Dia de corrida à conquista da camisola arco-íris de campeão mundial de ciclismo
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Mundial: sem Pogacar, acreditam todos que podem alcançar o arco-íris

Sem Tadej Pogacar abre-se um leque de possibilidades na prova de fundo dos Mundiais este domingo, em Montreal. A corrida pela camisola arco-íris que foi do esloveno nos dois últimos anos, será imprevisível e repleta de potenciais protagonistas. Em que se espera estar incluídos alguns dos portugueses

A ausência do bicampeão mundial Tadej Pogacar transforma a prova de fundo dos Mundiais em Montreal numa das corridas mais imprevisíveis e ansiadas da temporada. Sem o esloveno, que era o grande favorito antes da grave queda sofrida durante a Volta a Espanha tê-lo forçado a terminar prematuramente a época, a batalha pela camisola arco-íris está totalmente em aberto, com nomes como Remco Evenepoel, Mathieu van der Poel, Wout van Aert, Paul Seixas e Isaac del Toro a perfilar-se como principais candidatos. Mas as possibilidades de outsiders são as mais credíveis das últimas duas edições. 

O domínio de Pogacar foi de tal forma avassalador nos Mundiais de 2024 e, especialmente, no de 2025, que a falta de ponto de referência no esloveno, em torno do qual se envolveria toda a competição, obriga todas as seleções e os respetivos líderes a repensar as estratégias. A corrida abre-se amplamente e para muitos pode ser uma das últimas oportunidades de conquistar o título mundial, dado que o regresso de Pogacar é esperado nos Mundiais do próximo ano em Sallanches, França, em que o percurso será mais uma vez extremamente exigente, à medida do vencedor de cinco Voltas a França.

Evenepoel, Seixas e Del Toro na linha da frente

Com Pogacar fora de prova, Remco Evenepoel assume-se na primeira linha de candidatos. O belga já sabe o que é ser campeão do mundo, tendo vencido em Wollongong 2022, e o estado de forma de topo foi confirmado com o quarto título mundial de contrarrelógio consecutivo na semana passada.

Remco Evenepoel

No entanto, a corrida de Evenepoel pode tornar-se taticamente mais complexa. A presença de Wout van Aert em boa forma na equipa belga é um fator a ter em conta. Embora ambos possam colaborar por um objetivo de seleção, o campeão do mundo é um título individual e a gestão de ambições concorrentes pela camisola arco-íris é sempre um desafio delicado para as grandes nações. 

Paul Seixas

O recente Grande Prémio de Montreal, que terminou às voltas no circuito em que decorre os Mundiais, serviu de aviso a Evenepoel. O mexicano Isaac del Toro e o francês Paul Seixas impuseram-se na derradeira passagem pela subida principal, Voie Camillien-Houde, onde Evenepoel deverá evitar o confronto com os dois jovens rivais em fase decisiva da longa corrida de 273,4 km.

Isaac del Toro

Seixas, que completou 20 anos na quinta-feira, não esconde a ambição de se tornar o mais jovem campeão de elite da história, enquanto Del Toro não quererá perder a oportunidade para conquistar a camisola tão desejada, que seria igualmente um marco para o país-natal.

Mathieu van der Poel

Entre os principais candidatos, destaca-se ainda Mathieu van der Poel. Apesar de ter afirmado que o percurso de Montreal está «no limite» das suas capacidades, o historial sugere o contrário. O neerlandês, que conquistou o bronze no exigente traçado de Zurique há dois anos e dominou a corrida em Glasgow em 2023, é conhecido por feitos extraordinários. A recente vitória após uma fuga, a solo, de 175 km, na Volta ao Luxemburgo, serve de aviso à concorrência e de motivação ao neerlandês. 

Outro nome a ter em conta é Tom Pidcock. Recém-coroado campeão do mundo de XCO, o britânico tem no circuito de Montreal um ecossistema perfeito.

A lista de candidatos estende-se para além dos favoritos habituais. Os Estados Unidos apresentam a equipa mais forte dos últimos anos, com Brandon McNulty e Quinn Simmons a alimentarem esperanças legítimas, procurando honrar o legado de Greg LeMond. A confiança também não será um problema para o surpreendente vencedor da Vuelta a España, Enric Mas.

Espera-se uma corrida agressiva, com ciclistas como o irlandês Ben Healy, medalha de bronze no ano passado, a procurarem a oportunidade. Numa prova em que a supremacia de um único corredor não é um dado adquirido, uma fuga madrugadora poderá revelar-se uma tática de sucesso, e muitos estarão a planear essa estratégia.

Os portugueses

Portugal chega aos Mundiais de Montréal com uma das seleções mais interessantes dos últimos anos, ainda que seja difícil estabelecer uma hierarquia rígida entre as seis cartas nacionais.

Afonso Eulálio

Afonso Eulálio poderá ser o ás de trunfo luso. O nono lugar nos Mundiais de Kigali, em 2025, deixou de parecer um resultado isolado depois de uma época em que o corredor da Bahrain Victorious deu um salto competitivo evidente, com destaque para o sexto lugar no Giro, onde vestiu a camisola rosa durante nove dias e ganhou a classificação da juventude

A recente prestação no GP de Montréal reforçou ainda mais essa candidatura: Eulálio foi nono numa corrida disputada em grande parte sobre o mesmo terreno que encontrará no Mundial. Não é uma garantia de repetição do resultado, naturalmente, mas é um indicador particularmente relevante pela proximidade temporal e pela especificidade do percurso.

João Almeida é o grande ponto de interrogação. O talento e o perfil do percurso colocam-no naturalmente entre as principais opções portuguesas, mas a forma física é uma incógnita. Depois de ter adoecido no final de fevereiro e só ter regressado à competição em agosto, o próprio admitia durante a Vuelta que ainda estava «muito longe» das melhores pernas. Por outro lado, o terceiro lugar no contrarrelógio de 32 quilómetros da Vuelta mostrou que a recuperação atingiu, pelo menos, um nível elevado em determinados esforços.

A questão será perceber que João Almeida estará na estrada depois de seis horas de corrida. Se estiver próximo da melhor condição, a capacidade de subir, recuperar entre esforços e competir num grupo reduzido torna-o em enorme valor. Se a resistência ainda não estiver ao nível habitual, Portugal terá de alterar a prioridade e proteger Eulálio.

António Morgado é um joker na equipa das quinas, por dispor de características para uma corrida longa e agressiva. Pode ser fundamental antes da fase decisiva, mas também tem qualidade para sobreviver às primeiras seleções e transformar-se numa alternativa caso Eulálio ou Almeida fiquem condicionados.

Atrás deste trio, Portugal dispõe de corredores cuja importância poderá ser menos visível nos resultados, mas decisiva na construção da corrida. Nelson Oliveira e Ivo Oliveira, ambos especialistas no contrarrelógio, acrescentam experiência, capacidade de trabalho e potência para controlar movimentos ou colocar um português numa fuga perigosa.

Tiago Antunes completa uma equipa que não depende exclusivamente dos corredores WorldTour. Vencedor da Volta ao Alentejo e do Troféu Joaquim Agostinho em 2026, além de quinto na Volta a Portugal de 2025, chega com resultados que justificam a presença e com características para ser útil numa corrida de desgaste.

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