Houve Campeonatos do Mundo de Futebol que passaram à História pelo contexto político em que se desenrolaram.

O de 1934, em Itália, no auge de Mussolini, quando estava escrito nas estrelas que ‘squadra azzurra’ seria campeã do Mundo; o de 1954, na Suíça, quando a Alemanha Ocidental recuperava da II Guerra Mundial, o país recebeu 11% do montante global do plano Marshal, e a vitória no Campeonato do Mundo (com muita água benta da arbitragem) representou a retoma do amor-próprio germânico; e o de 1978, atribuído à Argentina de Videla, à altura um dos regimes mais repressivos e sanguinários do mundo, que tendo uma boa equipa não deixou de ser levada ao colo (com ajuda portuguesa) até à vitória. O 23.º, que teve ontem o ‘kick-off’, vai juntar-se ao rol de competições contaminadas por motivos que nada têm a ver com o futebol.

O mundo, mas muito particularmente a FIFA, devia ter percebido, em julho de 2025, quando, para uma competição da CONCACAF, sete jogadores com passaporte haitiano, que representavam o Mount Pleasant, foram impedidos de entrar nos Estados Unidos para defrontar o LA Galaxy, que havia sérias razões para acreditar que o Mundial de 2026 não seria disputado dentro da normalidade desportiva.

Recentemente, o tratamento dado à comitiva do Uzbequistão, antes do jogo particular com os Países Baixos, em Nova Iorque, a detenção, durante sete horas, por engano, do jogador iraquiano, Aymen Hussein, no aeroporto de O’Hare, em Chicago, e, principalmente, a recusa de entrada no país do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, que por essa razão ficou fora do Mundial, a que se junta a recusa de visto a membros do ‘staff’ e adeptos do Irão, mostram como a FIFA não acautelou devidamente a integridade da competição, ou, se o fez, a forma como a administração Trump, também no Campeonato do Mundo, usa o ‘quero, posso e mando’ impunemente, volta a imperar.  

Temo que, ao longo da competição, mais incidentes desta natureza voltem a repetir-se  porque, ao contrário do que sucedia na Grécia Antiga, no caso vertente o Desporto não provoca uma ‘trégua olímpica’, ou, se quisermos, mundialista. E, por falar em Jogos Olímpicos, perante o que se tem visto, a zimbabuana Kirsty Coventry, presidente do Comité Olímpico Internacional, tem boas razões para estar preocupada quanto a Los Angeles/2028.

*Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), nos Estados Unidos (Boston Minuteman, Las Vegas Quicksilvers e New Jersey Americans) e no Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 disputar-se-á por terras onde o ‘King’ espalhou o fulgor derradeiro da sua magia… 

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