Marítimo: «Queremos garantir a manutenção, Europa fica para mais tarde»
— Alcançado o objetivo da subida à Liga, o que pode estabelecer-se como meta para a época 2026/2027?
— O Marítimo tem de ser comedido nas suas ambições. Temos um clube que devemos, acima de tudo, estruturar a pensar no futuro e consolidar a permanência na Liga. Este primeiro ano é fundamental para cuidarmos da sustentabilidade do clube. Portanto, a nossa meta é fazer um campeonato que nos permita, no final, ter uma manutenção adquirida de forma tranquila.
— Na época anterior, quando o Swansea exerceu a cláusula sobre o treinador que o Marítimo tinha escolhido para o projeto de subida [Vítor Matos], temeu pelo sucesso da operação?
— Não temi no sentido em que nessa altura havia a convicção de que o grupo era muito forte, estava muito unido e sabíamos muito bem onde queríamos chegar. Mas havia que gerir as expectativas no exterior. E foi isso que sempre fizemos. Foi sempre jogo a jogo até ao fim. Um lema que, inclusivamente, foi o Vítor Matos que deixou no balneário. Não tememos a perda do objetivo, mas obviamente a situação obrigou-nos a procurar um perfil que permitisse dar continuidade ao trabalho desenvolvido pelo Vítor Matos, muito bem feito até essa data.
— O regresso à Europa está nos horizontes deste Marítimo, ainda que já tenha dito ser a manutenção o primeiro objetivo?
— Num clube que já teve nove participações europeias, obviamente é sempre um objetivo, mas que não podemos colocar neste momento. Temos de consolidar-nos na Liga e criar uma sustentabilidade do clube. Temos que viabilizar esta instituição para depois, mais tarde, podermos recorrentemente pensar nesse objetivo. Neste momento não é uma prioridade.
— Que clube encontrou em 2023? E em que medida o mandato de Rui Fontes, que o antecedeu, teve ou não a ver também com o legado de Carlos Pereira, o presidente mais longevo da história do Marítimo?
— Quando o presidente Rui Fontes assumiu a direção do Marítimo ganhou as eleições com base numa administração que permitiria a ele, Rui Fontes, ser presidente do clube e a João Luís ser presidente da SAD. Ora, com o decorrer do tempo verificou-se que essa bifurcação não resultava. As partes não se entenderam, levando a que o Marítimo, como instituição, saísse mal nesse processo. Quando chegámos em 2023, depois de um clima de muita instabilidade, encontramos um clube que precisava de se reorganizar. E não entendam isto como uma crítica a quem esteve antes, porque não é! São pessoas diferentes, modelos diferentes de governação. Entendemos que o que estava feito carecia de melhorias. Foi isso que procurámos fazer. Tentámos reorganizar o clube, dar-lhe um cuidado especial, fazer as pessoas perceberem que havia uma liderança forte e que, acima de tudo, havia que baixar o ruído que vinha do exterior. Havia que resolver problemas estruturais. Os terrenos onde está o Complexo de Santo António nem na posse do Marítimo estavam, estavam na posse de uma entidade terceira, e eu negociei para retomá-los. Depois houve que negociar com a Câmara a licença de utilização do estádio. E só depois de conseguirmos isto é que conseguimos começar a implementar um plano comercial que visa garantir um futuro sustentável ao Marítimo. Cumprimos uma promessa, a do regresso à Liga. Obviamente que isto não resolve todos os problemas do Marítimo. Financeiramente continuamos muito dependentes do Governo Regional, das receitas de direitos televisivos. Queremos criar aqui, através do modelo comercial, um fluxo de entradas de dinheiro que permita não estarmos tão dependentes dessas duas rubricas.
— Qual é, neste momento, o modelo de financiamento do Marítimo e qual é que preconiza que possa vir a ser?
