejuízos totais da Premier League ultrapassariam a marca de mil milhões de libras (1.146 milhões de euros).

Essencialmente, estas transações consistem na transferência de empresas ou ativos dentro do universo controlado pelos proprietários dos clubes, criando lucros contabilísticos que melhoram as contas de equipas que, de outra forma, teriam défices superiores a 50 milhões de libras (57,3 milhões de euros).

O caso mais recente e notório é o do Newcastle. O clube transformou o que seria uma perda recorde num lucro de 34,7 milhões de libras ao «vender» o seu estádio, St James’ Park, e terrenos adjacentes a uma nova empresa. Esta empresa foi criada pelo próprio grupo proprietário do Newcastle, liderado pelo Fundo de Investimento Público (PIF) da Arábia Saudita, apenas três dias antes do fecho do ano fiscal.

A consequência direta desta manobra é que o Newcastle deixou de ser o proprietário do seu histórico estádio, um facto que, para muitos, foi ofuscado pela aparente vantagem financeira. A operação ajuda o clube a cumprir as regras de rentabilidade e sustentabilidade (PSR) da Premier League, seguindo um precedente já utilizado por outros.

Recorde-se que o Chelsea, após a aquisição pela BlueCo em maio de 2022, registou 76,5 milhões de libras em lucros contabilísticos ao vender dois hotéis e um parque de estacionamento a uma empresa-irmã. Um ano depois, a reestruturação interna da equipa feminina do clube acrescentou mais 198,7 milhões de libras.

O Newcastle, por sua vez, defende que a principal motivação não foi o benefício relacionado com o PSR. Segundo Simon Capper, diretor financeiro do clube, a reestruturação visou «reorganizar os nossos ativos imobiliários e colocá-los nas estruturas legais corretas para nos permitir avançar com o nosso potencial desenvolvimento (do estádio)».

No entanto, a ausência de progressos tangíveis sobre o futuro de St James’ Park, nove meses após a venda interna, alimenta o ceticismo. A questão sobre a expansão do estádio ou a construção de um novo recinto continua em aberto desde a chegada do PIF em outubro de 2021, reforçando a suspeita de que a operação foi, acima de tudo, uma forma de contornar as regras financeiras.

No meio desta complexa teia financeira, a opinião dos adeptos parece ter sido ignorada. Alex Hurst, da proeminente fanzine True Faith, criticou a falta de atenção dada à questão da propriedade do estádio, sublinhando que os adeptos não foram informados sobre o que estava a acontecer com a casa do seu clube.

Embora se possa argumentar que estas são decisões exclusivas dos proprietários, tratar os clubes de futebol como meras empresas privadas ignora a sua essência. Os adeptos continuam a ser a alma do desporto, como ficou evidente durante a época 2020-21, disputada em estádios vazios devido à pandemia de Covid-19. Apesar de as receitas de bilheteira representarem uma fatia cada vez menor das receitas totais, são os adeptos que, em última análise, sustentam os massivos contratos de direitos televisivos que alimentam a indústria.

A recente confirmação de que o Newcastle vendeu o seu próprio estádio a si mesmo, e que o Aston Villa fez o mesmo com a sua equipa feminina e um armazém, expõe uma tendência preocupante no futebol inglês. Estas manobras, juntamente com a notícia de que o Chelsea perdeu mais de 250 milhões de libras num ano sem violar as regras internas, levantam sérias questões sobre a integridade financeira e o futuro do desporto.

A atmosfera nos estádios ingleses é um dos maiores trunfos comerciais da Premier League, um fator que as empresas de televisão valorizam imensamente. Embora a transferência do St James' Park para outra empresa não dilua imediatamente essa atmosfera, levanta um debate crucial sobre os estádios como ativos comunitários e a lealdade inabalável dos adeptos, que contrasta com a natureza transacional da posse dos clubes.

A utilização dos estádios como ferramentas de conveniência financeira não é um caminho seguro. Recorde-se que tanto o Derby County como o Sheffield Wednesday entraram em insolvência enquanto os seus estádios eram detidos por outras empresas, o que complicou ainda mais períodos já de si turbulentos. O Newcastle, agora propriedade de entidades sem ligação histórica ao clube até há cinco anos, parece seguir um rumo semelhante, tornando o seu estádio, carregado de história, num mero ativo financeiro.

Contudo, o Newcastle não é um caso isolado. O Aston Villa já tinha recorrido a uma estratégia idêntica há seis anos. Em maio de 2019, os seus proprietários, a NSWE, transferiram o Villa Park para uma nova empresa criada para o efeito, registando uma transação de 56,7 milhões de libras numa clara tentativa de contornar as regras financeiras.

Esta semana, as vendas internas das equipas femininas do Aston Villa e do Everton foram vistas sob a mesma ótica. Embora a intenção de colocar as equipas femininas em pé de igualdade com as masculinas seja nobre — algo que o Chelsea também alegou ao realizar reestruturações semelhantes —, estas boas intenções perdem-se num contexto de gastos salariais ruinosos. Para o observador casual, as equipas femininas tornam-se apenas mais um ativo para manobrar, uma solução rápida para problemas regulamentares.

O futebol inglês, apesar de todo o seu apelo, tem sido subserviente ao dinheiro, levando os clubes a procurar brechas para cumprir as regras. Embora a direção do Newcastle afirme que as Regras de Rentabilidade e Sustentabilidade (PSR) não foram uma grande consideração, para outros clubes têm sido claramente um fator decisivo. Perder 105 milhões de libras em três anos, o que seria uma sentença de morte para muitas empresas, no futebol inglês parece ser um objetivo.

A incapacidade da maioria dos clubes de competir por títulos importantes empurra-os para estas ações desesperadas. No entanto, não há uma solução real à vista. O novo regulador independente do futebol inglês, estabelecido pela Lei de Governança do Futebol, não menciona o termo «equilíbrio competitivo» uma única vez nas suas 116 páginas.

As regras PSR desaparecerão no final desta época, eliminando o incentivo para estas vendas intragrupo. Contudo, a nova regra de custo de plantel (SCR) que as substituirá, ao indexar os gastos às receitas, apenas irá solidificar as vantagens dos clubes mais ricos, aumentando ainda mais o fosso competitivo.

Clubes como o Newcastle e o Villa usaram estas alavancas para tentar aproximar-se dos «Big Six» da Premier League. No entanto, um desporto saudável deveria procurar reduzir essa disparidade e incentivar uma gestão responsável. Em vez disso, o futebol inglês parece estar a dar cada vez mais razões para se acreditar que está, de facto, «partido».