«O senhor Aurélio é um exemplo», garante Rui Patrício
Faz exatamente hoje um ano que o futebol português perdeu, aos 77 anos, uma das suas maiores figuras, Aurélio Pereira, o eterno Senhor Formação. Um dos imensos que passaram pela sua mão, Rui Patrício recorda aqui o convívio, a gentileza e a componente humana de um homem «exemplar».
— Qual a importância do senhor Aurélio na sua vida e na carreira futebolística?
— Para mim foi uma pessoa muito importante, porque na altura também quando eu assinei contrato com o Sporting era ele que lá estava. Foi ele que foi à sede do Marrazes. Sem dúvida que é uma pessoa, não só aí, mas depois ao longo de todos os anos me acompanhou, me apoiou nas muitas conversas que tivemos de apoio. Ele apoiou-me muito enquanto estava na formação e depois, também, já na equipa principal do Sporting. Ou seja, foi uma pessoa que sempre deu apoio a todos os jogadores. Principalmente aos que vinham também da formação. Foi uma pessoa muito importante para todos nós.
— O Rui era muito novo quando se mudou do Marrazes para o Sporting. Como é que ele conseguiu convencer os seus pais naquela fase em que vinha só jogar mesmo quando tinha 11 anos ou 12 anos?
— Quando assinei com o Sporting tinha salvo erro 11 anos, para jogar pelos Infantis de segundo ano. Nessa altura, vinha só ao fim de semana para jogar. E foi muito fácil também convencer os meus pais, porque quem conheceu o senhor Aurélio Pereira sabe a pessoa gentil que ele era, o ser humano que ele era. E deu toda a confiança do mundo aos meus pais e, sem dúvida, que isso foi muito importante também para poder vir. Fazia sozinho a viagem para Lisboa para treinar e depois sozinho também para jogar. Para quem o conheceu sabe a gentileza e a humildade e a ajuda que ele dava todos nós. Por isso foi muito fácil convencer os meus pais para eu vir para o Sporting.
— Qual era a principal virtude do senhor Aurélio?
— Ele tinha sempre uma palavra para nos dar. Ou seja, a gentileza que ele tinha, a forma como ele falava e o apoio que nos dava eram únicos. Ou seja, era muito, muito bom falar com ele. Ou seja, o que ele nos transmitia e os conselhos que ele nos dava. Era muito bom. Ou seja, tive a sorte de ele me ter levado para o Sporting e a sorte de ter estado com ele muitos anos. É muito emotivo, também, estar a falar dele porque, como eu já estava a dizer, quem o conheceu sabe a gentileza e a pessoa que ele era e o quão foi importante para mim e para muitos jogadores.
— Que sapiência que demonstrava? Ele sabia muito de futebol, certo?
— Sim, sim. Quando o conheci ele já tinha muitos anos de futebol. Ou seja, tudo o que ele me transmitia a mim e aos outros, vinha muito, também, da experiência que tinha acumulado. Mas depois também era a forma como ele dizia as coisas. Era muito fácil percebermos o que ele estava a dizer, o sentir de cada palavra que nos dizia. Era muito importante para nós como seres humanos e também como futebolistas. Então, é daquelas pessoas que nos marcam para sempre.
— Como é que convive com a saudade dele?
— Recordo-me muito dele. Principalmente porque sempre que falávamos ele a primeira coisa que perguntava era como é que estavam os meus filhos. Isto sempre! Isso era a primeira coisa que fazia.
— Tinha o dom de entrar muito no lado humano?
— Sim, sem dúvida. Como já disse, quando falo da gentileza, é da gentileza humana, do ser humano que ele era, para além das partes que tinham do futebol, da formação, etc… Mas a parte humana é qualquer coisa difícil de explicar, porque só quem partilhava conversas com ele, só quem falava com ele é que conseguia perceber o quão gentil ele era.
— Acha que ele tem o devido reconhecimento ou falta ainda um bocadinho?
— Falo por mim. Ou seja, acho que quem conviveu com ele o reconhece. E depois também vem o reconhecimento da parte exterior. Julgo que ele foi muito reconhecido por toda a gente, mas muito mais reconhecido por quem partilhou momentos com ele. E isso é o mais importante. E eu posso dizer que eu tenho orgulho de ter tido a a oportunidade de ter partilhado momentos com ele. E essa é a maior gratidão para mim, poder dizer que ele transmitiu muitas coisas boas. Só tenho de estar agradecido por tudo o que ele me ensinou. E para mim ele é das pessoas mais importantes também da minha vida, da vida do Sporting, do futebol. Ou seja, acho que não há maior reconhecimento do que esse, das pessoas que partilharam momentos com ele só falarem coisas boas...
— Ele está na história do Sporting e do futebol português?
— Claro, sem dúvida. Sim. Eu acho que é só vermos o leque de jogadores e de pessoas e de treinadores que passaram por ele, que partilharam momentos com ele, em que ele ajudou muito. Estou convencido de que é um exemplo para todos nós; um exemplo para o futebol português e um exemplo também de como se deve estar também no futebol, na formação, na vida. E isso é muito bom.
— Como recebeu a notícia da morte dele? Lembra-se?
— Foi um dia muito triste. É sempre complicado quando partem pessoas muito importantes para nós. Muito importantes para aquilo que foi a minha vida profissional desde a formação. Foi muito importante para mim. Lógico que são momentos muito, muito complicados. Mas também sabemos que a vida é isto e que o mais importante é como a gente se vai recordar dele. E como lhe disse há pouco, quando se fala da parte humana, é isso que eu vou transmitir aos meus filhos . Da importância do senhor Aurélio Pereira; da forma como ele nos tratava e como a gente deve tratar as outras pessoas. É isso que vai ficar marcado para sempre na minha memória, para além da parte da formação, da parte de me levar para o Sporting, etc…. Tem a componente humana. E é isso que vai ficar para sempre. Tem de ser um exemplo para todos nós e tem de ser um exemplo também para a formação de todos os atletas de todos os miúdos que estão a começar também a jogar futebol.
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