A BOLA com avô e neto

O avô é lenda do Vitória, o neto quer devolver o clube ao topo

Fernando Tomé, nome maior de Setúbal e da história do Vitória tem agora uma razão mais para acompanhar o clube que se confunde com a sua vida: o neto Tomé faz parte da equipa que alcançou duas subidas consecutivas para devolver o clube aos nacionais. Apesar de nem isso lhe atenuar a dor

Sentado ao lado do senhor que agora anda sempre de boné, e que por isso ele reconhece a uns bons 100 metros de distância, o jovem Francisco não tem dúvidas: «É a maior figura do Vitória. Fernando Massano Tomé, uma lenda deste clube por tudo o que conquistou, pela história que escreveu como jogador, treinador e coordenador», atira quando lhe pedimos para nos apresentar quem o acompanha.

E sem pedir autorização, coloca-lhe a mão na perna – gesto que há de repetir inúmeras vezes – e acrescenta: «Para mim é um orgulho ser neto dele. Passar na zona dos troféus e ver a foto do meu avô em quase todas as fotografias deixa-me muito feliz por tudo o que ele conquistou».

Sim, Francisco é ‘Kiko’ Tomé Gomes. Nascido em Setúbal, sócio do Vitória desde o dia em que nasceu, há 22 anos, e avançado da equipa principal, que acaba de alcançar a segunda subida consecutiva, desde o fundo do futebol distrital até ao Campeonato de Portugal, onde irá competir na próxima época.

Equipado à Vitória e sentado junto ao relvado que sonhava pisar desde que começou a ir ao Estádio do Bonfim com o avô – apesar do medo das abelhas, memória que ainda o acompanha! – Kiko não faz por esconder o orgulho nas raízes. Apesar de reconhecer peso no legado que lhe foi transmitido pelo avô

«Falar no Vitória na nossa família é complicado. Porque é muito importante. E sem obrigações, o meu avô passou este legado de Vitória. Primeiro para o meu tio e para a minha mãe. E depois foi-se mantendo a nossa família sem qualquer tipo de pressão. Nós próprios fomos querendo vir e estar presentes e ir acompanhando», revela.

E se acompanhar na bancada foi tradição desde sempre, jogar com a camisola listada de verde e branco foi desejo concretizado há duas épocas e meia, depois de a formação ter sido feita numa escola com ligação ao Sporting, tendo depois passado ainda por outros clubes do distrito de Setúbal.

«Estar no mesmo clube em que o meu avô é lenda era um sonho de criança e representa muito para mim. O apelido Tomé, por vezes pode ser um peso por vestir esta camisola, mas é sobretudo orgulho. Muito orgulho», reconhece.

Da era dourada ao capítulo negro

Não haverá vitoriano que se preze que não conheça Fernando Tomé. Afinal, foram quase 200 os jogos que fez pelo clube, só na equipa principal, num total de sete épocas, às quais se podem juntar as quatro que fez na formação.

O antigo médio foi figura na chamada ‘era dourada’ do Vitória. Uma fase que teve como momentos altos a conquista da primeira de três Taças de Portugal do clube (1966/67), o 3.º lugar no campeonato (1969/70) e participações europeias recorrentes, com confrontos com equipas como a Juventus, o Bayern Munique, ou o Liverpool, equipa inglesa que os sadinos até eliminaram, com o golo do triunfo no Bonfim a ter sido marcado por Fernando Tomé.

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Vivências de glória que hoje parecem distantes, mas que fazem com que ainda hoje não seja como ‘Vitória’ que os elementos da família se referem ao clube. «É o ‘Enorme’!», atira o neto, com um olhar cúmplice para o avô.

«Pequenos não somos, como mostra o nosso passado. Grandes, podemos não ser também porque nunca fomos campeões e já descemos de divisão. Portanto, somos enormes. Um clube amado por todos, pelo qual a cidade de Setúbal tem de se orgulhar, por tudo o que o Vitória tem feito ao longo destes 115 anos», acrescenta Fernando Tomé

Atualmente, porém, a realidade vivida por Kiko é bem distinta daquela que o avô viveu. Na época em que chegou ao clube para representar a equipa B, o Vitória até alcançou em campo a subida à Liga 3. Contudo, falhou depois a inscrição devido a problemas financeiros, vendo-se atirado para o fundo do futebol distrital.

«Quando cheguei, o objetivo era chegar à equipa A. Mas no final da época, quando o Vitória desceu administrativamente, não pensei duas vezes para decidir ficar», reconhece o jovem avançado, que viu na situação quase uma brincadeira do destino.

«Se o meu avô participou na melhor fase do Vitória, talvez eu tivesse mesmo de estar presente na equipa que ia começar tudo do zero, para tentar levar outra vez o Vitória ao lugar que merece. Já demos dois passos em frente. Faltam mais alguns, mas já estamos mais próximos do que há dois anos», realça.