— O Marítimo tem um misto entre o subsídio do governo, que nesta época são à volta de 2,5 milhões de euros, e os direitos televisivos, que são à volta de 3,6 milhões época. Depois temos todo um plano comercial. O Marítimo tem sabido atrair clientes para esses espaços comerciais no estádio e no Complexo de Santo António. Tem arrendado parte das suas instalações. Estamos a criar condições para que futuramente o Marítimo, com o seu plano comercial, consiga receitas à volta dos 3 milhões por ano. Se conseguirmos isto, conjuntamente com os direitos televisivos, o subsídio do governo e vendas de jogadores, estaremos bem. A venda de jogadores é uma componente que, apesar de extraordinária, cada vez mais passa a ser uma receita corrente. Se não vendermos, torna-se difícil enfrentar os campeonatos seguintes.
— Vê o Marítimo como clube formador ou como clube valorizador de jogadores, no futebol masculino?
— O Marítimo, e atrevo-me até a dizer a maioria das equipas portuguesas, tem de se colocar numa posição de formador e valorizador de jogadores que chegam ao nosso campeonato. Deixe me só fazer aqui um aparte para explicar que eu, enquanto presidente do Clube Sport Marítimo e do Conselho de Administração da SAD, tenho de olhar para o Universo-Marítimo, constituído por nove empresas que têm o futebol, o andebol, o clube, uma fundação, um colégio com 300 crianças. A minha preocupação é que, neste universo, nada falhe. Enquanto SAD do futebol, o Marítimo terá de olhar para a sua formação e potencial para vender. É isso que estamos a fazer. Em três anos tivemos diferentes modelos de governação da formação. Isto muitas vezes vai por tentativa e erro. Não deveria ser, mas acaba por ser. E nós temos tentado ver qual é o melhor modelo para a nossa formação, precisamente porque queremos, em seis/sete anos, colocar de forma recorrente jogadores que estejam em condições de estar na equipa ou em condições de serem vendidos para outros clubes, com selo de qualidade do Marítimo.
— Crê ter encontrado o ponto certo para esse modelo de desenvolvimento?
— Queria ter encontrado o ponto exato e ainda não conseguimos. Mas vamos chegar lá, com toda a certeza.
— Insistindo no tema da valorização: o exemplo mais visível do Marítimo será o Pepe, que chegou ao clube ainda menino, terminou o seu desenvolvimento na Madeira e depois teve a carreira que conhecemos. Vê o Marítimo como clube valorizador ou vai dar primazia à formação de base?
— Temos de fazer este misto de apostas entre o jovem oriundo da nossa formação e jovens que muitas vezes, noutros espaços ou noutros clubes, não têm o seu espaço de jogo e nós conseguimos recrutar. Foi assim com o Pepe. Posso dar o exemplo mais recente do Fábio Blanco, que veio para o Marítimo em janeiro e, quatro meses depois, conseguimos vender 60 por cento do passe ao Vitória [de Guimarães] por 1,2 milhões de euros. Posso dar o caso do Lucas Silva, que também estava no Marítimo e conseguimos vender para a Coreia por 1,2 milhões. Posso dar o caso, no futebol feminino, da Telma Encarnação, que fez a formação no Marítimo e vendemos para o Sporting por 170 mil euros. Neste ano em que regressamos à Liga queremos fazer aqui um misto de jogadores jovens e jogadores experientes, porque entendemos que se queremos continuar na Primeira Liga temos de ter jogadores com alguma tarimba, que nos permitam fazer um campeonato tranquilo. Mas obviamente nunca descuramos trazer jogadores jovens que possamos valorizar e mais tarde vender.
— Há mais ‘Telmas Encarnação’ na Madeira?
— Há muito boas jogadoras madeirenses, mais matéria-prima. Mas estamos a falar de um futebol feminino que, por enquanto, ainda é um investimento muito grande. Porque não vemos transações como a da Telma todos os dias. É um futebol que ainda precisa de maturar para poder ter este nível de transações com mais recorrência. E isso, obviamente, não é fácil. Temos aqui muitas jovens com valor, mas elas também têm de olhar pela sua vida. O futebol feminino não produz rendimentos para as jogadoras como produz o futebol masculino. O talento existe, mas às vezes fica difícil agarrar e potenciar.
— Há alguns meses o Marítimo esteve perto de vender 40% da sua SAD. Recuou a tempo, diria, mas já me vai explicar melhor. Aqueles investidores brasileiros, no caso, foram entretanto acusados de eventuais ligações ao Primeiro Comando da Capital, um grupo de alta criminalidade do Brasil, bem como uma série de outras práticas pelas quais ainda estão hoje a responder. Isso foi decisivo para o ‘não’ do Marítimo?
