Luis Magalhães: «Tentaram inclinar muito o campo durante o jogo e sentimo-nos prejudicados»

Treinador do Sporting conta como foi construir uma equipa tendo um orçamento mais curto que alguns dos rivais e na qual apenas pode ter cinco estrangeiros, mas onde todos dão tudo e por isso, depois da Taça de Portugal, ganhou agora a Taça Hugo dos Santos

— Na final contra Benfica, o Sporting conquistou 51 ressaltos, 17 deles ofensivos [face a 41 e 12], será esse um dos segredos do sucesso deste Sporting? Isto apesar da situação de que falámos do excesso de turnovers, face à diferença que existiu igualmente nos lançamentos de três pontos [6/28, 21% do Benfica; 12/32, 37% do Sporting] e nos lançamentos livres [17/39, 56%; 29/41, 70%] onde o Benfica esteve muito abaixo do que seria normal, E até porque só obteve 12 pontos na área, mas em 17 ocasiões conseguiu voltar a ter posse de bola?
— Se reparar, não temos propriamente um jogador dos que fazem a posição 5. O Rui Palhares é um bocado um 5, vamos lá, um 4,5/5, mas entre os restantes também não há propriamente um 5. Um calmeirão que possa garantir 10/12 ressaltos por jogo. O que lhes disse é que tínhamos de ter cuidado com a bola, tentar não fazer muitas perdas, mas que depois existiam duas formas de poder ter mais posse do que o adversário: uma era com roubos de bola, defendendo bem e tentar recuperar bolas.

Tudo o que pudermos conseguir a mais é bom sinal para nós. E as características da equipa têm-se revelado exactamente dessa forma. São jogadores de equipa, que tentam defender o melhor possível.

A outra, ganhar ressaltos ofensivos. Quando não temos tanto talento, quando não contamos com um ou dois jogadores que consigam resolver os problemas da equipa, procuramos resolver em conjunto. Tudo o que pudermos conseguir a mais é bom sinal para nós. E as características da equipa têm-se revelado exactamente dessa forma. São jogadores de equipa, que tentam defender o melhor possível. Neste momento não estou com a estatística da temporada na Liga, mas penso que durante muito tempo, acho até que acabámos a fase regular com esse resultado, fomos os melhores em ressaltos ofensivos.

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No fim tive a oportunidade de contar que, tal como no primeira título que ganhámos em Ovar [1987/88] e que foi o primeiro campeonato nacional ganho pela Ovarense, que após ó último jogo tinha dito que ‘Deus tinha sido vareiro’.

No fundo voltámos a fazer aquilo que normalmente fazemos, mas é preciso ter em consideração que para ganhar ao Benfica temos que esperar que este tenha um dia menos bom e que sejamos minimamente acertados e não façamos muitos erros.
É evidente que ficámos todos admirados que com 20 perdas de bola tivéssemos conseguido ganhar a uma formação como a do Benfica, mas também temos consciência de que conseguimos recuperar muitas dessas bolas através de roubos de bola ou de ressaltos. Conseguimos uma série de ressaltos a mais e isso permitiu que o jogo fosse equilibrado. Depois, com as melhores percentagens que tivemos, nomeadamente dos três pontos e lances livres, onde durante a época regular o Benfica mostrou-se superior, conseguimos acertar com a estratégia que delineámos. Os jogadores foram impecáveis. Acabámos por contar claramente com alguma sorte, mas houve igualmente mérito nosso.
No fim tive a oportunidade de contar que, tal como no primeira título que ganhámos em Ovar [1987/88] e que foi o primeiro campeonato nacional ganho pela Ovarense, que após ó último jogo tinha dito que ‘Deus tinha sido vareiro’.

Diogo Ventura e Luís Magalhães Fotografia FPB

E as reações dos jogadores depois do jogo revelaram isso mesmo. Eles é que andam lá dentro e sentem quando estão a ser prejudicados e quando há justiça de quem deve controlar o jogo, não ter influência no resultado e ser justo nas decisões que toma.

