«Cláusula de Mourinho tinha de cair quando Rui Costa ganhou as eleições do Benfica»
Sócio do Benfica, advogado e ex-candidato, João Diogo Manteigas segue Benfica de perto e faz balanço da temporada pós-eleições.
— Seis meses depois das eleições, como sente que está o Benfica?
— Nenhum sócio está satisfeito com o caminho do Benfica, é a continuidade dos últimos cinco anos. Temos um campeonato, duas Supertaças e uma Taça da Liga, é muito pouco para aquilo que é o Benfica e o que o Benfica representa para nós. Pode parecer paradoxal, mas temos de continuar a apoiar, benfiquista que se preze tem de apoiar nos estádios, nos pavilhões. Obviamente, exigir, acho que as eleições trouxeram isso, mais debate, nem que seja entre os benfiquistas, não digo que da Direção para os benfiquistas.
— Que balanço desportivo faz?
— Altamente penoso. Repare. Mais de €100 milhões gastos em jogadores. Nos últimos 5 anos, pelas minhas contas, entraram 49 jogadores, 30 já nem estão cá. Não se aposta na formação a lançar jogadores por cinco minutos. Não há projeto desportivo. É um desastre completo. Isso prova-se com a troca de treinadores em timings inadequados. Mourinho foi uma contratação para ganhar eleições, teve impacto brutal, mas despejar dinheiro para cima de contratações não resolve absolutamente nada. Vamos começar do zero em 2026/27, novo treinador, o sexto em cinco anos, portanto o desastre está à vista. Terão de explicar-nos dia 27, em Assembleia Geral, como é que irão resolver esta situação.
— Não há Liga dos Campeões. Qua é o nível de gravidade?
— É um rombo nas contas do Benfica, que terá de vender jogadores. Vai vender Pavlidis ou Schjelderup? Vai vender António Silva e Tomás Araújo, que seriam mais-valias em termos financeiros? Há questões que vão forçar novamente o Benfica a vender, o Benfica é trading puro de jogadores, este mandato vai ser igual. E partindo do pressuposto que, se calhar, já anteciparam receitas do novo contrato televisivo, feito recentemente [Nos]. Ou que irão antecipar tudo.
— Este impasse envolvendo Real Madrid, Mourinho, Benfica e Marco Silva poderia ter sido evitado?
— Claro que podia. Começamos pelo início. José Mourinho é contratado e tem uma cláusula no contrato, dita por Rui Costa e confirmada por José Mourinho: ‘se não ganhar as eleições, eu não quero que a estrutura fique dependente do treinador e o treinador também tem prerrogativa de ir embora’. Certo. Nos contratos típicos de treinador, se essa é a condição, é uma cláusula a que chamamos condicional. A partir do momento em que Rui Costa ganha as eleições, essa cláusula tem de caducar automaticamente. Defenderia o Benfica daquilo que está a passar-se. E também defenderia o treinador.
— O contrato foi mal preparado?
— A pressa foi tanta em contratar uma arma eleitoral, um treinador que iria fazer o papel transversal de treinador, de diretor de comunicação, de defender o Benfica, contra tudo e contra todos… Contra a arbitragem. A figura de Mourinho defendia a própria instituição, confundia-se com a própria instituição, o que é um erro. Mourinho era um trabalhador e tinha de ser defendido como qualquer outro trabalhador, beneficiando daquilo que Mourinho tem de bom. Esse é o primeiro grande problema, é um problema contratual. A cláusula tinha de ser condicional, tinha de cair a partir do momento em que o Rui Costa ganha as eleições, para não se colocarem a jeito, Mourinho e a SAD. O que é que aconteceu? Vimos José Mourinho a pedir a renovação publicamente, a dizer que estava cá, que gostava muito de estar no Benfica, que achava estar a perder uma proposta de renovação, porque queria continuar no Benfica. E ausência completa da SAD sobre o assunto. Até à semana do jogo na Amoreira [com o Estoril], em que é apresentada proposta de renovação — quarta-feira. É mensagem que o Benfica passa de 'não sei bem se queremos que o José Marinho continue'.