Miguel Minhava, ao centro, com a seleção a Associação de Basquetebol de Setúbal         Fotografia A BOLA
Miguel Minhava, ao centro, com a seleção a Associação de Basquetebol de Setúbal Fotografia A BOLA

Miguel Minhava: «Temos de tirar partido do Neemias. Como é possível não haver nada dele»

Antigo internacional português vive a sua primeira Festa do Basquetebol aos 42 anos como treinador. Está a adorar e já levou os sub16 da AB Setúbal às meias-finais, mas deixa um alerta como no país se tem desperdiçado o impacto do poste luso dos Celtics

Antigo internacional e múltiplo campeão nacional e vencedor de taças, Miguel Minhava disputou dois EuroBasket (2007 e 2011), mas, enquanto foi chamado às várias seleções de formação, nunca teve oportunidade de participar numa competição como a Festa do Basquetebol, que envolve 18 seleções distritais de sub-14 e sub-16 masculinas e femininas.

Agora, aos 42 anos, vive, pela primeira vez, tal experiência, só que como treinador dos sub-16 do distrito de Setúbal, que chegaram às meias-finais, onde irão defrontar a favorita Lisboa este sábado.

- Como é que tem sentido um evento como a Festa dos Basquetebol e qual é a importância dele para si?
- Primeiro, acho que era importante passar por isto. Já cá tinha vindo ver, mas por um dia, assistir a alguns jogos e ir embora. Era importante também viver por dentro, ter essa experiência como treinador. E como este ano não estava em nenhum clube, havia margem para que acontecesse. É bom termos essa perspetiva num evento que considero relevante.

Mas, como já o digo há alguns anos, não pode ser um evento isolado. Tem de ter todo um contexto e esse, eventualmente, ainda se pode melhorar um bocadinho. Ou seja, que isto que é bem feito e que traz muita gente, possa ter ainda maior impacto, nomeadamente na evolução dos miúdos, que é o que queremos.

Está a ser muito positivo, é uma iniciativa que ninguém discute, proveitosa, trata-se de uma festa do basquete, é importante juntar as pessoas e, eventualmente, como se fez noutros anos, até realizar-se um All-Star, para dar ainda mais impacto.

Nesse aspeto, está a ser muito positivo, é uma iniciativa que ninguém discute, proveitosa, trata-se de uma festa do basquete, é importante juntar as pessoas e, eventualmente, como se fez noutros anos, até realizar-se um All-Star, para dar ainda mais impacto. Os miúdos gostam de ver os seniores e a Seleção Nacional.

Vemos que existe toda uma logística que mexe com muita gente, tem uma dinâmica que acredito que agora seja mais fácil de implementar, mas que terá sido muito difícil de desenhar e conceber.

- E já houve alguma coisa o tenha surpreendido, agora que viveu a Festa por dentro?
- Sim. Estando por dentro apercebemo-nos que a logística é, de facto, uma coisa bastante grande. Há muitos miúdos, as comidas, as dormidas, os transportes… Albufeira tem condições excepcionais tanto de alojamento, como de infraestruturas para depois receber os jogos. Vemos que existe toda uma logística que mexe com muita gente, tem uma dinâmica que acredito que agora seja mais fácil de implementar, mas que terá sido muito difícil de desenhar e conceber.

Do resto sabia e conheço muitos treinadores que já cá vieram com os miúdos. Por isso, surpresa, surpresa não, mas a dinâmica globalmente é bastante positiva. Não se deve também perder o sentido de tentar sempre, em algum momento, melhorar alguma coisa. Mas isso é como em tudo, não é só nas festa do basquetebol.

Fotografia A BOLA

- Na época passada foi treinador dos sub-23 do Sporting e adjunto da equipa principal. Qual é que o apaixona mais?
- Depois de ter chegado ao escalão sénior como treinador, muitas pessoas pensaram que me faria confusão treinar formação. Não faz. Aliás, se pensarmos bem, e não posso dizer que sou o melhor treinador do mundo, se tivermos melhores técnicos na formação, vamos ter melhores jogadores. Obviamente que isto agora é um trabalho diferente, trata-se de uma seleção distrital, trabalhamos uma vez por semana, mas não me faz confusão nenhuma.

