Nasceu das cinzas de um histórico do distrito do Porto e agora vai estrear-se nos nacionais
Ainda não é maior de idade e já se vai mostrar para longe da mãe, AF Porto. O Maia Lidador vai jogar no Campeonato de Portugal, em 2026/27, militando, pela primeira vez, nos nacionais. Tendo ficado em segundo lugar na última edição da primeira divisão distrital da referida associação (a maior do país), o conjunto azul-grená foi convidado a ocupar a vaga do Mosteirense, campeão da AF Portalegre (que não indicou outro clube para ser promovido), que recusou subir de escalão.
Agora, é proibido voltar a casa. Descer é, de resto, uma palavra que o emblema maiato desconhece por completo. «O Maia era um eterno candidato à subida ao Campeonato de Portugal. Alcançou-a e agora tem de, humildemente, conquistar, no novo palco, o estatuto que tinha no distrital. Neste clube, é absolutamente proibido descer de divisão, nunca aconteceu. Subiu quatro divisões e faltam-lhe três para chegar à Liga», enalteceu, em entrevista A BOLA, o presidente António Fernando.
A mesma ambição é partilhada pelo diretor desportivo, Jorge Coutinho, mais conhecido no mundo do futebol por Couto, que espera que, «a longo prazo, o Maia volte aos patamares onde já esteve, na segunda divisão, e, quem sabe, chegar à primeira». Mas antes há consciência de que é necessário estabilizar e apalpar bem os terrenos do novo patamar. «O investimento atual é para estabilizar o clube no Campeonato de Portugal. No futuro, veremos», diz o dirigente, revelando também o desejo de, num futuro próximo, chegar à presidência, «sempre com o apoio do atual presidente».
«O Maia Lidador é um clube que nasce das cinzas do Futebol Clube da Maia», explica António Fernando, recordando o antigo clube que, em 2000/01, esteve às portas da Liga, não fosse Meyong (do Vitória de Setúbal) a fechar-lhas na cara, com um golo em cima do minuto 90. «Ganhámos em Espinho [3-2], mas um golo do Vitória [orientado por Jorge Jesus] contra a Naval [2-1] tirou-nos a subida», recorda Couto, que nesse ano pertencia à equipa de juniores, embora tenha chegado a treinar com a equipa principal.
É mais o que une ou o que separa?
«O Maia Lidador foi fundado por sócios, adeptos e dirigentes do Futebol Clube da Maia, que foi extinto em 2009. Ambos os clubes são entidades jurídicas completamente diferentes, a única ligação é a base de apoio, que é a cidade», nota o dirigente máximo.
Apesar disso, António Fernando, de 52 anos e presidente desde 2009, aponta que «a ligação dos adeptos não é a mesma, porque o Futebol Clube da Maia jogava na Liga 2 quando iniciou o processo de declínio e o Maia Lidador está a fazer o percurso inverso, de subida, com a ambição de pôr a cidade nos patamares mais elevados do futebol português.»
Couto, 42 anos e diretor desportivo desde 2024, tem igual perceção, mas acredita que o cenário vá mudar, num futuro próximo. «Ainda vejo um pouco as pessoas afastadas, mas faz parte do futebol, em que quando os clubes estão em baixo têm menos adeptos e o contrário quando estão em cima. O antigo Maia era fortíssimo e respeitado por todas as equipas. A cidade, com todas as suas freguesias, acompanhava-o em todos os jogos e acredito que voltaremos a ter esse Maia muito em breve», prevê o antigo defesa-central dos dois clubes citados nesta reportagem.
«As pessoas do Maia são como família»
Quem também conversa com o nosso jornal é o treinador dos maiatos, Bock. O antigo goleador está na terceira passagem no clube (2018 a 2021, 2023/24 e de 2025 até agora). «Conheço bem esta casa, onde já estive duas vezes perto da subida, no ano do covid, em que o campeonato foi interrompido, e há três anos, em que ficámos a um ponto do play-off de subida. «No ano passado, sabia que era difícil porque estava longe da subida, quando cheguei, mas conseguimos», lembra.
«As pessoas do Maia são como família», confirma o timoneiro que já tinha passado pelo antigo clube enquanto jogador: «Fui emprestado pelo FC Porto, no primeiro ano de sénior. Apesar de não ter jogado muito, acompanhei jogadores muito experientes que me ajudaram a evoluir.»
«Não encontro diferenças praticamente nenhumas entre o antigo e o novo Maia. As pessoas são as mesmas. Por isso é que digo que é regressar a casa», acrescenta, demonstrando-se, agora, entusiasmado por poder liderar o conjunto nortenho na primeira aventura nos nacionais.
«Não prometemos subidas, mas estamos a fazer um plantel que vai entrar em todos os jogos para ganhar», antevê. Sobre a Série A, «muita gente diz que é mais fraca do que a B, mas, no ano passado, o Bragança esteve a lutar pela subida até ao último jogo e o Vianense subiu, ao contrário do Rebordosa, que tinha feito uma época incrível».
Um projeto para «meninas», do rés-do-chão até ao teto
Mas o Maia Lidador é muito mais do que futebol masculino e hoje está a ser criada uma base para «projetar o clube», afiança António Fernando, «para que seja, a médio prazo, uma das melhores equipas femininas do país».
Bruno Silva, coordenador do futebol feminino do clube, explica que o projeto se iniciou em 2023/24, «a pedido do presidente», e começou ser construído pelo rés-do-chão: «Pretendia um projeto diferente de todos os da região, em que fôssemos acrescentando um escalão de cada vez, começando pelas sub-11, até chegar ao escalão sénior, de forma a que as outras meninas que nos procurassem conseguissem ter aqui um percurso a longo prazo, em vez do inverso, que é o que acontece muitas vezes.»
«Na primeira época fizemos a equipa de sub-11 apenas com sete jogadoras. Na seguinte, acrescentámos um escalão, sub-13, e mais do que duplicámos as atletas que tínhamos. Em 2025/26, conseguimos ter sub-15 e passámos a ter duas equipas de cada escalão anterior. Nesta temporada, já vamos ter sub-17 e o grande objetivo será ter seniores no ano que vem», explica o responsável.