Seleção do Haiti (foto: instagram federação haitiana)
Seleção do Haiti (foto: instagram federação haitiana)

O PLANO

A qualificação do Haiti para o Mundial de 2026 é uma das histórias mais inspiradoras de uma geração do futebol. Mais do que um feito desportivo, o sucesso dos Grenadiers representa um triunfo humano extraordinário, forjado na adversidade, no sacrifício e na resiliência.

Numa altura em que o país continua a braços com uma profunda instabilidade política e uma crise de segurança implacável, a seleção nacional teve de disputar todos os jogos de qualificação fora de portas, privada da paixão e da energia dos seus próprios adeptos. No entanto, mesmo no exílio, recusaram vergar-se. Contra todas as probabilidades, carregaram as esperanças de uma nação inteira e garantiram o regresso do Haiti aos palcos do Mundial pela primeira vez desde a lendária comitiva de 1974.

O selecionador francês, Sébastien Migné, criou uma equipa feroz e disciplinada, assente na intensidade, na organização tática e nas transições rápidas. Os haitianos são agora capazes de defender com rigor antes de se lançarem em perigosos contra-ataques. A experiência e a serenidade de líderes como Duckens Nazon, Frantzdy Pierrot e Ricardo Adé conferem ao grupo um equilíbrio crucial nos momentos decisivos.

O Haiti carimbou o passaporte para o Mundial ao terminar em segundo lugar, atrás de Curaçau, no Grupo C da CONCACAF, vencendo posteriormente a sua fase da terceira ronda de qualificação com triunfos determinantes frente à Costa Rica e à Nicarágua, afirmando os Grenadiers como uma das nações futebolísticas mais respeitadas das Caraíbas.

O técnico francês moldou o Haiti numa equipa moderna, assente em transições verticais. O seu sistema 4x4x2 utiliza os laterais em terrenos adiantados para dar largura e procurar o cruzamento, transformando-se frequentemente num 4x2x3x1 a defender, à medida que o avançado recua para criar superioridade numérica no miolo. Se os médios mantiverem a disciplina quando os laterais sobem, o modelo garante ao Haiti uma excelente base para competir. Os resultados recentes sugerem que a fórmula está a funcionar.

Migné nunca foi homem de esconder a ambição. «Num jogo tudo pode acontecer. A ideia é escrever uma nova história com estes jogadores», afirmou o técnico antes de um torneio onde a sua equipa medirá forças com o Brasil, a Escócia e Marrocos. Disse depois ao portal da FIFA: «Calhou-nos um grupo difícil… mas, olhando pelo lado positivo, estaremos certamente no centro das atenções, o que é uma recompensa tremenda para os rapazes. Teremos agora de entrar em campo e provar que estamos à altura do desafio.»

As peças-chave são Johny Placide, o veterano que segura o setor recuado; Jean-Ricner Bellegarde, que funciona como o motor do meio-campo, e Wilson Isidor, a principal ameaça ofensiva graças à sua velocidade, movimentação e capacidade técnica.

O SELECIONADOR

Sebastian Migné, selecionador do Haiti - Nacionalidade: Francesa
Sebastian Migné, selecionador do Haiti - Nacionalidade: Francesa

Nomeado em junho de 2024, Sébastien Migné tornou-se muito mais do que um selecionador: é o arquiteto por detrás do notável renascimento futebolístico da nação. Antigo adjunto do prestigiado treinador Claude Le Roy, o estratega francês apurou a sua experiência em seleções africanas, incluindo o Congo e o Quénia, antes de assumir o comando dos Grenadiers. Chegado durante um dos períodos mais difíceis do Haiti, Migné devolveu rapidamente a disciplina, a união e a crença ao plantel. Curiosamente, nunca pisou o país. «É impossível porque é demasiado perigoso», confessou à revista France Football. «Costumo viver nos países onde trabalho, mas aqui não posso. Já não há voos internacionais a aterrar lá.»

