Isto já não é só falta de vergonha
Acabei agora mesmo de ver um vídeo publicado pelo pai de Lamine Yamal que me fez corar de vergonha alheia. Como se já não bastassem a falta de noção habitual e todas as polémicas em que se envolve e que acabam inevitavelmente por salpicar a carreira do filho, o homem agora acha que é rapper. O caro leitor, por acaso, já assistiu ao videoclipe publicado pelo próprio? Se não assistiu aconselho honestamente a que assim se mantenha. Porque se a falta de noção de Mounir Nasraoui claramente não tem limites, a nossa capacidade de tolerar o ridículo tende a ser finita. A minha, pelo menos, garanto que tende. Aliás, sinto que o meu limite foi atingido depois de ontem ler as declarações de Alberto Costa que, ignorando as imagens que são mais claras do que a água bem como a reacção e posteriores declarações do colega cuspido, nos vem agora tentar passar o atestado de idiotas e dizer que não cuspiu coisa nenhuma.
A sério, isto já não é só falta de vergonha. É gozo. E não é só com os adversários e com as instituições que dirigem o nosso futebol. Isto é gozo com todos os que, neste país, gostam verdadeiramente da modalidade.
A semana passada escrevi neste espaço sobre o quão errado era não querer averiguar e não dar sequer espaço para a dúvida em casos que envolviam denúncias graves. Esta semana, contudo, a situação é ainda pior. Porque esta semana todos vimos. A sério, temo honestamente que, mais um bocadinho, e nos comecem a tentar fazer crer que fomos vítimas de uma ilusão de ótica colectiva. No ponto em que estamos, e depois das declarações de Alberto Costa, começa até a parecer-me uma estratégia bastante provável.
Reparem, este campeonato dificilmente fugirá ao Futebol Clube do Porto. E eu percebo, até demasiado bem, a tentação de nos agarrarmos com unhas e dentes à ideia da maldição de Farioli. A repetição do que aconteceu com o Ajax é, neste momento, a última esperança que nos resta no que ao tricampeonato diz respeito. Mas confesso que não consigo entrar nesse barco. Apesar de, ao dia de hoje, o Sporting ser a equipa a jogar o melhor futebol do nosso campeonato, a verdade é que falhou onde não podia falhar — e sim, estou a referir-me aos nossos resultados contra Benfica, SC Braga e FC Porto que terão, creio, um preço demasiado alto.
Notem, por favor, que adorava estar enganada e que não nego que o medo que vem da invicta me tem feito, uma vez por outra, pensar 'será que, afinal, isto ainda dá?'. Mas depois ligo o botão da racionalidade e lembro-me que ainda não jogámos frente ao Tondela e que, como tal, não podemos assumir esses três pontos. A juntar a isso penso na quantidade de jogos que temos pela frente entre campeonato, Taça de Portugal e Liga dos Campeões e no facto de o nosso calendário ser, pelo menos em teoria, muito mais complicado do que o do Futebol Clube do Porto.
Dizia-me um amigo, também sportinguista, que está tudo nas mãos de Ian Cathro. E eu, que admiro bastante o treinador (e a equipa) do Estoril, acho que pensar assim é um erro. Porque a verdade é que está tudo nas mãos de Farioli e dos seus jogadores. O FC Porto, mesmo assumindo que o Sporting vence o Tondela no jogo que tem em atraso, depende exclusivamente de si próprio. E é errado que, enquanto sportinguistas, nos esqueçamos disso. Ainda assim, pior do que o nosso esquecimento é o dos adeptos do Futebol Clube do Porto que, na maioria das vezes, parecem ser os primeiros a olvidar que estão isolados no topo da tabela. Será o receio da maldição de Farioli a consumi-los? E como se sentirá o treinador do clube com esta onda de desconfiança mais ou menos muda à sua volta? Porque é impossível que ele próprio não sinta o mesmo pulsar que todos nós sentimos. O pulsar do medo que já aqui referi e que é, quanto a mim, o gatilho das coisas feias que têm vindo a acontecer nas últimas semanas.
E sim, que feio tem estado o futebol português. Feio como há muito não me lembrava de o ver. Acusações de um lado para o outro, comunicados atrás uns dos outros, dedos incessantemente apontados, perseguição concertada a jogadores, e treinadores com memória e visão selectivas. E foi com muita pena minha que vi, esta semana, o Sporting a ceder à tentação e a tentar, também ele, jogar xadrez com os pombos.
Preferia infinitas vezes que não fôssemos atrás de vinganças e da cantiga do tu fizeste igual e que nos tivéssemos mantidos focados apenas em nós próprios. Se o que Alberto Costa fez é inaceitável para qualquer pessoa decente e infinitamente mais grave do que os gestos de Suárez? Obviamente. Ainda assim, preferia que não fossemos nós a fazer a queixa ao Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol. Aliás, era um bom exercício para percebermos a coluna vertebral das instituições que regem o nosso futebol e que, se deixassem uma coisas destas passar em branco na ausência de denúncias, mostravam claramente conivência com o circo em que o campeonato se tem vindo a tornar e que já é comentado um pouco por todo o mundo.
Faltam, neste exacto momento, seis jornadas para o final do campeonato. Há dezoito pontos em jogo. E apesar de, como já disse, não acreditar que o FC Porto deixe escapar este campeonato — o que seria absolutamente desastroso depois do investimento feito por André Villas-Boas —, teoricamente tudo está em aberto (o quão aberto ainda não consigo precisar pois, à hora que escrevo, o Benfica ainda está empatado a um golo frente ao Casa Pia). E isto devia ser bom. Aliás, um campeonato aberto até ao final é o nível de emoção que, enquanto adeptos, deveríamos sempre desejar. Acontece que, infelizmente, o que temos visto é exactamente o oposto. E isso é o mais frustrante. Porque um campeonato que está vivo e que podia estar a ser discutido com bola, talento e mérito dentro das quatro linhas, está, afinal, dominado por cuspidelas, comunicados, queixas e narrativas absurdas que diariamente nos insultam a inteligência. E sabem o que é que existe de apaixonante nisto? Absolutamente nada.
Estamos dominados pelo ruído e pelas tentativas de manipulação de factos. E quem o faz sabe que muitos adeptos vão continuar a bater palmas, a defender o indefensável e a fechar os olhos sempre que der jeito.
Sabem que mais? A sensação que tenho é que, esta época, todos perdemos um bocadinho. Veremos como é que isto acaba.
Só não me lembrem é que ainda há tempo para piorar.