Aos 14 segundos já Pietuszewski fazia abanar as redes do Arouca. Foto Rogério Ferreira/KAPTA+
Aos 14 segundos já Pietuszewski fazia abanar as redes do Arouca. Foto Rogério Ferreira/KAPTA+

O guião perfeito estragou-se a meio e agora... venha a polémica (crónica)

Vantagem aos 14 segundos deu ao FC Porto tudo o que ele gosta, mas o futebol tem lances fortuitos e o Arouca empatou. Perto do final, um penálti do qual vai falar-se muito (mas mesmo muito) decidiu o resultado

O FC Porto mantém-se firme na liderança do campeonato com uma vitória em jogo que começou e terminou de forma perfeita, mas deixou à vista as enormes dificuldades que sente quando deixa de sentir-se seguro na condução dos jogos.

Marcou aos 14 segundos e tudo parecia destinado a um início de noite tranquilo. Depois de sofrer o empate a meio da segunda parte ficou exposto à necessidade de criar e... falhou. Criou pouco, como pouco tem criado ao longo dos largos últimos jogos, e escapou à perda de pontos num lance que vai dar muita polémica nos próximos dias, ou não estivéssemos em Portugal. O árbitro no campo assinalou penálti, o VAR não contrariou e isso é que conta, mas conhecendo nós o ecossistema não restam dúvidas de que vai haver quem brade aos céus por esta decisão. E assim se decidiu o jogo, já a bater no minuto 90. O 3-1 é uma nota de rodapé que não pode contar para interpretações.

Para uma equipa pragmática como este FC Porto, que melhor pode pedir-se do que ver-se a ganhar logo na primeira jogada da partida? Francesco Farioli, sem ser um representante do famoso catenaccio, não deixa de ser italiano e se há coisa que já provou é que privilegia a segurança. Ora, se um conjunto por ele liderado privilegia a segurança o que acontece quando se vê em vantagem tão cedo? Isso mesmo: ganha confiança, fica sem a necessidade de ter ânsia de correr para a frente, goza de tempo para fazer as melhores escolhas, controla o ritmo do jogo e mantém o adversário longe da baliza.

É este o resumo da primeira parte: Pietuszewski marcou a abrir. O Arouca trazia boas ideias e não sabemos até que ponto conseguiria ir enervando o adversário e tentando chegar-se à frente caso não se visse logo a perder. Assim, ficou meio abananado com o golpe e a tentar uns esbracejos que em pouco ou nada resultaram. Os donos da casa, já se disse, ficaram nas sete quintas.

Não se viram grandes lances de futebol nem oportunidades de golo por aí além, e tudo o que se passou de relevante para a ficha do jogo aconteceu perto da área do Arouca: um remate aqui, uma arrancada de Pietuszewski ali, uma investida de Pepê pelo outro lado e até uma bola ao poste de Froholdt, que já no 1-0 tinha sido essencial ao cruzar para Óskar. Estava um jogo meio adormecido, o que para um final de tarde frio de sexta-feira não era propriamente a ementa preferida. Mas as coisas iam funcionando e está bom de ver que a esmagadora maioria dos adeptos que pagaram bilhete até nem se aborreciam com o andar da carruagem. Provavelmente gostariam de um ataque mais incisivo e sobretudo de mais golos, mas as dores de quem está no banco raramente coincidem com as de quem está na bancada.

A segunda parte chegou na toada morna da primeira. O Porto controlava, o Arouca pouco ousava. Só que o futebol é diferente da maioria das outras modalidades, e num só lance pode alterar-se toda uma tendência, sem que a justiça tenha de ser para aqui chamada. Foi o que sucedeu aos 70 minutos, quando os visitantes chegaram ao empate num lance absolutamente esporádico e inorgânico em função do que se passava no relvado. Um remate, um corte, uma recarga excelente à entrada da área e eis que tudo ficava empatado.

Ficou à vista, então, que o FC Porto não está propriamente fadado para correr atrás deste tipo de prejuízos. As substituições pretendidas por Farioli já tinham sido feitas, mas no sentido de segurar a vantagem do costume. Sucederam-se 20 minutos de ataque atabalhoado, embora persistente. O Arouca só conseguiu subir mais uma vez com perigo, é certo, mas os dragões iam em busca da vitória com muito mais coração que cabeça, precipitando-se várias vezes junto da área visitante e, verdade seja dita, sem criar oportunidades reais de golo.

Surgiu então o lance decisivo, já referido, e na hora mais quente William Gomes não tremeu e fez o 2-1. O terceiro golo, que terá certamente um enorme significado para Moffi (estreia a marcar), surgiu no último lance da compensação e todos os que viram o jogo do Dragão sabem que se tratou de uma nota de rodapé que transformou o resultado do jogo numa ilusão face ao que foi e não foi feito.