Mário Gomes lidera a Seleção Nacional há nove anos     Fotografia FPB
Mário Gomes lidera a Seleção Nacional há nove anos Fotografia FPB

Mário Gomes: «A médio prazo será difícil continuar selecionador»

Treinador da seleção masculina diz que quem vencer as eleições para a federação de basquetebol na próxima semana necessita de estar livre para poder olhar o horizonte. Mas também deixa alguns recados para a formação que viu na Festa do Basquetebol juvenil

Há nove temporadas como selecionador nacional masculino, no último verão Mário Gomes conduziu Portugal à melhor classificação de sempre numa grande competição internacional, ao colocar o país no 15.º lugar do EuroBasket-2025. Conseguiu que, pela primeira vez na quarta presença no evento, os Linces passassem da fase de grupos e somassem duas vitórias (2 v-4 d), acabando eliminados nos oitavos de final pela campeã mundial Alemanha por 85-68 (17-12, 14-20, 21-19, 33-7), no caminho desta para o título europeu.

Mas, no passado fim de semana, Gomes, de 69 anos, foi um espectador atento na 18.ª Festa do Basquetebol Juvenil, em Albufeira, sobretudo nos jogos dos rapazes de Sub-14 e Sub-16, que podem vir a ser o futuro da Seleção. Encontrarão ainda lá Mário Gomes? Segundo o próprio, «dificilmente… mas nunca se sabe». Com as eleições para a federação no próximo fim de semana, o treinador nacional disse a A BOLA que é preciso dar espaço a quem se segue para olhar para o futuro, mas deixou recados quanto aos mais novos que observou.

— Como é que vê, hoje em dia, esta competição que envolve as seleções masculinas e femininas das associações dos 18 distritos e à qual tem vindo sempre nas últimas edições?
— A Festa em si e este evento são das melhores coisas, se não a melhor, que fazemos no basquete português desde há uns anos. A forma como é aproveitada depois há de variar de local para local. Agora, para além daquilo que já toda a gente disse, com certeza, e eu também em anos anteriores — e não vale a pena estar a repetir —, há duas coisas que se destacam mais do ponto de vista técnico.

A primeira: temos talento, sempre tivemos e continuamos a ter. Não só técnico, mas também físico. Temos tamanho e material para trabalhar. Muitas vezes existe o hábito de valorizarmos mais o que não temos do que aquilo que existe. Agora, também devo dizer que, com o talento de que contamos, podia-se fazer melhor basquete. Digamos que o nosso ponto fraco do ponto de vista técnico é o conhecimento do jogo que os miúdos têm no que diz respeito ao jogo coletivo, pelo menos daquilo que mostram em campo; isso pode, deve e tem que ser mais evoluído. Há talento para se fazer um basquete mais evoluído do ponto de vista de equipa.

Agora, e isso é que é importante destacar porque vimos aqui mais para ver jogadores do que para ver as equipas: talento, isso continuamos a ter, mas temos que valorizar o coletivo.

— E o segundo ponto?
— O segundo que gostava de destacar, com um olhar mais técnico, é a nítida evolução das associações ditas mais pequenas. É verdade que são mais pequenas em dimensão, o que não quer dizer que o sejam em termos de trabalho e da qualidade do mesmo. E julgo que este ano, pelo menos em algumas equipas de várias associações em que isso não era habitual, houve uma nítida evolução e um progresso em termos do basquetebol no que diz respeito ao jogo coletivo, se calhar mais nítido do que relativamente às associações que têm maior talento individual. Isto são mais dicas para o pessoal pensar.

Agora, a Festa é um evento que já não se poderá melhorar muito, a não ser que haja muito mais recursos para o fazer, porque a Festa já teve mais dias do que tem agora [chegou a incluir o All-Star da Liga], mas neste modelo não será fácil fazer muito melhor. Haverá sempre coisas a melhorar, mas será difícil. E já agora um terceiro ponto: existe gente a trabalhar com muita qualidade noutras associações.

— Sobretudo quanto aos basquetebolistas de 16 anos, porque estão a um passo de jogarem nos seniores, existiram no torneio jogadores que lhe despertaram uma curiosidade extra?
— Em termos de talento individual, há aqui jogadores com mais potencial nesta altura do que vários dos jogadores que atualmente estão na Seleção Nacional. E penso que com isto está tudo dito. Agora, se vão lá chegar, isso não sabemos; depende da maneira como se trabalha e de uma coisa muito importante que é a mentalidade. Aquilo que temos aqui [diz apontando para a testa]. E existe igualmente, já agora fica mais um recado, o facto de alguns dos jogadores mais talentosos individualmente ainda não terem interiorizado que isto é um jogo coletivo.

— Também me pareceu, na final.
— Mas não só…

— Estes jogadores estão quase todos a chegar aos 16 anos. Para chegarem à Seleção — e por vezes o selecionador costuma convocar para estágio basquetebolistas que não são para ser utilizados no imediato, mas para os ir integrando — daqui a dois anos podem eles ter a esperança de ainda o encontrar à frente da equipa nacional?
— Dificilmente… Dificilmente… Até porque normalmente não faço essas convocatórias com uma perspetiva de marketing. Pode haver quem faça, mas eu não. Portanto, algum destes miúdos, sei lá, daqui a um ano, se calhar algum deles, se crescer fundamentalmente do ponto de vista mental, pode dar um salto que justifique essa convocatória. Mas, para já, no imediato, daquilo que eu vejo aqui e tendo em conta aquilo que penso que vai ser o meu futuro, não só o imediato, mas a médio prazo, acho que essa parte vai ser difícil. Mas vou segui-los, claro. Irei acompanhá-los.

— Então não será o selecionador daqui a um ano ou dois?
— Nunca se sabe, nunca se sabe… Para já, até às eleições — e já o disse muitas vezes —, a minha perspetiva é esta: acho que numa altura destas - e é a única coisa que vou dizer publicamente -, quer quem eventualmente se proponha ou pense que possa ser selecionador nacional, quer, por outro lado, quem dirige e estará a começar o mandato, têm que ter uma perspetiva, um horizonte do mandato. Eu, sinceramente, nesta altura não me estou a ver [a continuar] nesse prazo. No imediato, num prazo mais curto, vamos ver o que é que acontece. O que se vai passar agora nas eleições, o que acontece na janela de junho [fase de qualificação para o Mundial de 2027] e depois logo se vê.