FC Porto, de Farioli, tem o título na mão - Foto: CATARINA MORAIS/KAPTA+
FC Porto, de Farioli, tem o título na mão - Foto: CATARINA MORAIS/KAPTA+

Isto já não é só falta de vergonha

Verde à Vista é o espaço de opinião de Carmen Garcia, enfermeira, sportinguista, autora do blogue 'Mãe Imperfeita'

Acabei agora mesmo de ver um vídeo publicado pelo pai de Lamine Yamal que me fez corar de vergonha alheia. Como se já não bastassem a falta de noção habitual e todas as polémicas em que se envolve e que acabam inevitavelmente por salpicar a carreira do filho, o homem agora acha que é rapper. O caro leitor, por acaso, já assistiu ao videoclipe publicado pelo próprio? Se não assistiu aconselho honestamente a que assim se mantenha. Porque se a falta de noção de Mounir Nasraoui claramente não tem limites, a nossa capacidade de tolerar o ridículo tende a ser finita. A minha, pelo menos, garanto que tende. Aliás, sinto que o meu limite foi atingido depois de ontem ler as declarações de Alberto Costa que, ignorando as imagens que são mais claras do que a água bem como a reacção e posteriores declarações do colega cuspido, nos vem agora tentar passar o atestado de idiotas e dizer que não cuspiu coisa nenhuma.

A sério, isto já não é só falta de vergonha. É gozo. E não é só com os adversários e com as instituições que dirigem o nosso futebol. Isto é gozo com todos os que, neste país, gostam verdadeiramente da modalidade.

A semana passada escrevi neste espaço sobre o quão errado era não querer averiguar e não dar sequer espaço para a dúvida em casos que envolviam denúncias graves. Esta semana, contudo, a situação é ainda pior. Porque esta semana todos vimos. A sério, temo honestamente que, mais um bocadinho, e nos comecem a tentar fazer crer que fomos vítimas de uma ilusão de ótica colectiva. No ponto em que estamos, e depois das declarações de Alberto Costa, começa até a parecer-me uma estratégia bastante provável.

Reparem, este campeonato dificilmente fugirá ao Futebol Clube do Porto. E eu percebo, até demasiado bem, a tentação de nos agarrarmos com unhas e dentes à ideia da maldição de Farioli. A repetição do que aconteceu com o Ajax é, neste momento, a última esperança que nos resta no que ao tricampeonato diz respeito. Mas confesso que não consigo entrar nesse barco. Apesar de, ao dia de hoje, o Sporting ser a equipa a jogar o melhor futebol do nosso campeonato, a verdade é que falhou onde não podia falhar — e sim, estou a referir-me aos nossos resultados contra Benfica, SC Braga e FC Porto que terão, creio, um preço demasiado alto.

Notem, por favor, que adorava estar enganada e que não nego que o medo que vem da invicta me tem feito, uma vez por outra, pensar 'será que, afinal, isto ainda dá?'. Mas depois ligo o botão da racionalidade e lembro-me que ainda não jogámos frente ao Tondela e que, como tal, não podemos assumir esses três pontos. A juntar a isso penso na quantidade de jogos que temos pela frente entre campeonato, Taça de Portugal e Liga dos Campeões e no facto de o nosso calendário ser, pelo menos em teoria, muito mais complicado do que o do Futebol Clube do Porto.

Dizia-me um amigo, também sportinguista, que está tudo nas mãos de Ian Cathro. E eu, que admiro bastante o treinador (e a equipa) do Estoril, acho que pensar assim é um erro. Porque a verdade é que está tudo nas mãos de Farioli e dos seus jogadores. O FC Porto, mesmo assumindo que o Sporting vence o Tondela no jogo que tem em atraso, depende exclusivamente de si próprio. E é errado que, enquanto sportinguistas, nos esqueçamos disso. Ainda assim, pior do que o nosso esquecimento é o dos adeptos do Futebol Clube do Porto que, na maioria das vezes, parecem ser os primeiros a olvidar que estão isolados no topo da tabela. Será o receio da maldição de Farioli a consumi-los? E como se sentirá o treinador do clube com esta onda de desconfiança mais ou menos muda à sua volta? Porque é impossível que ele próprio não sinta o mesmo pulsar que todos nós sentimos. O pulsar do medo que já aqui referi e que é, quanto a mim, o gatilho das coisas feias que têm vindo a acontecer nas últimas semanas.

