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Herói Abunad leva Qatar a fazer história (crónica)
Há noites que entram diretamente para a memória coletiva de um país e esta noite no Levi's Stadium, na Califórnia, será recordada em Doha por gerações. O Qatar alcançou o primeiro ponto da sua história em fases finais de Campeonatos do Mundo, ao chegar ao empate nos últimos minutos de um jogo com domínio avassalador da Suíça, que construiu oportunidades em catadupa, mas foi o guarda-redes Abunad defender até o que parecia impossível e assim transformar-se na herói de uma seleção que à partida era considerada a mais frágil, mas que soube travar a grande favorita do grupo.
Foi um autêntico hino à resistência, assinado com as luvas de um homem que se transformou em gigante: o guarda-redes Meshaal Barsham Abunad. Os suíços bem recordavam que o Qatar esteve no pior momento da história do futebol helvético ao perder em casa, por 0-1, em novembro de 2018. Nesse dia quem marcou foi a grande estrela qatari, que ontem teve atuação positiva: Akram Afif. Ontem o pesadelo foi ainda maior, as consequências mais devastadoras.
A crónica deste jogo podia ser resumida a um monólogo helvético. Desde o primeiro apito do árbitro, a Suíça assumiu as rédeas do encontro, instalou-se no meio-campo adversário e gerou uma avalanche ofensiva que parecia antever uma noite tranquila para os homens de Murat Yakin. Momentos houve em que a goleada era a única coisa que se poderia esperar.
Com Xhaka a ditar os ritmos e Ndoye a destabilizar pelas alas, o perigo rondou a baliza qatari a cada cinco minutos. Foram remates ao poste, cortes em cima da linha de golo e oportunidades flagrantes desperdiçadas que desesperavam o banco suíço. No relvado um gigante: Abunad.
A resistência asiática tinha um plano, desenhado estrategicamente por Julen Lopetegui, que montou uma autêntica muralha humana com mestria o nos derradeiros instantes lançou para o terreno a mensagem mais importante da vida desta seleção: colocou jogadores com características mais ofensivas e a equipa acreditou.
Fica a liçao. Nenhuma tática sobrevive a uma vantagem mínima e o que durante praticamente 90 minutos era coisa que só por milagre poderia acontecer transformou-se em realidade. Jogada pela esquerda, cruzamento milimetricamente tirado por Al Amin para a cabeça de Boualem Khoukhi e uma incrível explosão de alegria para quem passou por um sofrimento enorme quase todo o encontro.
Já se disse que quase sempre que antecipou que o jogo poderia acabar em goleada, mas a história do futebol tantas vezes nos mostrou que uma vantagem mínima nunca é segura, por muito avassalador que seja o domínio.
Talvez por isso, à medida que o relógio avançava, o nervosismo helvético contrastava com a crença qatari. É verdade que Manzambi trouxe agressividade ao ataque helvético e poderia em duas situações ter marcado o golo da tranquilidade, mas a tragédia estava ali para ser vivida.
Empate que sabe a vitória para uma equipa do Qatar que passou 85 minutos sem conseguir respirar e no único remate digno desse nome no segundo tempo conquistou um ponto que é o primeiro da sua história e faz sonhar Lopetegui com o apuramento para a próxima fase. Nenhuma previsão apontava para um cenário assim no final da primeira jornada.
O apito final foi recebido com uma explosão de alegria no banco do Qatar. Lopetegui abraçou-se a Abunab, o homem do jogo, o herói indiscutível de uma noite histórica. O ponto somado baralha as contas do Grupo B, após o empate entre Canadá e Bósnia e a Suíça sai de campo com uma tremenda sensação de injustiça, mas a história, essa, escreve-se com golos e pontos.
E hoje, contra todas as probabilidades, o Qatar fez história no Campeonato do Mundo.