'Harakiri'
1 — Haraquiri é a expressão ocidental para um ritual suicida samurai, designado no Japão como Seppuku, expressão celebrizada pelo nosso antigo treinador Zoran Filipovic e que é utilizada para identificar as pessoas ou comunidades que conseguem ser os maiores inimigos de si próprias. Penso que se nos aplica face ao que temos vivido nos últimos tempos, em que não há um dia que não seja abordado, direta ou indiretamente (eu, como certamente muitos vitorianos), pretendendo discutir-se soluções para o futuro gestionário do clube. E esse é um sentimento que me causa o incómodo a que dedico este texto.
2 — António Miguel Cardoso cometeu erros. Quanto a mim, as contratações claramente impreparadas de Paulo Turra e Daniel Sousa (como as suas saídas o demonstram) e ainda a incompreensível saída de Luís Freire no final da época anterior.
Estes são os erros que aponto à gestão desportiva do atual Presidente do Vitória. Entretanto tivemos três qualificações europeias consecutivas (algo que apenas conseguimos na década de 80), falhámos a quarta na última jornada, num ano em que tivemos um percurso europeu absolutamente brilhante, a fazer lembrar os tempos de Marinho Peres, que levaram os vitorianos por essa Europa fora a assistir a grandes exibições do nosso clube.
Em termos de gestão financeira, deixaram de se cometer loucuras em contratações, temos feito contratações cirúrgicas em mercados menos conhecidos e em escalões inferiores e tem-se apostado como nunca na nossa História na nossa formação (só este ano e com a limpeza de balneário ocorrida tivemos espaço para que Diogo Sousa, Noah Saviolo, Gonçalo Nogueira e Miguel Nogueira sejam titulares do Vitória). Isso e — pormenor — vencemos a Taça da Liga, fazendo do Vitória o único clube português, além dos três mais titulados, a deter no seu palmarés as três taças em disputa em Portugal, além do Campeonato.
A introdução do discurso do realismo financeiro, a pedagogia de que o Vitória não pode gastar mais do que gera (para que modestamente tenho também procurado contribuir) é um discurso importante, porque de um realismo que se nos impõe.
3 — Há um outro erro que, apesar de apenas comunicacional, comporta os impactos que se veem: refiro-me ao facto de o Presidente ter anunciado à quarta jornada (!) a saída no final da época caso não conseguíssemos a qualificação europeia.
É evidente que esse fator trouxe consigo instabilidade adicional, além de um fator de desnecessária incerteza quanto à preparação da próxima época; e faz com que os alguns vitorianos queiram andar a discutir eventuais alternativas quando temos uma Direção eleita e com apenas um ano de mandato.
Quanto a mim, estes fatores não são suficientes para esquecer tudo o que se conseguiu, alterou e conquistou. E não se trata apenas de não ser injusto para com o trabalho dos nossos dirigentes, trata-se de não ser injusto para connosco próprios, que elegemos esta Direção e este Presidente com 89% dos votos há um ano, pelo que, se possuímos algum mínimo de maturidade coletiva, isso dever-nos ia impor uma outra tranquilidade; por respeito pela nossa própria pronúncia.
4 — É nisto que somos os maiores inimigos de nós próprios. A instabilidade é sempre um dos fatores mais prejudiciais para o sucesso de um projeto desportivo e nós dos que mais gostamos de para ela contribuir, apesar de devermos ser os mais interessados em a evitar.
Esta pulsão por atos eleitorais para mais exibições de protagonismos espúrios, este apego à mudança constante de dirigentes como se o melhor fosse sempre o próximo, esta intolerância e ingratidão que afasta muitos dos que pudessem estar disponíveis para servir o clube, esta inconstância que não permite solidificar projetos, é algo que apenas funciona em prejuízo de nós próprios. Era importante termos noção disso.