E sim, que feio tem estado o futebol português. Feio como há muito não me lembrava de o ver. Acusações de um lado para o outro, comunicados atrás uns dos outros, dedos incessantemente apontados, perseguição concertada a jogadores, e treinadores com memória e visão selectivas. E foi com muita pena minha que vi, esta semana, o Sporting a ceder à tentação e a tentar, também ele, jogar xadrez com os pombos.

Preferia infinitas vezes que não fôssemos atrás de vinganças e da cantiga do tu fizeste igual e que nos tivéssemos mantidos focados apenas em nós próprios. Se o que Alberto Costa fez é inaceitável para qualquer pessoa decente e infinitamente mais grave do que os gestos de Suárez? Obviamente. Ainda assim, preferia que não fossemos nós a fazer a queixa ao Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol. Aliás, era um bom exercício para percebermos a coluna vertebral das instituições que regem o nosso futebol e que, se deixassem uma coisas destas passar em branco na ausência de denúncias, mostravam claramente conivência com o circo em que o campeonato se tem vindo a tornar e que já é comentado um pouco por todo o mundo.

Faltam, neste exacto momento, seis jornadas para o final do campeonato. Há dezoito pontos em jogo. E apesar de, como já disse, não acreditar que o FC Porto deixe escapar este campeonato — o que seria absolutamente desastroso depois do investimento feito por André Villas-Boas —, teoricamente tudo está em aberto (o quão aberto ainda não consigo precisar pois, à hora que escrevo, o Benfica ainda está empatado a um golo frente ao Casa Pia). E isto devia ser bom. Aliás, um campeonato aberto até ao final é o nível de emoção que, enquanto adeptos, deveríamos sempre desejar. Acontece que, infelizmente, o que temos visto é exactamente o oposto. E isso é o mais frustrante. Porque um campeonato que está vivo e que podia estar a ser discutido com bola, talento e mérito dentro das quatro linhas, está, afinal, dominado por cuspidelas, comunicados, queixas e narrativas absurdas que diariamente nos insultam a inteligência. E sabem o que é que existe de apaixonante nisto? Absolutamente nada.

Estamos dominados pelo ruído e pelas tentativas de manipulação de factos. E quem o faz sabe que muitos adeptos vão continuar a bater palmas, a defender o indefensável e a fechar os olhos sempre que der jeito.

Sabem que mais? A sensação que tenho é que, esta época, todos perdemos um bocadinho. Veremos como é que isto acaba.

Só não me lembrem é que ainda há tempo para piorar.

NO PÓDIO
Esta semana, o pódio vai para Pape Cheikh Diop. Num mundo como o do futebol, que raramente perdoa desvios, há mérito em quem decide recomeçar. Pape Cheikh Diop falhou, foi apanhado pelas suas más escolhas fora de campo e ficou aquém do que prometia. Mas não desistiu e, tal nos contou o jornal Marca na semana passada, tenta agora recomeçar do zero. Acredito que o talento é valioso, mas a resiliência pode ser ainda mais. E voltar ao ponto de partida disposto a recomeçar, por vezes pode mesmo ser o maior dos feitos.
NA BANCADA
Confesso que não percebo porque é que Farioli continua a não dizer uma única palavra em português nas suas conferências de imprensa quando, ainda por cima, é perceptível que compreende perfeitamente a língua de Camões. Obviamente que ninguém vai exigir ao treinador azul e branco que fale num português perfeito, mas parece-me que é tempo de, pelo menos, começar a tentar arranhar algumas palavras nem que seja como forma de demonstrar consideração pelos adeptos do Futebol Clube do Porto e pelo país que o acolheu.