Festa do Basquetebol: «Fomos ousados, loucos, mas criámos algo grandioso. Só ainda não paguei porque não tenho MB Way»
A cumprir o último mês dos seus três mandatos como presidente da Federação Portuguesa de Basquetebol — haverá eleições a 25 de abril —, Manuel Fernandes está igualmente a viver, na 18.ª Festa do Basquetebol Juvenil, a sua última no cargo. Evento que ajudou a criar, a fazer crescer e que se transformou na maior competição interdistrital do país nos escalões de formação.
«Comecei em novembro de 2014, depois houve duas edições que não se realizaram por causa da pandemia… por isso… esta é a minha 10.ª edição como presidente da FPB», diz, mas sem incluir as épocas em que estava como diretor-técnico nacional e foi pioneiro no evento.
Sendo esta a última, e para alguém que foi jogador, treinador e diretor-técnico nacional, o que significa a evolução deste torneio? «Primeiro, que o basquete tem ousadia. Só com isso e ambição se transformam os inter-seleções, então de iniciados e cadetes, agora sub-14 e sub-16, em grupos de quatro para juntar estas 72 seleções [18 distritos] no mesmo momento. Toda a gente dizia: ‘Isso é um suicídio. Onde é que vamos instalar tanta gente, ter campos para fazer tantos jogos [164], árbitros [123], alimentação, alojamentos, fisioterapia e uma organização gigantesca para que tudo funcione?’. Mas, hoje, temos algo grandioso e gigantesco. Só em almoços e jantares são 13 mil», revela. «E estamos sempre a transmitir online oito jogos em simultâneo. A Festa tem vindo a enriquecer-se e deixou de ser exclusivamente uma competição», declara, orgulhoso.
Vai deixar de ser uma dor de cabeça para si? «Sim, mas uma boa dor de cabeça. Fomos incluindo atividades, nomeadamente, quase desde o início, o papel social do basquete. Como é que os jovens poderiam vir adquirir boas práticas. Criámos o basquete solidário, em que todos os miúdos tinham de trazer um euro para ser doado, o que dava 64 euros por associação, incluindo treinadores, dirigentes e árbitros».
«Agora são 2 euros, e eu também pago. Bem, ainda não paguei porque me pediram por MB Way... Mas a ideia era mostrar aos pais que o basquetebol procura valores, que nos devemos preocupar com a sociedade e com os outros. Ser solidário deve ser algo que nos orgulha e os miúdos devem ter esse regozijo. Há um impacto para além do desporto, mas o desenvolvimento dos jogadores é fantástico. É a realização de um sonho».
E tem o sonho ver os seus netos a jogar na Festa? «No ano passado já veio um, pela seleção de Lisboa – é onde o meu filho vive e não dá para trazer o miúdo a treinar no Barreirense, pelas influências do pai e do avô –, e o que tem 9 anos, que está a assistir, já disse que quando chegar aos 12 também quer cá estar. Assim como aquele que pode vir para o ano», refere com um sorriso.
«Ninguém faz nada assim, tão criativo e inovador. O futebol tem uma experiência do género, mas não junta masculino e feminino nesta dimensão de cinco dias de competição».
«A Festa foi também ganhando esta ideia: os dirigentes associativos viram que o clube deles é a associação, que vai competir contra todos os outros, e isso obriga a treinar. Começaram a fazer mais cedo a prospeção de quem pode vir na época seguinte. Passou a existir uma maior deteção de talentos e os melhores vão sendo acompanhados, há uma lista toda definida, onde, claro, por vezes surge um miúdo novo. Mas existe um objetivo claro porque se ganhou visibilidade e ambição para chegar mais longe e melhor», salienta, entusiasmado.
E depois destes anos, qual era o próximo passo ou objetivo que tinha e ainda não foi concretizado? «Ir até aos sub-16 não é suficiente. Temos de mobilizar os jogadores e o país basquetebolístico que os sub-17 não podem ficar apenas no clube e irem às seleções nacionais. Mas aí talvez fazer mais regionalizado. Em vez de termos 18 seleções distritais, dividir o país em dois, de maneira que dê equipas equilibradas. Além disso, mas ao nível dos clubes, fazer como os espanhóis: nas fases finais das Taças de Portugal e Hugo dos Santos, as equipas desses clubes ou outras convidadas participarem em torneios simultâneos. São ideias para o futuro, mas eles farão, provavelmente, melhores coisas do que fizemos. E já partem de uma boa base.»
Mesmo não sendo presidente para o ano, será difícil não estar cá? «Há uma coisa de que sou indefetível: do basquete. Será incondicional. Estarei aqui, não só pelos meus netos, mas pelo basquetebol português. E acho que contribuí muito. Perdi muitas ideias que tinha, mas esta consegui. O meu presidente na altura, Mário Saldanha, dizia-me: ‘A responsabilidade é tua. Tens a cabeça, o pescoço, o corpo todo num projeto louco’. Felizmente, na altura tivemos o apoio da Câmara de Portimão e depois, quando essa teve problemas, surgiu a de Albufeira, que todos os anos nos dá mais apoio. Há que continuar a dar passos para o futuro. Mas o futuro é hoje, o presente. E a Festa simboliza isso. É o maior impacto que existe no basquetebol português, pela envolvência, abrangência e consequências que traz para a modalidade.»
Artigos Relacionados: