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Mundial 2026: o guia do México
O PLANO
O México chegará ao seu Mundial caseiro carregando uma mistura estranha de entusiasmo, pressão e a necessidade de se reencontrar consigo mesmo. O facto de coorganizar o torneio juntamente com os Estados Unidos e o Canadá poupou os mexicanos ao desgaste de uma longa campanha de qualificação, mas também eliminou a oportunidade de construir ritmo competitivo. É por isso que o selecionador, Javier Aguirre, transformou os amigáveis e as competições regionais em testes de caráter.
A ideia futebolística de «El Vasco» é muito mais pragmática do que estética. O México não tenta dominar através de uma posse de bola infindável; joga com intensidade, pressão agressiva e transições rápidas. Aguirre quer tornar a sua equipa desconfortável de defrontar, algo que ficou evidente nos recentes amigáveis contra Portugal e a Bélgica. Como o próprio refere: «Num Mundial, a equipa que joga o futebol mais bonito nem sempre ganha. Ganha a equipa que sabe competir.»
O esquema mais utilizado é um 4-3-3 flexível, que se pode transformar num 4-2-3-1 ou até num 4-4-2, dependendo do adversário. Edson Álvarez funciona como a âncora do meio-campo, Erik Lira atua como o operário silencioso que equilibra tudo, enquanto Gilberto Mora, Brian Gutiérrez e Álvaro Fidalgo garantem movimentação entre as linhas. Nas alas, Alexis Vega e Roberto Alvarado trazem velocidade e imprevisibilidade, ao passo que Raúl Jiménez e Armando González se alternam como referências ofensivas.
Defensivamente, o México tem maior clareza. Johan Vásquez afirmou-se como o defesa-central mais fiável graças à sua experiência na Serie A com o Génova, enquanto César Montes oferece liderança e domínio aéreo. Nas alas, Jesús Gallardo e Israel Reyes mantêm o perfil do defesa moderno mexicano: pautados pelo pendor ofensivo, intensos e constantemente envolvidos em ambos os lados do terreno, especialmente Reyes, que se adaptou de defesa-central a lateral-direito.
Mas a maior história em torno do México continua a ser Raúl Jiménez. Para lá do futebol, ele representa resiliência. O avançado do Fulham revelou recentemente o pesadelo físico que enfrentou antes do Mundial de 2022, no Qatar. «Foi muito difícil, porque começou em 2019… Joguei desde setembro ou outubro de 2019 com uma pubalgia», disse ao Claro Sports. A situação piorou depois de uma infiltração ter causado uma infeção: «Uma noite acordei com muitas dores… Praticamente não conseguia andar.» No entanto, rejeitou as sugestões de que deveria falhar o Mundial para se focar numa recuperação adequada. «Depois de tudo o que passei, alguém dizer-me "não podes", era impossível para mim aceitar», afirmou Jiménez.
Tal determinação demonstra a razão pela qual Aguirre continua a valorizá-lo tanto. O México pode já não ostentar a geração de jogadores mais talentosa, mas tem uma comitiva experiente, habituada à crítica constante e à pressão de jogar em casa. O maior desafio será psicológico: transformar a pressão do Azteca em energia positiva e não em ansiedade.
O SELECIONADOR
Javier Aguirre vai orientar o seu terceiro Mundial com o México, após a Coreia do Sul/Japão 2002 e a África do Sul 2010. Poucos treinadores compreendem a pressão que envolve a «El Tri» melhor do que ele. Com experiência em bancos de Espanha, Japão e Médio Oriente, «El Vasco» sempre foi conhecido como um treinador pragmático, direto e emocionalmente forte. Não promete espetáculo, promete competitividade. O seu regresso, em 2024, teve como objetivo restaurar o caráter e a estabilidade após anos de inconsistência. Aguirre enfatiza uma mentalidade robusta: «É preciso aprender a sofrer», diz. Em vez de construir uma seleção deslumbrante, quer uma que seja resiliente, desconfortável de defrontar e dura.