Com os miúdos o trabalho é diferente. Não sei se é mais apaixonante, também gosto muito de treinar os seniores, mas, com os mais novos, mais do que ensinares, é conseguires fazer com que eles se apaixonem pelo jogo, e gostem efetivamente do basquete

Até acho que é positivo haver a abertura de espírito. Obviamente que em alguns momentos não é fácil, porque temos treinadores que estão em equipas profissionais ou semiprofissionais, e não terão tanto tempo e disponibilidade. Mas terem algum contacto com os miúdos, e mesmo com os treinadores mais jovens, e darem-lhes alguns ensinamentos, é positivo.

Com os miúdos o trabalho é diferente. Não sei se é mais apaixonante, também gosto muito de treinar os seniores, mas, com os mais novos, mais do que ensinares, é conseguires fazer com que eles se apaixonem pelo jogo, e gostem efetivamente do basquete, porque não podemos perdê-los. Mas não estou a dizer que gosto mais, é diferente.

Para mim, provavelmente o basquete ideal está no meio termo entre a forma como se joga agora: mais rápida, com mais espetáculo, mais pontos, que é o que queremos. No entanto, em outros momentos o jogo tornou-se um bocadinho simplista demais. Não podemos perder tanto a vertente tática. Eu navego um pouco nisso,

- E o basquetebol de hoje é bastante distinto daquele que jogava nestas idades?
- Um bocadinho, mas é a evolução natural do jogo. Nem sou saudosista, Se olharmos para a sociedade, muitas das coisas que evoluem trazem-te coisas boas e outras que, se calhar, não são tão positivas. Para mim, provavelmente o basquete ideal está no meio termo entre a forma como se joga agora: mais rápida, com mais espetáculo, mais pontos, que é o que queremos. No entanto, em outros momentos o jogo tornou-se um bocadinho simplista demais. Não podemos perder tanto a vertente tática. Eu navego um pouco nisso, ou seja, estar naquilo que é o basquetebol atual, mas ter também coisas que aqui e ali se perderam: a esperteza tática, o veres que tens uma vantagem e vais atacar… Isso perdeu-se um pouco e é importante ter este balanço.

Mas, de forma global, o jogo evoluiu. Os miúdos jogam de maneira diferente, têm personalidade completamente diferente, são educados de forma diferente. É o que é. Não podemos combater contra o mundo, é perceber que as coisas são assim, e temos a capacidade de nos adaptar. Mas nunca abdicando dos valores e da disciplina, e de fazer com que eles sejam melhores homens e mulheres, Mas é a evolução natural da sociedade.

Só que, enquanto país, faz-me confusão chegar aqui e não ver uma qualquer publicidade com o Neemias.

- Está com uma série de rapazes novos, é comentador dos jogos da NBA na televisão; sente que o Neemias Queta tem muito impacto nesta geração?
-Tem, mas acredito que podia ter mais. E aqui até nem aponto tanto o basquetebol. Todos apoiam o Neemias e toda a gente sabe o que ele está a fazer. Algo que, se calhar, nem sonhávamos ser possível há meia dúzia de anos. Só que, enquanto país, faz-me confusão chegar aqui e não ver uma qualquer publicidade com o Neemias.

Acredito que só vamos ter noção do que o Neemias está a realizar, provavelmente, daqui a uns anitos. E esperemos que sim.

Uma empresa qualquer, de iogurtes para os miúdos crescerem, de cereais…, sei lá o quê? O impacto de alguém como ele não pode ficar por vê-lo na televisão a jogar nos Celtics. Tem que haver algo mais. E pergunta-me: como é que se faz isso? Não sei. Não sei se é quem gere a imagem dele poder dar aqui mais qualquer coisa, puxar mais um bocadinho…. Acredito que só vamos ter noção do que o Neemias está a realizar, provavelmente, daqui a uns anitos. E esperemos que sim. Está na iminência de chegar eventualmente à final da NBA como poste titular. Já foi surreal ter sido campeão mesmo não jogando muito, e agora pode repeti-lo a jogar bastante e a ser um jogador quase decisivo. Será incrível.

Quem me dera a mim ter crescido a jogar e a ver alguém dos nossos na NBA.

- Mas sente que os miúdos vivem muito o Neemias no dia a dia?
- Diria que sim. Quer dizer, enquanto treinador não estou muito nas conversas deles, mas é quase impossível. Gostam muito da NBA e agora têm a sorte de ter aquilo que não tivemos: uma referência. Quem me dera a mim ter crescido a jogar e a ver alguém dos nossos na NBA. Quero é que essa presença seja cada vez mais evidente, que não fique pelo facto de ele ser dos Celtics e que o basquete capitalize ainda mais o Neemias. Ele que me desculpe, mas temos que tirar partido do Neemias.