O plantel que faltava a Schmidt
A cena mais divertida no jogo de preparação do Benfica na Suíça foi ver Schjelderup a espernear e a crescer para Calafiori, uma dúzia de centímetros mais alto, na sequência de lance mal resolvido e suficiente para gerar um burburinho que envolveu também João Victor, com cabedal para controlar a desordem, e os espectadores mais próximos que não gostaram de ver o jovem norueguês engatinhar por entre as pernas do opositor. «Está mais solto e atrevido» escreveu o jornalista Paulo Alves e, para já, captou a simpatia dos adeptos, indignados por verem o seu menino maltratado pelo matulão italiano.
Brincadeiras à parte, é justificada a curiosidade referente aos dois nórdicos, Schjelderup e Tengstedt, por ainda não se ter enxergado nem a finalidade das contratações, se para utilização imediata ou investimento futuro, nem as suas reais aptidões que registos esporádicos não permitiram avaliar. Finalmente, porém, em Basileia, na apreciação individual de A BOLA, pode ler-se que pelos pés do norueguês «passaram alguns dos melhores momentos da segunda parte» e acerca do dinamarquês, apesar de se ter revelado com menos mobilidade comparativamente a Gonçalo Ramos, lê-se que «esteve perto de fazer o golo da tarde com um remete perigoso em habilidade (68’)».
É alguma coisa em relação a dois atores que tardavam a entrar em cena, e não foram baratos. A estratégia sobre a sua integração é da responsabilidade do treinador, mas, pelo menos, diluiu-se o falatório acerca de ambos, motivado muito por culpa do mistério que carregaram até aqui.
N ÓRDICOS à parte, a conclusão mais significativa a extrair do jogo realizado anteontem é a de que o Benfica deu o passo em frente que se impunha e construiu um plantel. Não sei se definitivo, mas penso que suficiente e com várias e ricas soluções para atacar uma época mais exigente do que a anterior e também mais desafiante para Roger Schmidt, tão criticado por não fazer substituições ou fazê-las tarde e a más horas. Ou seja, apostar sempre nos mesmos, por ausência de alternativas para proceder de outro modo.
No ano um de Rui Costa, que terminou, a principal preocupação foi arrumar a casa, reduzir despesas com figuras que nada acrescentavam, abrir espaço para gente nova e preparar o futuro. Neste segundo ano, o da consolidação da mudança, é notório o cuidado em estabilizar o processo através do reforço na qualidade e isso também está a ser bem feito, como se prova pela estreia encantadora que Di María assinou diante dos suíços, com golo e duas assistências. Uma contratação de risco, como são todas, afinal, mas esta apenas ao alcance de quem pode, e o Benfica pode, pela capacidade financeira, pelo prestígio e, principalmente, pela força do nome.
Roger Schmidt passou de um onze titular que geriu com mestria e sucesso para um catorze ou quinze titular. A partir daqui, escolhe os onze privilegiados da equipa inicial e sabe que lhe vão sobrar mais três ou quatro elementos do mesmo patamar. Passa a dispor de um banco de suplentes que nunca teve. Note-se o exemplo do último jogo, em que gente com estatuto de titular se viu despromovida: Otamendi, em recuperação, David Neres, considerado o melhor no jogo com o Southampton, Aursnes, João Neves ou Chiquinho, mais os escandinavos.
A TÉ ao fecho do mercado, falta mês e meio, vai haver saídas e entradas e admite-se alguma surpresa, se boa ou má o futuro dirá. De toda a maneira, no tempo presente, o presidente entregou ao seu treinador o plantel que faltava para atacar o título 39 e manter viva a ambição de recuperar o estatuto europeu da águia.
Os nomes são importantes e, aqui como na China, fica mais perto de triunfar quem tiver melhores praticantes, mas fica apenas mais perto, falta o resto, e é esse resto que o Benfica tem desvalorizado nos últimos anos, não atribuindo a importância devida ao compromisso, à atitude competitiva, ao espírito de sacrifício e ao respeito pela camisola que transforma derrotas em vitórias.
Em suma, deixar a pele campo, faça chuva, faça sol. Como escrevi há uma semana, pode faltar a inspiração, mas jamais a aplicação. O próximo desafio de Rui Costa será esse, revolucionar as mentalidades.
JOSÉ FONTE, BEM-VINDO
O Sporting de Braga, de quem pouco se fala, mas que foi o 3.º classificado no Campeonato e pode entrar na Liga dos Campeões, acabou de contratar o defesa-central José Fonte, com 39 anos de idade. O que seria um disparate há uns anos é hoje encarado com normalidade, bastando olhar para o exemplo do portista Pepe.
José Fonte é um daqueles jogadores que subiram a pulso e construíram carreiras que devem servir de referência. Andou por Inglaterra, em vários clubes, experimentou a China e no regresso sagrou-se campeão francês, ao serviço do Lille. Pela Seleção, todos sabemos, foi campeão da Europa e venceu a Liga das Nações.
Que rica contratação de curto prazo, à semelhança do Benfica com Di María, o SC Braga fez. Adquiriu um central com imensa experiência e um profissional de uma geração exemplar, que ainda se rege por valores em declínio.