A ESTRELA
Raúl Jiménez continua a ser o rosto emocional da seleção mexicana. O avançado do Fulham representa muito mais do que experiência e golos: simboliza a sobrevivência. Depois de sofrer uma fratura craniana em 2020 e de lutar contra os problemas físicos que moldaram o seu caminho rumo ao Catar 2022, muitos acreditaram que nunca mais voltaria verdadeiramente ao topo. Jiménez, contudo, nunca aceitou essa ideia. A sua capacidade de jogar de costas para a baliza, de combinar com os companheiros e de aparecer nos momentos decisivos continua a ser crucial para o México. Além do futebol, Jiménez traz uma liderança silenciosa e uma história que impõe respeito dentro do balneário.
JOGADOR A SEGUIR
Armando González pode tornar-se uma das surpresas do torneio. O avançado do Chivas explodiu na ribalta após conquistar a Bota de Ouro no Apertura 2025 e terminar como vice-artilheiro na tabela de goleadores durante o Clausura 2026. A sua alcunha, «La Hormiga» [A Formiga], surgiu de uma história de infância: costumava ter medo de formigas, mas hoje joga sem medo: agressivo, implacável e pressionando constantemente os defesas. A sua evolução já atraiu as atenções europeias, com clubes como o Borussia Dortmund e o Feyenoord a monitorizarem o seu progresso. Jovem e imperfeito, possui algo difícil de ensinar: uma fome constante e personalidade para competir sob pressão.
HERÓI DISCRETO
Erik Lira raramente faz as manchetes, mas tornou-se uma peça fundamental da seleção nacional. Organiza, recupera a posse de bola, equilibra o meio-campo e encarrega-se do trabalho invisível que permite aos outros brilhar. Aguirre valoriza particularmente a sua disciplina tática e mentalidade competitiva. Após defrontar Portugal e a Bélgica, Lira disse algo que ecoou junto dos adeptos mexicanos: «Quem quiser vir ao Azteca e ganhar, vai sair morto.» Disse também recentemente: «Levantei a mão para que o Javier saiba que sou mais um soldado pronto para a guerra.» Essa frase define-o na perfeição: não procura os holofotes, mas está sempre pronto para a batalha.
XI PROVÁVEL
(4-3-3) Raúl Rangel - Israel Reyes, César Montes, Johan Vásquez, Jesús Gallardo - Álvaro Fidalgo, Erik Lira, Gilberto Mora - Roberto Alvarado, Raúl Jiménez, Brian Gutiérrez
O QUE ESPERAR DOS ADEPTOS
O México terá uma das maiores e mais barulhentas claques no Mundial, especialmente no Estádio Azteca. O ambiente costuma ser uma mistura de celebração, pressão e orgulho nacional: camisolas verdes, sombreros gigantes, bandeiras e cânticos sem parar. Mas os adeptos do México também sabem ser exigentes e impacientes. Contra Portugal, setores do público vaiaram a própria equipa e cantaram ironicamente «olé» para o adversário quando a exibição não convenceu. O Azteca pode tornar-se uma vantagem emocional ou um fardo psicológico se a equipa começar a mostrar dúvidas. A relação entre a seleção e os seus adeptos tem-se tornado cada vez mais tensa devido à escassez de sucesso em grandes torneios.
RELAÇÃO COM OS EUA/TRUMP
A coorganização com os Estados Unidos acrescenta inevitavelmente um pano de fundo político ao torneio. A relação entre os países continua a ser moldada por debates sobre migração, tensões económicas e a figura de Donald Trump, que durante anos usou o México como um tema recorrente na sua retórica política. No seio da seleção, no entanto, a abordagem pública tem sido a de evitar a confrontação política direta. Jogadores e responsáveis da federação preferem falar sobre união cultural e o privilégio de organizar um Mundial. Entre os adeptos, há frustração relativamente aos preços dos bilhetes, controlos migratórios e à logística de viagem dentro dos EUA. Ainda assim, o torneio proporcionará uma oportunidade única para exibir a ligação cultural entre ambas as nações. Haverá rivalidade, tensão e ruído político, mas também milhões de mexicanos a celebrar e a transformar as cidades americanas em extensões do Azteca, caso o México consiga uma caminhada inesperadamente longa no torneio.
Textos de Jesús Valdéz for Claro Sports. Estes textos foram escritos no âmbito da Guardian Experts' Network, a rede de troca de conteúdos para o Mundial 2026, liderada pelo jornal inglês The Guardian e que tem A BOLA como representante português, e foram traduzidos com recurso a Inteligência Artificial.