— A empresa que estava a negociar connosco [Revee] não foi acusada de nada. Tinha, de facto, ligação a outra empresa investigada [REAG], faziam parte de um grupo. Não sei se chegou a haver acusação. Posso dizer isto com a maior das garantias, porque até hoje continuamos a falar com essas pessoas, criámos uma amizade. As pessoas estiveram aqui a negociar connosco e sentimos sempre que foram muito sérias e honestas. Ficou sempre claro que havia duas premissas fundamentais: a primeira era que o negócio fosse aprovado em Assembleia Geral, a segunda que o Marítimo só partia para o contrato se houvesse uma garantia bancária que permitisse assegurar que o negócio era viável. Não conseguiram reunir esta segunda condição e por isso o Marítimo teve de saltar fora do negócio. Esta é uma defesa que o Marítimo tem e que há de continuar a ter perante todos os negócios. Os negócios fazem-se, há garantias, seguimos em frente. Não há garantias, não avançamos.
— Admite, se houver interesse de outro investidor, voltar a equacionar essa possibilidade? Já agora: admite que a maioria do capital da SAD possa passar para um investidor externo?
— Admito, se os sócios, em Assembleia Geral, assim o aprovarem. Se me perguntar se eu desejo vender a SAD, não. Obviamente gostava que continuasse a ser como é até agora. Agora, a questão é: se eu quero ser competitivo neste futebol moderno, onde outros clubes têm investidores que aportam muito mais dinheiro do que eu tenho disponível, tenho que ter um parceiro. E para ter um parceiro vou ter de ceder alguma coisa. E essa ‘alguma coisa’ serão sempre as ações da SAD. Por isso, se quero ser competitivo, tenho de procurar um parceiro de caminhada que me permita trazer os recursos financeiros que neste momento não tenho. Mas obviamente, repito, isto é sempre uma decisão que cabe ao presidente da direção levar a uma Assembleia Geral para os sócios aprovarem ou não.
— Aquele ‘sim’ dos sócios que obteve para o negócio do ano passado, não efetivado, não servirá para iniciar um novo negócio?
— Não, não. Se olharmos para o conceito legal e aquilo que foi aprovado, até poderia ser, mas não é isso que eu quero. Acho que os sócios devem ser informados e tudo deve ser colocado de forma clara e transparente aos sócios, tal como fizemos no passado. O negócio em si, o que está em cima da mesa, cabe aos sócios decidir se interessa ou não. Para mim, as coisas têm de ser muito transparentes. Se não forem transparentes não gosto, fica aqui uma nuvem. Antes dessa Assembleia Geral, antes da aprovação, houve mais de 200 perguntas que os sócios colocaram num site que nós desenvolvemos para o efeito. Foram todas elas respondidas, uma a uma, por mim e pelo Dr. Jorge de Freitas, que é meu vice-presidente.
— Há perspetivas de acontecer uma nova abordagem em breve?
— Atualmente não. Há muita curiosidade, mas não há qualquer proposta que possamos neste momento dizer que é séria. Vamos sentar-nos à mesa, vamos falar.
— Confirma que está ao lado do Nacional da Madeira na objeção ao modelo de comercialização e à chave de repartição dos direitos televisivos centralizados das ligas profissionais?
— Estou à vontade, porque na própria reunião de direção da Liga fui sempre claro ao dizer que o Marítimo não estava a favor do modelo apresentado, no que respeita à distribuição das verbas. E nesse sentido, houve muito, muito trabalho feito nos bastidores entre o Marítimo e o Nacional, no sentido de apresentar um modelo que servisse todo o futebol português. Acho que esse papel foi importante, porque só assim é que conseguimos melhorar o modelo que hoje está aprovado, embora não seja exatamente aquele que tanto o Marítimo como o Nacional defendem. A verdade é que conseguimos um melhor modelo do que o inicialmente apresentado. E isto só foi possível porque houve um trabalho conjunto do Marítimo e do Nacional.
— Neste momento o Marítimo está confortável com o modelo e com a chave?