«Apelido Tomé não deve pesar ao Kiko»

Carlos André tem hoje no Vitória um papel semelhante ao que Fernando Tomé tinha quando ele, com 10 anos, chegou ao clube no qual se formou: passar a mensagem da importância de vestir a camisola do ‘Enorme’

«Eu apanhei-o como coordenador da formação, depois como treinador dos juniores. Foi um dos grandes responsáveis pela minha passagem dos juniores para os seniores, porque acreditava no meu futebol. E fez o mesmo por muitos. Era uma lenda que tinha o papel de transmitir a mensagem do que é vestir esta camisola. Ele passou-me isso e tento passar agora isso aos mais jovens», confessa o agora diretor desportivo.

Pelo meio, ainda que sem ter isso em mente, o dirigente de 44 anos deu uma alegria a toda a família Tomé, ao ser um dos responsáveis pela contratação de Kiko, então para a equipa B. Mas Carlos André garante o apelido não pesou na decisão. E que também não deve pesar ao jovem avançado.

«O Kiko veio para jogar na equipa B, que tinha lacunas na posição. E está aqui pelo valor dele. Quando o clube desceu à 2.ª distrital ele demonstrou logo vontade de ficar para ajudar», refere, confessando que com o neto de Fernando Tomé não precisou de conversar sobre o significado da listada verde e branca.

«Ele conhece bem a mística do clube. Não fez a formação cá, mas conhece o Vitória por dentro por tudo o que o avô lhe transmitiu. Cresceu a ouvir falar do Vitória e a ver o clube noutros patamares», reconhece.

Já quando questionado sobre se sente que o apelido pesa no jovem jogador, o dirigente recorda conversas que já tiveram sobre o tema.

«Sempre que surge a questão do apelido que carrega, digo-lhe que ele não tem de provar nada a ninguém, nem tem de sentir o peso de se chamar Tomé. Tem de ser uma coisa normal. Isto acontece porque o Vitória é um clube diferente, um dos maiores de Portugal por tudo o que conquistou, por ser dos que tem mais presenças na primeira divisão. A responsabilidade é pelo trajeto dele. Em qualquer clube será o neto de uma lenda do Vitória, jogador da Seleção. E ele percebe que isso é algo positivo e não uma coisa que pesa nas costas», finaliza.

Uma dor que nem o neto atenua

Aos 78 anos, Fernando Tomé ainda carrega no cartão de cidadão uma mágoa impossível de apagar: não ter ‘Setúbal’ inscrito na naturalidade.

«Não mudei isso porque não me permitiram, caso contrário já o teria feito há muitos anos», atira, enrolado num sorriso, explicando como a carreira de futebolista do pai o fez «degenerar».

«Nada contra a cidade do Porto, mas eu costumava dizer ao meu pai que ele é que era o culpado: ‘não tinha nada de levar a mãezinha para o Porto quando foi para lá jogar. Se a tivesse deixado cá, eu nascia em Setúbal’. Mas tenho a felicidade de a minha mulher, os meus filhos e os meus netos serem naturais de Setúbal. O único que degenerou fui eu», acrescenta.

E essa brincadeira que repete em tom sério ajuda a perceber o bairrismo que existe nele e torna mais percetível também a dor que sente ao ver o clube num patamar tão baixo, algo que nem a presença do neto na equipa consegue fazer atenuar.

«As pessoas podem não entender, mas para mim é muito complicado aceitar esta situação. Claro que ver mais um da família com esta camisola é especial, mas é mesmo muito complicado», diz, agarrando carinhosamente o braço do neto, como que a pedir-lhe desculpa.

«No primeiro ano no Distrital, às vezes até me vinham as lágrimas aos olhos. Porque não conseguia ver o Vitória nos regionais. Mas quando o meu neto veio para cá, eu tinha a obrigação de estar também a apoiá-lo e a desejar-lhe sucesso, que foi o que eu sempre desejei a todos os que andaram com este símbolo ao peito», declara.

E Fernando Tomé acredita de Kiko entende esse sentimento. Afinal, sempre viu o Vitória no topo do futebol nacional.

«Ele tinha três ou quatro anos quando viu o Vitória ganhar a primeira edição da Taça da Liga [2007/08]. Ele estava lá! Claro que quando o vejo equipado à Vitória fico orgulhoso, mas falta algo. Porque ele também viu o clube noutros patamares diferentes daqueles onde está agora».

O neto entende e apoia a justificação do avô.

«Sempre que entro em campo com a camisola do Vitória, eu penso no meu avô. Tenho sempre o desejo de defender este emblema e honrar o meu avô por tudo o que faz por mim e pelo que fez e ainda faz pelo Vitória. Por isso, entendo que haja um misto de sentimentos por estar a ver o Vitória nesta situação, e eu também estar aqui. Mas acho que lhe custa um pouco menos por eu estar aqui. Porque assim esquece um bocado o contexto e tenta acompanhar mais o início da minha carreira», refere, deixando uma promessa.

«O meu avô ainda vai ver muitas conquistas do Vitória e no dia 31, quando levantarmos a taça de campeões da 1.ª distrital ele vai estar comigo dentro do campo para me ajuda a erguer o troféu. Porque no ano passado foi-se logo embora depois do jogo em que recebemos o troféu e este ano não o vou deixar ir embora», termina, com um sorriso acompanhado pelo avô.

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