O mundo por trás do design de troféus: «Procuro sempre arriscar nos projetos»
Designer e professor na Escola Superior de Design do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA), Nuno Martins é o criador de vários troféus sobejamente conhecidos no mundo do futebol, quer nacional quer internacionalmente, tais como as taças da Liga Portugal, da Taça da Liga, os galardões das Quinas de Ouro ou do Globe Sports Awards, e, recentemente, o da Figura do Ano de A BOLA, prémio vencido por Vitinha no final de dezembro.
O nosso jornal esteve à conversa com Nuno Martins nas instalações da Domingos Guedes Lda, em Gondomar, e o designer deu a conhecer o espaço onde acompanha de perto, há vários anos, a transformação dos seus trabalhos do papel para a realidade, destacando a importância da equipa de produção «extraordinária» com a qual priva diariamente. Desde o processo criativo, o conceito e a história de cada troféu, os detalhes escondidos, a perceção do público e o sentimento de contributo para o desporto-rei e, em particular, para Portugal, Nuno Martins, que é doutorado em Media Digitais, explica a A BOLA como funcionam os bastidores por trás das taças que todos os clubes e atletas almejam conquistar.
— De que forma começou o seu percurso como designer, especificamente na área dos troféus?
— Não sou designer de troféus, sou designer. Muitos dos trabalhos que tenho feito, e já foram muitos, são troféus. A primeira experiência foi na Liga Portugal, com o troféu de Melhor Jogador e depois as taças das principais competições: a Primeira Liga, a Segunda Liga e a Taça da Liga.
— Como é todo o processo, desde a criação no papel até à produção?
— O processo é, de forma geral, o mesmo de qualquer outro projeto de design, embora este fique no grupo dos projetos mais estruturais. Falamos de um projeto que, ao contrário do design de comunicação que muitas vezes é efémero, o trabalho de um troféu é, na maioria dos casos, ad eternum, para longo prazo. Não há, normalmente, um prazo limite de validade. Não sei o número ao certo, mas já desenvolvi cerca de quarenta troféus e o pedido é normalmente para trabalhos não datados, que sejam o mais duradouros possível. Nesse sentido, é um trabalho de conhecimento, de estudo, de análise. É fundamental haver sempre um trabalho de diálogo com quem encomenda. Isso para mim é a base de tudo. Aquele trabalho que, muitas vezes, se pode pensar que é apenas dizer ao designer para fazer o que entender, é, pelo menos para mim, o pior para se desenvolver. Tem de haver sempre matéria-prima, ideias e objetivos de quem faz a encomenda, naturalmente com abertura para se discutir. É um processo de conhecimento, de estudo, há um briefing, e depois é o trabalho de escrita. Eu escrevo muito. Quando não estou a desenhar, estou a escrever. Começo até por escrever mais do que desenhar. Depois vem o desenho, os esboços, passa-se para um desenho mais rigoroso e, posteriormente, para a produção e para a parte tridimensional, havendo sempre ao longo destes processos um diálogo, nomeadamente com a equipa de produção. Apesar de já haver uma experiência longa neste tipo de trabalho, procuro sempre arriscar muito nos projetos e fazer coisas diferentes. Uma coisa é ser arrojado, outra coisa é ser irresponsável. O que procuro sempre é ter essa responsabilidade de discutir com as pessoas da produção. Raramente são discussões fáceis, para se perceber quais são os limites que podemos ter.
— Nesse sentido, como é que se consegue encontrar o equilíbrio entre a parte criativa e as exigências das instituições?
— É uma boa questão. Esse equilíbrio é o ponto de partida e o ponto de chegada. Como disse há pouco, tem de haver esse diálogo. Eu não entendo que esteja quem encomenda de um lado e quem desenha do outro. Há aqui um triângulo: a instituição, o designer e quem produz. Têm de estar em convergência máxima. Se correr bem, corre bem para todos; se correr mal, corre mal para todos. A questão de se fazer o desenho e agora entregar-se à produção e desenrasquem-se nunca é a boa solução. Gosto sempre que haja alguma flexibilidade para discutir conceitos, e normalmente há. O fundamental é haver um objetivo bem claro e definido. Da parte concetual desse objetivo, há conceitos associados. E a ideia é esses conceitos serem trabalhados — a parte da escrita, o descrever, desenhar, voltar a escrever, reescrever. Porque o que sustenta o próprio sucesso da peça é, tal como numa música, não só a musicalidade e a estética, mas também o conteúdo, a letra. A peça, naturalmente, deve ser interessante esteticamente, mas o que a faz durar ao longo do tempo é ter um conceito forte, uma sustentabilidade, uma história. Pode até não ser percebida na altura, mas ao longo do tempo vai ser recriada e trabalhada em várias formas de comunicação. Essa base é fundamental: unir a parte estética com a parte concetual.
