João Diogo Manteigas, ex-candidato à presidência do Benfica

«O Benfica tem a obrigação de ganhar a Liga Europa»

João Diogo Manteigas encontra uma oportunidade no «rombo» da Liga dos Campeões; aliviado com o processo 'Saco Azul', mas inconformado com a ausência de explicações para o paradeiro de €1,8 milhões

— O Benfica terminou a Liga no 3.º lugar, acentua-se a desvantagem para FC Porto e Sporting?

— Coloca obviamente a desvantagem em vários níveis. Desportivamente, é evidente. Mas coloca também em causa o Benfica a nível comunicacional. O Benfica esteve muito aquém de defender os interesses do clube, naquilo que foi o conflito direto entre André Villas-Boas, Frederico Varandas e Rui Costa. Rui Costa completamente alienado, ausente. Um fantasma completo na comunicação do Benfica, que nunca conseguiu proteger a instituição dos ataques. E depois vem o problema financeiro. E, estando na Liga Europa, a meu ver o Benfica tem a obrigação de ganhar a Liga Europa este ano. O Benfica tem condições, com o plantel atual, não mexendo muito, para ganhar.

— Tivemos FC Porto nos quartos de final e SC Braga nas meias-finais.

— Alguém pode dizer que o Benfica, passando as eliminatórias, não consegue ganhar a Liga Europa? Ou não tem equipa para ganhar a Liga Europa? Tem de ganhar a Liga Europa. É um objetivo muito sério, além de campeonato, Taça de Portugal e Taça da Liga.

— Vamos aos direitos televisivos: o Benfica conseguiu €114 milhões por duas épocas com a NOS, 2026/27 e 2027/28, é satisfatório?

— É um valor que foi comunicado de forma contraditória entre a Benfica, SAD e o CEO da empresa que pagou [Miguel Almeida], que é atual patrocínio da Benfica. A Benfica, SAD veio dizer que era um contrato excecional, mas ganha pouco mais do que aquilo que já estava a ganhar. Acho que é um contrato bom, obviamente, porque o Benfica vai ganhar um pouco mais do que já ganhava, mas tinha de continuar a ganhar no mínimo aquilo. Depois o CEO veio dizer que é ajustado à inflação, sem grande felicidade relativamente ao negócio. Acho que o Benfica pode ganhar mais, mas tem problema chamado centralização, é um dos problemas institucionais que o Benfica tem.

— Já há chave de distribuição dos valores da centralização.

— Certo, mas há dois clubes que vão apresentar outra proposta para a chave, portanto a chave não está completamente decidida. O Benfica tem um problema, ausentou-se por completo do processo. O Benfica tem de liderar o processo de centralização porque pode ser o maior prejudicado. Nota-se que o Benfica não se senta à mesa com parceiros, com outros clubes, ou até com a própria Liga e FPF, para um consenso relativamente à chave de distribuição, ou ao modelo. Quanto é que valem os direitos televisivos em Portugal? Quanto é que o Benfica ganharia? O Benfica não tem acesso à informação. Estão a construir a casa pelo telhado. Tem de ser visto ao contrário. Vamos auscultar o mercado para saber quanto é que estão dispostos a dar pelos direitos audiovisuais em Portugal. E aí podemos fazer cálculos. E fórmulas. O Benfica deveria ganhar mais. Ou o FC Porto, ou o Sporting. E poderiam partilhar, por exemplo, em conjunto, com o SC Braga e com o V. Guimarães. Poderiam alocar 10% das receitas internacionais aos clubes que não participam nas competições internacionais. É o que faz, por exemplo, nos Países Baixos. Uma forma compensatória. Preocupa-me a ausência do Benfica aqui.

— O Benfica seguiu o caminho da Assembleia da República, discutindo o tema direitos televisivos com os grupos parlamentares.

