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Mundial 2026: o guia de Cabo Verde
O PLANO
«Vamos divertir-nos. Conseguimos chegar ao Mundial, agora é altura de nos divertirmos juntos.» – Dailon Livramento
Os Tubarões Azuis de Cabo Verde nadam em águas completamente desconhecidas ao fazerem a estreia num Mundial. Mas ninguém quererá apostar contra eles. O pequeno arquipélago na costa Ocidental de África jogou apenas a primeira qualificação para um Mundial em 2003, mas se há equipa capaz de lidar com a pressão de uma ascensão meteórica ao topo do futebol mundial, essa equipa é Cabo Verde. Afinal de contas, o lema nacional do país – morabeza – traduz-se mais ou menos como 'no stress'. Vão precisar dessa mentalidade quando defrontarem a Espanha, o Uruguai e a Arábia Saudita no Grupo H.
A convocatória é um grupo eclético de jogadores que compõe a convocatória reunida por Pedro Leitão Brito, conhecido por Bubista. O grupo de 26 convocados tem representantes de 25 clubes de 14 países e tem mais jogadores nascidos em Roterdão (seis) do que na capital de Cabo Verde, a Praia. Mas para uma nação construída com base na imigração, navegar por identidades e línguas complexas não é um desafio, é algo a ser abraçado.
«A unidade entre pessoas com mentalidades e modos de vida diferentes só pode ser alcançada respeitando a singularidade de cada jogador», disse Bubista ao The Guardian após a qualificação ter sido selada perante uma multidão ruidosa na Praia.
A estrutura desta seleção do Mundial está junta há praticamente meia década. Embora sejam físicos e se sintam confortáveis a defender, os Tubarões Azuis abraçam o futebol de inspiração insular que é encarnado por avançados técnicos como Ryan Mendes, Willy Semedo e Jovane Cabral. «Só porque somos uma nação pequena não significa que abdiquemos da posse de bola», disse o defesa-central do Shamrock Rovers, Pico Lopes, nascido na Irlanda, ao podcast On The Whistle. «Temos sempre aquela qualidade e uma espécie de instinto matador que queremos nas zonas ofensivas.»
Talvez a única dúvida que paira sobre a equipa seja a condição física de Logan Costa. O defesa-central do Villarreal é, indiscutivelmente, o único jogador de elite numa equipa cheia de futebolistas nómadas, mas o defesa nascido em França ainda não jogou um único minuto de futebol esta temporada, depois de ter rompido o ligamento cruzado anterior no verão passado.
O SELECIONADOR
Bubista tem origens humildes. O pai dividia o tempo entre ser operário de elevadores e pastor, enquanto a mãe cuidava dos 10 filhos na ilha da Boa Vista. «A família focava-se toda na educação, deram estudos a todos os filhos, chegando a comprar uma casa no Mindelo [ilha de São Vicente] para colocar os rapazes a estudar», contou o primo de Bubista, Paulo Santos.
Mas o amor de Bubista pelo futebol acabou por vencer e ele construiu carreira em Portugal, Espanha e Angola, além de ter capitaneado os Tubarões Azuis durante quase uma década. Conhecido como "o capitão silencioso" enquanto jogador, Bubista é um homem de poucas palavras e alguém que não tem meias medidas. A vontade de ferro e a insistência para que os jogadores falem apenas crioulo durante os compromissos internacionais permitiram-lhe moldar uma equipa de sucesso ao longo de seis anos ao leme. «É a língua oficial da seleção nacional», afirmou Bubista. «Às vezes os rapazes tentam falar outras línguas entre si, mas eu não permito, para manter intacta a nossa identidade cabo-verdiana.»
A ESTRELA
Em 2012, o observador do Leicester, Steve Walsh, viajou até ao clube francês Le Havre, onde viria a descobrir o futuro vencedor da Premier League, da Liga dos Campeões e da CAN, Riyad Mahrez. Na altura, porém, Walsh ia a caminho para ver aquela que era a joia da famosa academia da época, Ryan Mendes.
Antes de o Leicester contratar Mahrez, Mendes juntou-se ao Lille para substituir Eden Hazard. Uma grave lesão no tornozelo travou a carreira de Mendes a nível de clubes, mas, pelos Tubarões Azuis, ele é talvez o maior jogador da história da nação. É o capitão, o melhor marcador de sempre, o jogador com mais internacionalizações e, neste Mundial, está prestes a tornar-se o primeiro centenário na história de Cabo Verde.
