Francesco Farioli, treinador italiano a cumprir a primeira época no FC Porto - Foto: Imago
Francesco Farioli, treinador italiano a cumprir a primeira época no FC Porto - Foto: Imago

O estofo do campeão

'A Minha Tribo' é o espaço de opinião quinzenal de Jorge Nuno Oliveira, jornalista e adepto do FC Porto

Foi José Maria Pedroto que cunhou, há mais de 50 anos, a expressão «estofo de campeão». Queria ele dizer, na minha modesta interpretação, que uma grande equipa nunca é apenas um grupo de jogadores, por muito talentosos que sejam, nem o seu sucesso reside unicamente nas capacidades táticas de um treinador sagaz.

O estofo de campeão resume-se, na verdade, a uma palavra: superação.

Claro está que atrás desta palavra — superação — vêm muitas outras, quais molas e alavancas que projetam a vontade de ultrapassar todos os obstáculos e a capacidade real de os deixar para trás.

Dizia Arsène Wenger, histórico treinador do Arsenal de Londres, que, para ganhar, uma equipa não pode ter medo de falhar. Faz sentido. Uma equipa que vai a jogo com medo de falhar ou de perder está condicionada, está embotada, está bloqueada na sua criatividade e na sua capacidade de superação. Falta-lhe arrojo, ambição, atrevimento. E confiança, muita confiança. Tudo é medido e cada decisão é asfixiada pelo pânico do erro e do insucesso. Numa equipa de futebol, o medo de falhar é fatal.

Pelo contrário, a coragem de arriscar dá energia, qualifica o gesto e apura a decisão. O estofo de campeão é isto: coragem, atrevimento, ousadia, risco e uma infinita vontade de vencer.

O FC Porto de Francesco Farioli ainda precisa de provar em campo que tem estofo de campeão. Faltam seis jogos e 16 pontos para demonstrarmos que merecemos ser campeões. Cada jogo vai ser um momento da verdade, um momento que define se temos ou não temos tudo o que é necessário para superar sem medos os adversários. Quaisquer adversários, a começar pelos nossos próprios fantasmas.

A próxima final é no Estoril, um jogo com uma carga simbólica e histórica de arrepiar.

Depois de um mês de março bem superado, tropeçámos no arranque de um mês de abril muito carregado e exigente. As grandes equipas, quando caem, levantam-se, sacodem a poeira e avançam ainda mais fortes.

Abril é o mês decisivo do campeonato. Só ganha quem tiver estofo de campeão.

A ONU do futebol

De cada vez que há um conflito no mundo, ou uma guerra, a comunidade internacional alvoroça-se. Há comunicados, condenações, ameaças, reuniões de emergência, cimeiras, protestos. Porque foram violados direitos, ou porque se usou força em excesso, ou porque foram ultrapassadas linhas vermelhas ou porque simplesmente o conflito ou a guerra não fazem sentido. Pede-se apoio diplomático, apela-se à intermediação de países neutrais, invoca-se o papel pacificador das Nações Unidas. E lá vem então o secretário-geral, cheio de pias intenções e carregado de preconceitos políticos, apelar aos entendimentos e ao fim das hostilidades. E o que é que acontece? Nada.

Não acontece nada porque a ONU não existe, não é respeitada e está nas mãos dos países mais fortes.

O mesmo se passa no futebol português. É só substituir países por clubes e ONU por Federação Portuguesa de Futebol e Liga Portuguesa de Futebol Profissional. O resto, é tudo igual.

Todas as linhas vermelhas são ultrapassadas. Todos os insultos são gratuitos e impunes. Todas as tropelias são perdoadas. E nada acontece.

Futebol e coração

O sr. Coutinho vive no segundo andar de um prédio modesto na rua de São Roque da Lameira, freguesia de Campanhã, no Porto. Casado e pai de dois filhos, o sr. Coutinho é o chefe de uma família remediada, que se senta todos os dias à mesa com a mulher, à noitinha, para fazer contas e ver o que sobra.

O sr. Coutinho vai a todas. Ou a todos os jogos do FC Porto. Começa de manhãzinha com os jogos dos juvenis ou dos juniores, às vezes vai ao pavilhão ver um jogo de andebol ou de hóquei e, sempre que há jogo, vai às Antas ver a equipa principal.