— O Benfica, hoje em dia, parece estar mais interessado em negócios do que em ganhar títulos. Os benfiquistas querem títulos, não querem ver o presidente do Benfica na AR a debater assuntos da centralização. Se é para ir à AR, vai através da Liga e vão Benfica, FC Porto, Sporting, quem têm peso na Liga. Vão em conjunto à AR falar sobre a centralização. Defendo a suspensão do processo de centralização para alterarmos os quadros competitivos, para auscultarmos o mercado, para sabermos quem tem interesse e quanto é que vale a nossa Liga e a nossa Liga 2. E a AR ainda trouxe outra agravante, Benfica FM. O Benfica passou por uma vergonha, a ERC [Entidade Reguladora para a Comunicação Social] não autorizou, não emitiu a licença para a Benfica FM. Novamente, o Benfica não sabe tratar dos processos. É impensável o Benfica desencadear um processo em que diz que tem interferência, ou que pretende ter interferência na grelha comunicacional, coisa que não pode ter. Foi mal feito, mal conduzido, culminou na ausência da licença, agora devem recorrer para o tribunal, mas ficou a mancha.

— A Benfica, SAD apresentou contas no verde, cerca de €40 milhões positivos, no primeiro semestre da época 2025/26, mas o passivo disparou na mesma medida, ultrapassando os €515 M. São boas contas ou nem por isso?

— As pessoas já perceberam a grande importância que tem uma auditoria no Benfica, transversal. Não é só a questão dos contratos de que toda a gente fala, dos processos judiciais. Aliás, fiquei super satisfeito, aliviado até, quando o Benfica foi absolvido do 'Saco azul'. Ficou provado no processo, o juiz disse-o, que ninguém sabe onde é que foi parar €1,8 milhões das contas do Benfica. É dinheiro do Benfica, isto é o Benfica. Sinto que fui roubado. Tem de se perceber onde é que foi parar. Não sou presidente, nem vice-presidente da Direção do Benfica, mas a partir do momento em que isto acontece tem de se desencadear todos os mecanismos internos para saber o que é que se passou. É problemático se saem €1,8 milhões dos cofres do Benfica e ninguém sabe onde é que estão. E ninguém se preocupa no Benfica em dizer aos benfiquistas onde é que está. Varrem para baixo do tapete, o Benfica foi absolvido. As contas estão no verde, porque o Benfica vende muito. O Benfica tem um modelo de negócio que está dependente de vendas e jogadores. Mas a questão é que o passivo também aumenta. Vendas de jogadores, receitas extraordinárias, e agora com a Liga Europa vamos voltar a vender jogadores, temos um buraco de 50 a 60 milhões de euros logo à cabeça, porque não vamos à Liga dos Campeões.

— O fundo norte-americano Entrepreneur Equity Partners adquiriu 16,38% do capital da SAD ao acionista José António dos Santos. O que é que o Benfica pode fazer para contrariar esta situação, atendendo a que a informação que tem vindo a público indica que não está de acordo com esta aquisição?

— Em relação aos investidores, o Benfica já tem o grupo Lenore Sports Partners com mais de 5%, que adquiriu as ações de Luís Filipe Vieira em execução pela dívida, ou não, do banco. Comecemos por este grupo de americanos. Ninguém sabe qual é a relação que existe, se trabalham com o Benfica, se estão entrosados com o Benfica. Eu teria interesse em criar sinergias com quem é acionista e, ainda para mais, vindos de um outro contexto que não o nosso e que eu acho que é vantajoso. Poderíamos, de alguma forma, interagir e perceber qual é o intuito deles no Benfica. Ninguém vem por caridade. Ninguém compra ações numa sociedade como a do Benfica, porque depois quer doar ou não quer saber do Benfica. E o Benfica, para mim, tem sempre de manter a maioria do capital social. Tem de ter pelo menos dois terços do capital social, coisa que não tem. O segundo grupo americano vem através da aquisição da participação de José António dos Santos e foi feito um negócio à revelia do Benfica. O que os estatutos da Benfica, SAD dizem é que se uma entidade potencialmente concorrente tentar adquirir mais de 2% da Sociedade, o Benfica terá de analisar. Descobriu-se mais tarde que o grupo tem uma participação noutro clube na Europa. É uma entidade concorrente. A partir do momento em que isto acontece, é uma entidade concorrente. Agora o Benfica tem aqui um de dois caminhos: aceitá-los, mesmo sendo concorrentes, e torná-los parceiros, ou vetar a entrada na SAD. O Benfica tem direito de veto. Se o Benfica aceitar a entrada deste grupo na SAD, significa que tem de ter obrigatoriamente algo em cima da mesa com eles. Se isto vier a acontecer, a minha aposta será para o Benfica District.