Aos 36 anos, o fulgor pode estar a desvanecer-se, mas continua no coração da equipa. «O Ryan está cá há tanto tempo e fá-lo sempre; sempre que é chamado, ele aparece e marca golos», diz o defesa de Cabo Verde, Pico Lopes.
JOGADOR A SEGUIR
Poucos jogadores tiveram um impacto tão imediato numa seleção nacional como Dailon Livramento. O avançado-centro juntou-se aos Tubarões Azuis há pouco mais de dois anos, mas já cimentou o estatuto de lenda. Marcou quatro golos na qualificação, incluindo um bis em Angola, o golo da vitória no jogo decisivo contra Camarões e o golo de abertura contra o Eswatini para lançar o país rumo ao Mundial. O jogador do Casa Pia era a peça que faltava para uma equipa que tem uma série de alas talentosos, mas carecia de uma presença central na frente de ataque. Nascido em Roterdão e filho da cantora cabo-verdiana Marizia, ele próprio é músico e o seu irmão Jerzy faz parte do bem-sucedido grupo de hip-hop neerlandês Broederliefde, que atuou no palco da festa que a equipa organizou com os adeptos na Praia quando a qualificação foi selada.
HERÓI DISCRETO
Kevin Pina fez da Rússia a sua casa, liderando o Krasnodar rumo ao primeiro título da liga russa na época passada. Dado que Pina assinou pelos Touros vindo diretamente da segunda divisão portuguesa, ele é uma incógnita fora de Cabo Verde. Ao lado de Deroy Duarte, Pina forma o motor do meio-campo, fazendo grande parte do trabalho sujo que permite aos talentos ofensivos dos Tubarões Azuis brilhar. O esguio médio não é, contudo, trapalhão com a bola nos pés e é provavelmente o melhor jogador de Cabo Verde a transportar o jogo para a frente. Pode não marcar muitos golos, mas aqueles com contribui tendem a ser autênticos golaços.
XI PROVÁVEL
(4-3-3) Vozinha - Steven Moreira, Logan Costa, Pico Lopes, Sidny Cabral - Kevin Pina, Deroy Duarte, Jameiro Monteiro - Ryan Mendes, Dailon Livramento, Jovane Cabral.
O QUE ESPERAR DOS ADEPTOS
Dada a necessidade de desembolsar uma caução de 15 mil dólares para entrar nos EUA (dispensada em maio para os portadores de livre-trânsito da FIFA, manifestamente demasiado tarde para a maioria das pessoas), seria de esperar que os adeptos dos Tubarões Azuis estivessem em número reduzido. Estaria errado. Há mais de 500 mil cabo-verdianos a viver nos EUA (aproximadamente o mesmo número que nas ilhas) e eles vão marcar presença em massa – e cheios de cor.
Esperam-se camisolas azuis, bandeiras azuis, chapéus temáticos de tubarão azul, grandes vibrações e, acima de tudo, muita música, a maior exportação de Cabo Verde. De Eugénio Tavares a Cesária Évora, passando pela mãe de Livramento, Marizia. A icónica música nacional de Cabo Verde, a morna, centra-se na experiência de deixar as ilhas e representá-las no estrangeiro, adequando-se perfeitamente a um Mundial. A canção Nha Terra, de Soraia Ramos, foi adotada como o hino do torneio.
RELAÇÃO COM OS EUA/TRUMP
«Muitos [adeptos] disseram que queriam ir, mas afirmaram: 'por causa de Trump não vamos'», revelou Andreia Levy, líder da 12Tubaron, a única claque de apoio a Cabo Verde. Sendo um país enraizado no Movimento dos Não-Alinhados, mas fortemente dependente das remessas provenientes principalmente de uma grande diáspora nos EUA, gerir as relações com os norte-americanos é uma tarefa delicada para os políticos e para o povo cabo-verdiano. Mas a inclusão da nação na bizarra lista de Trump sobre as "Taxas de Imigrantes Dependentes de Subsídios Estatais por País de Origem", a impopular guerra no Irão e os problemas dos adeptos para entrar nos EUA geraram uma indignação crescente entre os cabo-verdianos. «Há muita gente a boicotar os EUA. Se não fosse por Cabo Verde, eu própria nunca poria os pés nos EUA», afirma Levy. «Mas temos de apoiar os rapazes.»
Textos de Alasdair Howorth para The Guardian. Estes textos foram escritos no âmbito da Guardian Experts' Network, a rede de troca de conteúdos para o Mundial 2026, liderada pelo jornal inglês The Guardian e que tem A BOLA como representante português, e foram traduzidos com recurso a Inteligência Artificial.
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