Aos 11 anos, a atleta nascida em Riga já media 1,90m.

Foto X Basketinside
Aos 11 anos, a atleta nascida em Riga já media 1,90m. Foto X Basketinside

Morreu a gigante Uliana Semenova

Antiga basquetebolista foi um fenómeno graças aos seus 2,13 metros que lhe valeram um palmarés impressionante e apenas uma derrota em 18 anos, mas também muitos problemas que a deixaram amputada e na miséria

A antiga jogadora letã Uliana Semenova, que revolucionou o basquetebol feminino com os seus 2,13 metros de altura durante as décadas de 1970 e 80, na antiga União Soviética, morreu hoje aos 73 anos.

Na história do basquetebol, nenhuma jogadora foi tão dominante como Uliana Semenova. Desde o final da década de 60 até meados dos anos 80, a modalidade pertenceu a esta gigante poste de 2,13 metros e 135 quilos, nascida em Riga, em 1952.

Com 11 anos, a jogadora que nasceu em Riga, já media 1,90m. Foto BasketballBuzz

Semenova foi 11 vezes campeã europeia e conquistou 15 títulos da liga soviética com o Daugawa Riga, além de duas medalhas de ouro olímpicas, nos Jogos de Montreal, em 1976, e de Moscovo, em 1980, e uma Taça Ronchetti.

A sua estatura imponente foi decisiva para o sucesso dos clubes e seleções que representou. Se ela jogava, a sua equipa ganhava. Ponto final. No entanto, por trás da figura temível em campo, existia uma mulher que conquistou o afeto de colegas e adversárias.

Há dois anos, Semenova foi amputada de uma perna devido a uma doença degenerativa e, quer a saúde, quer a situação financeira, eram bastante precárias. Antigas jogadoras do Club Clermont Université iniciaram um movimento de solidariedade para ajudar aquela que foi sua rival, tanto em competições europeias como na Liga Francesa, onde a poste jogou pelo Valenciennes Orchies na fase final da sua carreira.

E esta não foi a primeira vez que o mundo do basquetebol se mobilizou para apoiar a lenda. Anos antes, tinham angariados fundos para uma cirurgia ao cóccix, devido aos problemas de mobilidade de sempre. Desde cedo caminhava com extrema dificuldade, mas mesmo nas suas últimas épocas em campo, já com limitações, a sua altura continuava a ser um fator determinante.

Semenova só descobriu o basquetebol aos 11 anos, mas aos 12 já media 1,90 metros, enquanto o mais alto dos seus sete irmãos não chegava a 1,80. Foi-lhe diagnosticada acromegalia, uma condição hormonal que ocorre quando a glândula pituitária produz excesso de hormona do crescimento. Vários gigantes do basquetebol, como Gheorghe Mureșan, o jogador mais alto da história da NBA, a par de Manute Bol (2,31 m), sofreram da mesma doença.

Após ingressar numa escola de basquetebol, começou a dominar os jogos apenas com a sua altura e aos 14 anos, estreou-se na I Divisão pelo Daugawa Riga. Aos 16 tornou-se internacional pela União Soviética.

Ao nível de clubes, conquistou 15 Ligas e 11 Euroligas, oito consecutivas. Com a seleção, venceu duas medalhas de ouro olímpicas (Montreal 1976 e Moscovo 1980), três Campeonatos do Mundo e dez Campeonatos da Europa. Em 18 anos a jogar pela URSS, perdeu apenas um jogo.

A maior parte da sua carreira decorreu na antiga URSS, sem possibilidade de jogar no estrangeiro até 1987. Com 35 anos, chegou ao Tintoretto Getafe, em Espanha, revolucionando o basquetebol feminino do país. Na sua estreia, marcou 22 pontos e conquistou 31 ressaltos. Apesar do seu domínio avassalador, nunca perdeu a humildade, chegando a pedir desculpa às colegas quando falhava um cesto.

Devido às leis soviéticas, 95% do seu salário em Espanha era entregue ao Estado. Apesar de ser uma atleta de elite e a jogadora mais influente do seu tempo, mal conseguia chegar ao fim do mês. O presidente do clube dava-lhe algum dinheiro extra, e era comum as suas colegas levarem-na a restaurantes para que pudesse alimentar-se melhor.

Semenova foi introduzida no Hall of Fame da Federação Internacional de Basquetebol (FIBA) em 2007, pelas suas conquistas desportivas e pelo que representou para o basquetebol feminino.