A ESTRELA

Duckens Nazon (IMAGO)
Duckens Nazon (IMAGO)

Com o explosivo Duckens Nazon a liderar a linha da frente, a seleção do Haiti atreve-se a sonhar alto antes do Mundial. O prolífico avançado tornou-se muito mais do que um mero marcador de golos, encarnando a paixão, a resiliência e o orgulho de um povo que respira futebol. A preparação para o torneio não foi pacífica, uma vez que o jogador atua no campeonato do Irão. «Estava prestes a apanhar um avião para Istambul ou Paris, quando o comissário de bordo disse a toda a gente para sair porque a guerra tinha começado», revelou à BBC. «Fiquei retido na fronteira durante cerca de 48 horas. Recusaram a minha entrada, mandaram-me de volta para o Irão e dormi na fronteira. Mas tive muita sorte porque, antes de a guerra começar, comprei um eSIM. Depois disso, cortaram a internet no Irão. O eSIM salvou-me a vida.»

JOGADOR A SEGUIR

Ruben Providence (IMAGO)
Ruben Providence (IMAGO)

Ainda praticamente desconhecido do grande público do futebol mundial, Ruben Providence, de 24 anos, poderá emergir como uma das revelações do Haiti no Mundial. Rápido, audaz e vertiginoso nas situações de um para um, o jovem extremo possui aquele tipo de criatividade explosiva capaz de agitar um jogo em segundos. Nascido em França, formou-se em alguns dos maiores clubes europeus, com passagens pelo PSG e pela Roma, antes de encontrar estabilidade no Almere City, na segunda divisão neerlandesa, onde tem vindo a despertar atenções graças ao seu perfume técnico, movimentos assertivos e confiança sob pressão.

HERÓI DISCRETO

Danley Jean Jacques (IMAGO)
Danley Jean Jacques (IMAGO)

Frequentemente eclipsado por avançados vistosos e estrelas que monopolizam as manchetes, Danley Jean Jacques continua a ser o motor indispensável da seleção do Haiti. Incansável no miolo, destrói ataques, dita o ritmo e garante equilíbrio com uma eficácia silenciosa que raramente recebe o destaque merecido. Nem sempre espetacular, mas absolutamente vital, joga no Philadelphia Union, clube ao qual se juntou em 2024, proveniente do Metz. «Mudar de país e descobrir uma nova cultura obriga-te a sair da zona de conforto», apontou ao sítio oficial do clube americano. «Tive de assumir mais responsabilidades e crescer como pessoa. Sou calmo, respeitador, sei ouvir e sou bastante reservado. Como colega de equipa, estou sempre lá para o grupo, para defender as cores do clube e representar os nossos adeptos.»

XI PROVÁVEL

(4x4x2) Placide - Arcus, Adé, Delacroix, Lacroix - Deedson, Bellegarde, Jean-Jacques, Providence - Isidor, Nazon

O QUE ESPERAR DOS ADEPTOS

Os adeptos que marcarem presença nos jogos do Haiti no Mundial devem esperar uma atmosfera carregada de pura emoção e orgulho. De Port-au-Prince a Miami, os haitianos preparam-se para inundar os estádios e as fan zones vestidos de azul e vermelho, transformando cada partida numa celebração da identidade nacional. Apesar da insegurança, das dificuldades económicas e dos cortes de energia no país natal, os apoiantes continuam determinados a apoiar os Grenadiers como um só povo. Espera-se que a diáspora haitiana confira enorme energia, tambores, cânticos e paixão às bancadas.

RELAÇÃO COM OS EUA/TRUMP

Há uma controvérsia que gerou indignação muito para lá do futebol. Devido às restrições de viagem associadas à administração de Donald Trump, muitos haitianos sem visto válido para os EUA poderão ver-se impedidos de apoiar os Grenadiers em solo americano. Embora o presidente da FIFA, Gianni Infantino, tenha prometido que «os adeptos de todo o mundo serão bem-vindos», o Departamento de Estado norte-americano confirmou que não serão concedidas exceções especiais para os apoiantes haitianos. O preço dos ingressos é outro problema. «Estamos felizes por o Haiti estar de volta ao Mundial após 52 anos», confessou à Al Jazeera Julio Midy, fundador da Radio Concorde, sediada em Boston, que serve a comunidade haitiana local. «Mas os bilhetes estão muito, muito caros e, infelizmente, não temos capacidade financeira para os pagar.»

Textos de Pierre Richard Midy. Estes textos foram escritos no âmbito da Guardian Experts' Network, a rede de troca de conteúdos para o Mundial 2026, liderada pelo jornal inglês The Guardian e que tem A BOLA como representante português, e foram traduzidos com recurso a Inteligência Artificial.

A iniciar sessão com Google...