— E porquê?
— Porque o campo foi muito inclinado. Tentaram inclinar muito o campo durante o jogo. E sentimo-nos prejudicados. Normalmente parece desculpa quando se perde, mas quando se ganha e se tem a coragem de dizer claramente que nos sentimos prejudicados, é porque nos sentimos mesmo. E as reações dos jogadores depois do jogo revelaram isso mesmo. Eles é que andam lá dentro e sentem quando estão a ser prejudicados e quando há justiça de quem deve controlar o jogo, não ter influência no resultado e ser justo nas decisões que toma.

Provavelmente por aquilo que temos feito, se calhar há pessoas que nos consideram entre os principais candidatos, mas a verdade é que, em termos de plantéis, não podemos ser tidos como tal.

— No próximo fim de semana vai começar o play-off da Liga Betcic. A equipa está ao nível que desejava para esta fase? E será sempre pouco para o Sporting não chegar à final ou não ser campeão?
— Temos consciência das limitações que possuímos e que existem em relação a outras equipas que também se dizem candidatas ao título. Provavelmente por aquilo que temos feito, se calhar há pessoas que nos consideram entre os principais candidatos, mas a verdade é que, em termos de plantéis, não podemos ser tidos como tal. Os outros têm mais soluções e melhores plantéis do que nós. Agora, a verdade é que a equipa surpreendeu muito.

Tivemos um trabalho louco, desgastante, de procurar os jogadores de acordo com o orçamento que tínhamos. Perdermos, ou ganhámos, muitas horas a ver vídeos, a discutir, a falar com treinadores, com agentes, com basquetebolistas colegas dos jogadores que nos aconselhavam… para termos esta equipa.

Tivemos um trabalho louco, desgastante, de procurar os jogadores de acordo com o orçamento que tínhamos. Perdermos, ou ganhámos, muitas horas a ver vídeos, a discutir, a falar com treinadores, com agentes, com basquetebolistas colegas dos jogadores que nos aconselhavam… para termos esta equipa. Normalmente, após muito trabalho é que se consegue ter alguma sorte e também a capacidade de contar com jogadores, treinadores e a qualidade das condições que o clube proporciona para a equipa trabalhar e para os jogadores serem melhores. Tudo junto fez com que o grupo, de alguma forma surpreendente, chegasse a um nível mais elevado, com alguns problemas aqui acolá. Isto porque temos duas opções: ou contamos com jogadores inexperientes, que acabam por vir ganhar experiência e por isso, nos primeiros anos quando vêm de fora, são um bocado mais baratos; ou se pretendemos basquetebolistas com uma certa qualidade e já alguma experiência em jogar fora das universidades, não temos dinheiro para eles. O nosso orçamento não permite, não os conseguimos contratar.

É preciso recordar que perdemos um jogador que se quis ir embora [Malik Bowman]. Foi enganado pelo agente. É preciso ter cuidado com os agentes e isso que sirva de exemplo para todos os jogadores. É preciso ver quem são os agentes que dizem que gerem as carreiras deles

— Mas a equipa está ao nível que deseja para começar o play-off?
— Epá, não. É preciso recordar que perdemos um jogador que se quis ir embora [Malik Bowman]. Foi enganado pelo agente. É preciso ter cuidado com os agentes e isso que sirva de exemplo para todos os jogadores. É preciso ver quem são os agentes que dizem que gerem as carreiras deles. Influenciou a cabeça do jogador para ir embora, que ia fazer isto, aquilo e aqueloutro e ele foi-se embora. Rescindiu o contrato unilateralmente. Acaba por não poder atuar em Portugal ou na Europa sem pagar uma verba ao Sporting, e daquilo que sabemos é que não está a jogar, nem se encontra ligado a qualquer equipa. Está nos Estados Unidos e acabou por rescindir com o agente porque se sentiu enganado. Encontrava-se num clube onde tinha todas as condições para trabalhar e o agente mandou-lhe uma passagem para se ir embora. Foi e enterrou-se completamente. Perdemos esse elemento, que não conseguimos repor. Não foi possível. Na altura ainda tentámos, mas não tivemos condições financeiras para contratar os basquetebolistas que pretendíamos.