Trabalha seis dias por semana e dedica o domingo ao FC Porto. Conhece muito bem o sr. Lourenço, o homem do trompete (ele corrige, rigoroso: não é um trompete, é um outro instrumento de sopro, parecido mas diferente). Aliás, o sr. Coutinho conhece toda a gente que, como ele, absorve na pele o FC Porto. Esteve na inauguração do Estádio das Antas e na inauguração do Estádio do Dragão. O seu ritual, nos últimos tempos, é ir ao Velásquez antes e depois dos jogos. Come um prego no prato, antes, e um cachorro, depois. Com um príncipe, claro.

Cruzei-me com ele muitas vezes, muitas mesmo. Chegámos a ter lugares cativos lado a lado. E ao longo de anos a fio nunca lhe ouvi uma palavra, uma que fosse, de ódio ou insulto contra os adversários. O sr. Coutinho queria ganhar tanto como eu ou como qualquer outro portista, mas nunca precisou de insultar ninguém para sentir a emoção vibrante de uma vitória inesquecível ou sofrer uma noite de insónias (eu que o diga!) depois de uma derrota infeliz. Gritámos juntos muitos golos, guardámos silêncios religiosos nas derrotas, sempre envoltos no doce sopro azul da paixão. Queríamos ganhar, sempre com respeito e fair play, uma expressão que ele não usava por ser «muito moderna».

Quando o sr. Coutinho morreu, estive no funeral e pedi à família que me deixasse oferecer ao meu velho Amigo o cachecol que eu tinha usado no último jogo do FC Porto que vi no Dragão, sozinho, antes da sua morte. Era o mínimo que podia fazer por um Homem que amava o Porto, que amava o jogo, que sofria e chorava, que gritava e exultava, que tremia de emoção.

O cachecol partiu colado ao coração.

Chef Michelin sem olfato

Custa-me escrever isto, mas José Mourinho parece um chef Michelin que perdeu o olfato. É penoso ver Mourinho, que subiu aos píncaros do mundo do futebol, arrastar-se no Benfica, afundado num gigantesco fosso entre ele e a equipa. A conferência de Imprensa a seguir ao jogo com o Casa Pia é um marco. Assinala o momento em que nada será como dantes entre Mourinho e a direção do Benfica e entre Mourinho e a equipa que ele treina.

A anatomia de um génio

Johan Cruyff morreu há 10 anos. Ainda o vi jogar e treinar. Infelizmente, nunca ao vivo. Mas lembro-me daquela final do Mundial de 1974, em que a melhor equipa com o melhor jogador perdeu com a Alemanha. Que injustiça! Mas a História é tão bela e sublime que a final do Mundial de 1974 é recordada como a final da Laranja Mecânica de Cruyff. Quase ninguém se lembra que a taça ficou na Alemanha. Mas ninguém se esquece da beleza arrebatadora do futebol holandês nem da sua ânsia de golo. Cruyff foi um génio do futebol. Foi dos raros (a par de Zinédine Zidane) a atingir a glória como jogador e como treinador. Foi ele que construiu o Ajax esmagador dos anos 70 e o Barcelona superpotência do início deste século. Revolucionou o futebol, virou-o para a baliza sem esquecer o resto do campo. Sem ele, o futebol seria muito menos interessante e espetacular.

«Prefiro ganhar 5-4 a ganhar 1-0», dizia ele. E bem.

Johan, A Anatomia de um Génio, de Miguel Lourenço Pereira, é um magnífico retrato de Cruyff em várias perspetivas.

Vale a pena ler.

A técnica e a tática

Portista Longe de Casa é uma página no Instagram e no X de um adepto do FC Porto que vive em São Paulo, no Brasil. As publicações são muitíssimo interessantes, bem documentadas e tecnicamente muito ricas e sustentadas. O autor publica avaliações táticas de todos os jogadores do FC Porto em alguns jogos mais importantes, sempre com grande acuidade. E não se pense que são todas sobre o FC Porto. O Portista Longe de Casa tem muitas publicações sobre outros clubes europeus e avaliações táticas e técnicas de jogadores de topo.

@portistalongedecasa (Instagram) e @portistalonge (X). Vale a pena visitar.