— Recorda-se de algum exemplo concreto de um troféu que foi entendido apenas mais tarde?
— É difícil estar a referir isso, mas, por exemplo, o próprio troféu da Primeira Liga tem uma das características que foi pensada na altura: tem um poema de Luís de Camões. Pouca gente sabe, mas já foi várias vezes motivo de notícia. É um poema lindíssimo de amor, que ligamos à própria ideia de conquista, de vitória e de glória. É um dos exemplos.
— Qual foi, até agora, o troféu mais desafiante de produzir?
— O troféu mais desafiante, normalmente, é sempre o último, porque é um bocadinho a ressaca do que tivemos. Posso falar do último que foi desenvolvido há pouco tempo, que foi o do Globe Sports Awards. De facto, foi complexo. Apesar da muita discussão, houve várias questões da produção que eram complexas. Eu tive imenso cuidado, sabendo à partida que era uma peça extremamente arrojada, mas o que dificultou um pouco foi o prazo. Foi daqueles momentos quase de póquer, de arriscar tudo. Quando olhei para o desenho e vi a proposta, achei que tinha de ser assim. Mas tinha a questão do cortante, porque a peça tem mais de mil cristais, tudo colocado à mão, tem o próprio desenho do acrílico e a ligação com o mármore, que não era muito simples. Mas houve uma equipa de produção extraordinária.
— Já trabalha com a fábrica Domingos Guedes há muito tempo?
— Sim, trabalhamos juntos há muitos anos. E há sempre aquilo a que chamo uma luta saudável. O Domingos está constantemente a dizer para eu fazer uma coisa simples, e eu digo sempre que sim. Mas normalmente não é isso que acontece, porque gosto que haja sempre o desafio de fazer algo novo. Não é fazer diferente só por ser diferente, mas haver sempre um nível de risco e exploração pelo desconhecido, não entrar em algo estandardizado.
— É comum receber feedback de jogadores, treinadores ou vencedores dos troféus?
— Não. Vou dizer uma coisa que pode parecer estranha: o meu grande entusiasmo e motivação é antes de desenhar a peça. Gosto imenso de estudar, analisar, escrever e discutir com a equipa. Depois de ela estar desenhada e apresentada, naturalmente quero ver a apresentação e como a peça é celebrada, mas a partir daí desligo completamente. O que me motiva é estudar, é o processo. Preocupo-me em saber se as coisas correram bem, evidentemente, mas depois questões para alimentar o ego... acho que já tenho muito bem resolvidas.
— Existe mais algum troféu que tenha um detalhe menos conhecido pelo público geral?
— Sim, o Globe Sports Awards tem um número que está meio camuflado no verso da peça. É o número que torna o premiado uma lenda. Esse troféu só é entregue a lendas do desporto mundial e aparece lá um dos números referência que tornou essa figura uma lenda.
— Qual a sensação de ter desenhado o troféu do campeonato português e de ter feito o desenho de tantos troféus internacionais?
— É uma questão de responsabilidade e tem um lado emotivo grande, também. Eu sou de uma geração pós-25 de Abril (1979) e cresci quando não se via a Seleção Nacional nas fases finais de Mundiais e Europeus constantemente. Ver o que tem acontecido no desporto português nos últimos anos deixa-me orgulhoso. Contribuir, nem que seja como uma gota nesse grande oceano, para esse orgulho, materializar esse orgulho a nível nacional e internacional, é algo que me deixa satisfeito como português. Desenhar os troféus para a CAF (Confederação Africana de Futebol), e o facto de eles virem a Portugal para fazermos o trabalho e reconhecerem a qualidade, deixa-me feliz também. Passámos de um país fechado para um país que se abriu e cresceu.
— Como foi o processo de desenvolvimento do troféu de Figura do Ano 2025 de A BOLA, entregue a Vitinha?
— O processo foi muito simples. O conceito é A BOLA. É especial fazer um troféu para um jornal mítico com tanta história. O desenho foi pensado sendo a Figura do Ano: temos uma bola que é cortada com 12 anéis, que representam os 12 meses do ano. Tem também, na parte do acrílico, a bola suspensa numa representação dessa afirmação da figura do ano ao longo dos 12 meses.
— Pode revelar em que projetos está a trabalhar agora?
— Há vários, mas não posso revelar nenhum por uma questão de sigilo.