Ruben Amorim
Ruben Amorim - Foto: IMAGO

E ao fim de 14 meses eis que Ruben Amorim deixa o comando técnico da equipa do Manchester United. Um desfecho infelizmente expectável face às mais recentes declarações do treinador português em conferências de imprensa. Uma situação cada vez mais comum em Old Trafford, outrora forte e pujante, actualmente um autêntico cemitério de treinadores.

Mais do que as exibições menos conseguidas ou os resultados averbados, a principal ilação a retirar deste despedimento é que a Direcção do Manchester United não gosta de ser exposta publicamente. O que não deixa de ser curioso, pois o clube parece ser gerido de fora para dentro, tal a importância dada às opiniões dos media ingleses, sempre prontos a questionar técnicos estrangeiros que não actuam de acordo com o status quo, e dos pundits, que são ex-glórias do clube.

A verdade é que nos últimos anos os proprietários, os directores gerais e todas as pessoas (ir)responsáveis pelo futebol profissional do clube estiveram sempre longe do sucesso. Por terem sido incapazes de perceber como Sir Alex Ferguson conseguiu criar uma cultura organizacional forte assente em princípios morais claros e inegociáveis. Por terem sido incapazes de aprender com o ADN vencedor instituído pelo treinador escocês.

Por terem estado sempre mais preocupados com as opiniões de terceiros do que com a opinião dos seus treinadores. Por terem estado sempre mais preocupados em imiscuir-se no trabalho de campo do que em fazer o que lhes competia. Por terem estado sempre ao sabor do vento, dos resultados, dos media, dos adeptos em vez de traçarem um caminho e estipularem um plano.

Para isso teria sido importante haver visão estratégica. Teria sido importante haver uma ideia clara e um rumo ainda mais nítido a ser seguido. Algo que nunca houve. E quando não se sabe por onde se quer seguir, qualquer caminho serve. O que, por norma, determina uma navegação à deriva e aponta sempre a uma constante correcção de trajetórias.

Nos últimos 14 meses o problema do Manchester United não foi o 1x3x4x2x1 de Amorim. Muito menos a convicção acérrima na sua Ideia de Jogo, no seu Modelo de Jogo e no seu sistema táctico. Tão pouco a honestidade intelectual do treinador em conferências de imprensa, nada preocupado em colocar panos quentes ou tapar o Sol com a peneira em temas potencialmente fracturantes.

O problema é que o United perdeu-se em si mesmo. Vive numa autêntica Feira das Vaidades directiva. Já nem sequer consegue voltar ao passado para viver dele, tal a distância existente entre a mentalidade de outrora e a falta de mentalidade reinante. O problema é que os red devils continuam a olhar para fora em vez de olhar para dentro. Não têm escuta ativa. Ouvem para responder e reagir, já não escutam para pensar, perceber, assimilar e decidir.

A Ruben Amorim poderão e deverão ser sempre imputadas responsabilidades, mas há algo que nunca poderão apontar ao jovem treinador português: o ser um yes man. E parece-me claro que a Direcção do Manchester United quer um treinador que seja menos transparente nas suas interacções com a comunicação social. Um treinador que seja mais Head Coach e menos Manager. Um treinador que seja mais maleável e menos autocrítico. Um treinador que seja conivente e complacente com as decisões tomadas.

Amorim nunca seria esse treinador. Creio que nunca será. E ainda bem. Daí acreditar que o que aconteceu hoje não foi despedimento, mas sim um 'livramento'.