— Duas assembleias gerais em junho, uma relativa ao orçamento do clube para a próxima temporada, outra para discussão da época desportiva. E aí talvez o interesse dos associados do Benfica possa ser maior.

— O orçamento para a próxima época pode ter implicações, O Benfica pode querer investir mais nas modalidades. Entendo que não deve investir mais do que já investe, porque já investe muito nas modalidades, tem de investir de outra maneira, em mais qualidade e não tanto em quantidade. O Benfica parece que não se foca naquilo que é um projeto desportivo. Aliás, não há. É um desnorte completo. Foca-se em negócios, em distritos, em Benfica FM. Tudo aquilo que sirva para tentar contrariar a ausência de títulos e o que os benfiquistas exigem. Orçamento também, prestação de contas também. Portanto, não é só na Assembleia Geral desportiva. A Assembleia Geral desportiva é um mecanismo que os benfiquistas aprovaram para se fazerem ouvir, mas acima de tudo para que a Direção responda e explique como é que vai ganhar. Os benfiquistas criaram espaço único para eles próprios falarem, mas, acima de tudo, a Direção tem oportunidade única para responder, explicar e dizer qual será a estratégia vencedora para o futuro. Não pintem estas assembleias como sendo um ponto em que as pessoas vão lá criticar. Espero um debate elevadíssimo.

— João Diogo Manteigas já veio a público reagir a questões sobre a arbitragem. Também Mauro Xavier, muito ligado à atualidade do Benfica, recorre às redes sociais para expressar posições. Considera que a comunicação do Benfica não está a fazer o trabalho que lhe compete nesse contexto?

— Não. Eu não faço esse papel porque o Benfica não o faz. Eu faço esse papel porque sou benfiquista e entendo que tenho de o fazer. Eu ou qualquer outro benfiquista. Agora, obviamente que o Benfica tem essa obrigação, tem esse dever, e é claramente uma das estratégias que o Benfica teria de adotar. Não gosto muito de voltar às eleições, mas apresentámos um projeto para aquilo que era não só a comunicação, como também aquilo que deve ser a relação do Benfica institucionalmente com a Liga e com a FPF. Em particular com a Federação, com o Conselho de Arbitragem. Em relação ao conceito de arbitragem, para perceber qual é o critério das nomeações dos árbitros, analisar os relatórios de auxílio dos árbitros que a partir deste ano são públicos, analisar aquilo que é a avaliação dos VAR em janeiro e intermédia. Deveria ser criada uma lei para os árbitros, existe para os jogadores, para os treinadores, não existe para os árbitros, não faz sentido absolutamente nenhum. E, acima de tudo, controlar no sentido positivo e vigiar aquilo que é o trabalho do Conselho de Arbitragem. O Benfica não faz uma coisa que eu defendo. O Benfica não faz trabalho o ano inteiro. O trabalho de que eu estou aqui a falar exige-me que esteja constantemente atento e a fazer análise e a perguntar e a desencadear contactos. Acham que o Benfica não faz isto mais facilmente do que eu? Acham que havia necessidade de Rui Costa, no final do jogo com o Famalicão estar completamente desesperado? Foi multado e suspenso, com aquela figura a seguir ao jogo, em que o Benfica é evidentemente prejudicado… Mas tudo aquilo é evitável.

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