— Tenho de estar. Tenho de aceitar uma decisão que foi democraticamente votada na Assembleia Geral da Liga. O Marítimo continua a defender que a repartição das verbas, tal como está, não é a melhor. Mas tenho de aceitar e seguir em frente, obviamente esperando que num segundo momento haja uma revisão que permita aproximar essa distribuição àquilo que eram os interesses do Marítimo e do Nacional.
— Será redundante em função das suas últimas respostas, mas queria perguntar-lhe de forma direta: como são as relações entre Marítimo e Nacional da Madeira?
— Completamente tranquilas. Há uma rivalidade que acaba por ser salutar. Permite ao Nacional melhorar o seu desempenho, permite ao Marítimo melhorar o seu desempenho. Se esta rivalidade não existisse, provavelmente estagnaríamos e o nosso desempenho seria mais fraco. É importante que ela exista, mas acima de tudo que aconteça durante 90 minutos dentro de campo. Fora de campo, as pessoas têm de defender os interesses dos seus clubes, óbvio, mas acima de tudo têm de defender um interesse comum, que prevalece no futebol português. Temos de criar condições para que Marítimo, Nacional e todos os outros clubes estejam de acordo na defesa do que é melhor para o futebol português. Obviamente que o Marítimo e o Nacional, sendo as duas maiores marcas desportivas da Madeira, têm de estar alinhados nalguns aspetos, para conseguir fazer passar coisas que achamos relevantes para o desenvolvimento do desporto aqui na Região.
— É benéfico para a Madeira ter dois clubes na Liga ou trata-se de dividir um pão que podia ser só de um, eventualmente?
— Acho que é benéfico. E, mais do que benéfico, é uma expressão da competência de dois clubes que são duas grandes instituições insulares, conjuntamente com uma terceira que é dos Açores, o Santa Clara. Acho que é uma expressão de competência e, acima de tudo, seriedade e rigor no desporto em Portugal.
— Que novidades temos em relação ao Marítimo 26/27 que possam ser dadas em primeira mão pelo presidente?
— Estamos a construir uma equipa de forma criteriosa e, achamos nós, assertiva. Temos ainda algumas posições em aberto, nomeadamente guarda-redes, ponta-de-lança e um médio ofensivo. Estamos no mercado à procura de soluções. Para além disto, temos aqui uma coisa que, aliás, foi lema do meu mandato: a frase ‘honra da tua história’. Era importante que a história do Marítimo fosse defendida de duas formas: preservando-a e dando-a a conhecer. E isso só é possível com a criação de um museu. Temos contratualizada com uma empresa a construção de um museu do Marítimo. Esta é a grande novidade e esperamos inaugurá-lo ainda no decorrer desta época. Fica no estádio, onde está a atual Marítimo Store. Será um museu de experiências interativas, criado pelo Marítimo com apoio da Câmara Municipal do Funchal, e visa acima de tudo expor um espólio documental e de troféus. Temos 116 anos de história em manuscritos, o que é algo muito, muito raro aos dias de hoje.
— Qual foi a decisão mais difícil que teve de tomar neste caminho da recuperação?
— Houve muitas. Se calhar a mais difícil foi interiorizar que a posição em que eu estou implica tomar decisões, muitas vezes implicando comprar algumas guerras que, pessoalmente, se calhar nem precisava de comprar. Mas a posição exige que se tome decisões e essa tomada de decisões por vezes não agrada a toda a gente.
— Vai ser candidato à presidência do Marítimo em 2027?
— No dia em que subimos de divisão virei-me para o Jorge, que é o meu vice-presidente, e disse: «Está no momento certo para nos irmos embora». Porque era esse o meu desejo, sair deixando o Marítimo na Primeira Liga e, acima de tudo, deixando um futuro ao Marítimo. Obviamente que depois conversámos e toda a gente que compõe os órgãos sociais do Marítimo achou que não era o momento, que ainda há muito para fazer, e por isso continuo aqui. Vamos ver, em 2027, como é que as coisas correm para ver se me candidato ou não. Neste momento, a minha vontade era mais sair do que propriamente continuar. Mas vamos ver, o futuro dirá.