Chiquinho Conde, antigo avançado que brilhou em Portugal e atual selecionador de Moçambique - Foto: Imago
Chiquinho Conde, antigo avançado que brilhou em Portugal e atual selecionador de Moçambique - Foto: Imago

O Conde da Beira

Chiquinho, o Conde da Beira, é, aos 60 anos, o elemento aglutinador da nação moçambicana para o futebol, para o sonho... 'Livre e Direto' é o espaço de opinião semanal do jornalista Rui Almeida

Em África, o futebol desperta paixões quase desmedidas, na exata medida do colorido das bancadas e do entusiasmo dos adeptos em cada fase final da CAN, ou de cada jogo de qualificação para o Mundial.

Este tipo de comportamento tem, evidentemente, um reverso diretamente proporcional: a crítica, os nervos à flor da pele, o imediatismo e a necessidade da justificação pelos resultados a ganharem à racionalidade, ao planeamento e à estruturação de projetos de médio e longo prazo.

E todos estes pressupostos têm ainda maior acuidade quando se fala de países que, a nível estrutural, necessitam ainda de passos profundos, quiçá complexos e, sobretudo, longos, para atingirem condições que verdadeiramente potenciem o futebol de alta competição em todas as suas áreas de desenvolvimento.

Moçambique é uma dessas terras maravilhosas, de gente comprometida, divertida e competente, mas a precisar de projetos de reorganização que abarquem as diversas vertentes do desporto-rei, da formação de jogadores à capacitação de técnicos e dirigentes, da construção de boas estruturas à projeção nacional e internacional das suas equipas e seleções.

Aqui entram em equação dois fatores que podem, de facto, fazer a diferença: a vontade e o conhecimento do jogo. E entra um nome, incontornável na história futebolística e desportiva do país, e que deve ser engrandecido pela imensa capacidade de trabalho, pela experiência além-fronteiras enquanto jogador de muito bom nível, e pela resiliência na construção de um projeto que motive os mais jovens e orgulhe todos os moçambicanos: Chiquinho, o Conde da Beira, é, aos 60 anos de idade, o elemento aglutinador da nação para o futebol, para o sonho e para tudo o que o jogo pode transversalmente trazer a outras áreas sociais, muitas delas deficitárias e ainda em edificação num país do Índico que luta com imensas dificuldades orçamentais estruturais.

Uma boa parte da minha carreira, em Portugal, foi simultânea à de Chiquinho Conde, desde o final da década de 80 do século passado até ao início do século XXI. Bem me lembro da sua estonteante velocidade, do drible fácil, da pujança física que o distinguia de companheiros e oponentes. E do seu apego à causa e às casas que defendeu, do Belenenses ao Vitória de Setúbal, do Sporting de Braga ao Sporting, e da sua extensão internacional aos Estados Unidos da América e até a França, onde, já na parte final da sua carreira como futebolista profissional, representou o Créteil, clube muito querido de uma boa parte da imensa comunidade portuguesa da região da Île-de-France, que abarca Paris e os seus arredores.

O mais curioso da história desportiva do atual selecionador de Moçambique é, desde sempre, a sua visão e a sua crença num país melhor, mais uniforme, mais equilibrado e mais justo. Sempre teve esta ideia, sempre se posicionou contra malabarismos, interesseirismos, aproveitadores sistemáticos, bajuladores fáceis ou caçadores de outras honras que não fossem as diretamente emanentes da sua atividade desportiva de alta competição. Sempre uniu e sempre quis junto de si gente competente e de trabalho.

Não admiram algumas recentes quezílias, contestando mesmo responsáveis federativos, porque tudo o que Chiquinho sempre fez foi procurar melhorar as condições dos seus atletas e a sua capacidade para competir, verbo tão em voga na boca de muitos, mas tão pouco entendido na sua plenitude, e em tudo o que realmente implica, significa e requer.

Moçambique conseguiu, esta semana, a primeira vitória da sua História numa fase final da CAN, ao bater o Gabão, por 3-2. Foi, aliás, essa noite fantástica de Agadir que contribuiu decisivamente para a garantia de qualificação para os oitavos de final da grande montra africana do futebol de seleções. Os mambas que, até há bem pouco tempo, tinham de disputar os seus encontros como visitados fora de portas, uma vez que nenhum estádio do país estava certificado pela Confederação Africana de Futebol para as competições internacionais, mostraram ao país, ao continente e ao mundo que, com alguma organização, com foco, com disciplina de trabalho, com um grupo muito unido e, sobretudo, blindado a quaisquer influências exteriores, é possível, em determinados contextos competitivos, ter sucesso, mesmo que, evidentemente, a montanha chamada Nigéria pareça agora muito dificilmente transponível.

Mas há um nome que tudo une e que as move, às montanhas que se têm erguido no caminho dos mambas: Chiquinho Conde, o elo de ligação, a voz que se faz forte para corrigir, mas que afaga para consolar e para motivar. O conhecimento que vem de longe, de campos e balneários que lhe marcaram a vida desportiva e lhe moldaram o caráter, e que dele faz, agora, o maior nome da já conseguida vitória de Moçambique no panorama africano.

Porque é de um país, da sua idiossincrasia, das suas particularidades, do modo único de ultrapassar dificuldades que se trata. Hoje, todo o país vive a metáfora única da bola que une fronteiras e crenças.

E ele, o Conde da Beira, é o homem do leme, o comandante sereno, conhecedor e vencedor que, por entre marés fortes do Índico quente e místico, faz do futebol o encanto do povo, embaixador do país e bandeira para o Mundo.

Cartão branco
Não alinho muito em desejos de Ano Novo. Um bom amigo costuma dizer-me, a propósito da noite do réveillon, que «acaba um dia e começa outro». Só faz sentido pensar em 2026 se o relacionarmos com 2025, com os projetos que estão em andamento ou que foram pensados para colocar em prática. Nesse sentido, a vida portuguesa é um roller coaster, da política à economia, do desporto à educação, da saúde à cultura. Não alinho muito em desejos mas, se me é permitido o desabafo de janeiro, muito gostava eu que Portugal fosse um país mais equilibrado, mais inclusivo no respeito por todos e também pela matriz cultural que nos marca há séculos. Que houvesse uma aposta forte na cultura. País que olvida o setor cultural é país parado no tempo. Que a política fosse encarada como atividade de missão, e nunca como carreira ou profissão. Que os modelos educativos se aproximassem aos japoneses ou aos escandinavos, com menos carga e melhores condições. Que pudesse ir a um médico sem ter de levar saco-cama, e que pudesse viver todos os dias com um sorriso, para aproveitar o realmente muito pouco tempo que temos e em que estamos neste mundo. Sei que são já desejos a roçar a utopia. É, afinal, o que nos move. Sermos hoje melhores que ontem e conseguirmos honrar o dia inicial inteiro e limpo.