Por outro lado, o Diogo Ventura vem de uma lesão, de quase cinco semanas de paragem, e agora foi o Rui Palhares num plantel já curto, que também se lesionou nas meias-finais desta Taça Hugo dos Santos e está a fazer exames. Mas estamos satisfeitos com o que fizemos.

Já estou aqui há tantos anos que me considero quase um antepassado. E, naturalmente, estou um bocado cansado. A falta de voz também já é a prova que já não se tem a bateria toda a toda a hora. As baterias às vezes descarregam um bocado

— Mas com pouca voz…
— Como sabe, já sou quase um treinador — como disse no outro dia na brincadeira -, antepassado. Já estou aqui há tantos anos que me considero quase um antepassado. E, naturalmente, estou um bocado cansado. A falta de voz também já é a prova que já não se tem a bateria toda a toda a hora. As baterias às vezes descarregam um bocado, mas a verdade é que, principalmente a dedicação dos jogadores, e a coragem e o incentivo do Sérgio Ramos e do Ivan Kostourkov, com o excelente trabalho que têm feito, acabam por fazer com que se vá buscar motivação. Se calhar pensava que já não existisse isso para continuarmos a dar o nosso melhor até ao fim. E depois o nosso lema foi sempre o mesmo: vamos tentar ir o mais longe possível.

Fotografia FPB

...se há uma modalidade como o andebol, que tem excelentes jogadores e tem dominado o panorama, não só no plano interno como externo, não se pode baixar o apoio. O seu orçamento deve ser reforçado para manter o nível. Se se cai no erro de diminui-lo, deixamos de ter essa hegemonia nessa modalidade.

Agora no play-off procurar passar cada uma das fases e tentar estar na final. Só quem lá chega é que tem possibilidades de poder ganhar. Li hoje [ontem] um artigo que dizia que o outsider Sporting conseguiu mais um título. Identifico-me muito bem com essa frase. Atendendo às condições que temos, não nos podemos queixar porque disseram-nos que era aquilo com que iríamos poder contar. O orçamento era aquele. E concordo um bocado com isso porque, por exemplo, se há uma modalidade como o andebol, que tem excelentes jogadores e tem dominado o panorama, não só no plano interno como externo, não se pode baixar o apoio. O seu orçamento deve ser reforçado para manter o nível. Se se cai no erro de diminui-lo, deixamos de ter essa hegemonia nessa modalidade. Estou de acordo e fico muito satisfeito por o andebol chegar ao tricampeonato e estar a disputar a passagem à final four da principal liga do Mundo [Champions], que é um feito sempre de realçar. E as outras modalidades estão igualmente a ser reestruturadas e o basquete também.

Quando fomos levar a Taça [de Portugal] ao museu, [Varandas] contou-nos que ficou surpreendido por o Sporting ter ganho porque ele, como presidente, sabe que condições nos deram para podermos formar uma equipa e as condições que os outros têm.

Posso até confidenciar, penso que o presidente [Frederico Varandas] não levará a mal, que quando fomos levar a Taça [de Portugal] ao museu, contou-nos que ficou surpreendido por o Sporting ter ganho porque ele, como presidente, sabe que condições nos deram para podermos formar uma equipa e as condições que os outros têm. Sabemos qual é a nossa realidade e dentro desta tudo vamos fazer para continuar nesta senda. Ganhámos as duas provas que foram abertas a todas as equipas [excluiu a Supertaça]. Com muitas dificuldades, mas conseguimos vencer e estamos muito satisfeitos por isso. Mas é claro que a temporada não acabou, vamos tentar ir o mais longe que conseguirmos.

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