Júlio Vieira de Castro: «Contratações dúbias, despedimentos ainda mais»
Júlio Vieira de Castro volta a concorrer à presidência do Vitória de Guimarães após derrota em 2018, diante de Júlio Mendes. As necessidades agora são outras, mas o engenheiro mecânico apresenta-se sem «ideias loucas».
— Antes de anunciar a candidatura, disse que quem avançasse sem saber pormenores sobre o estado financeiro do clube ou era louco ou muito rico. Avançou. Acredita, por isso, que é possível recuperar o Vitória?
— Achamos que é possível recuperar o clube quer desportiva quer financeiramente. Entendemos - e, no fundo, é este o nosso projeto - que é urgente alterar o sistema de decisão. Entendemos que é urgente mudar os mecanismos de controlo. Entendemos que, de uma vez por todas, é necessário prestar contas aos sócios. Ao contrário daquilo que vem sendo apregoado por outras candidaturas, não estamos aqui a fazer de conta que não foi nada connosco, quando houve quem lá esteve [Rui Rodrigues, da Lista D] durante quatro anos. Uma grande parte das pessoas que está comigo há mais de 20 anos que defende que o Vitória tem de alterar radicalmente a sua gestão. O Vitória tem necessidade de um modelo de governação diferente. Tem necessidade de uma articulação muito mais eficiente entre a parte desportiva e a parte financeira - e tudo isto tem de resultar de processos formais, processos absolutamente transparentes, de limites orçamentais e de um controlo independente, por exemplo, pelo Conselho Fiscal. Temos que dar ouvidos aos órgãos sociais que também fazem parte do clube, e não tratá-los como um apêndice que informamos quando queremos.
— Acha que isso falhou na gestão de António Miguel Cardoso?
— Acho e temos tido a prova disso na campanha, em que temos o ex-presidente da Mesa da Assembleia Geral [o candidato pela Lista A Belmiro Pinto dos Santos] que questiona o acordo entre o Vitória e a V Sports. Chegámos ao ponto de ter um Conselho Fiscal, que pertencia à mesma equipa do [candidato da Lista D] Rui Rodrigues, na Direção demissionária, e está agora com a lista do Belmiro Pinto dos Santos.
— E o que mais considera que falhou na gestão do presidente demissionário?
— Falhou a parte desportiva. É verdade que o Vitória conseguiu a Taça da Liga, mas, por outro lado, tivemos uma dezena de treinadores em quatro anos. Aliás, a contratação, por vezes, já foi feita de forma dúbia, mas certos despedimentos ainda foram mais dúbios e isto cria uma certa confusão aos sócios do Vitória. Isto não é o ponto de equilíbrio para aquilo que queremos na parte desportiva. Diz-se — e os sócios também vão apelando a isso durante as sessões de esclarecimento — que o Vitória precisa de estabilidade, mas andarmos, constantemente, num entra e sai de treinadores não é um ponto de estabilidade.
— Como se propõe objetivamente alcançar essa estabilidade?
— Definindo um projeto desportivo com critério. Queremos e vamos pôr a formação e o scouting como pilares daquilo que tem de ser o projeto do futebol. Temos de perceber o que é que já foi analisado e avaliado, dar-lhes ouvidos e, sempre que possível e desejável para todos, seguir os conselhos que dão. Fala-se muito em formação, fala-se muito em scouting… No entanto, apresentam-se diretores técnicos e diretores desportivos que já andam a analisar os jogadores e nenhum desses jogadores, que se saiba, faz parte da formação do Vitória ou foi analisado pelo nosso scouting.
Vender faz parte, mas temos de vender bem.
— Acha que a venda de jogadores deve ser um objetivo para fazer dinheiro, ou o foco deve ser formar para manter os jogadores?
— O modelo de negócio do futebol é esse. Só há quatro ou cinco clubes no mundo que são compradores e não vendedores. A esmagadora maioria são vendedores. O modelo de negócio do futebol é esse. Vender faz parte, mas temos de vender bem. O Vitória tem de ter a sua margem de decisão, por isso é que nós falamos muitas vezes do projeto financeiro, que é uma questão de libertar o Vitória das amarras. Estas amarras que são as dívidas, os juros dos empréstimos, o ter de vender jogadores para pagar salários ou para vencer dívidas urgentes. Pretendemos reestruturar o Vitória financeiramente para que possamos vender melhor e para que o dinheiro sirva para investir na formação, no scouting e na própria equipa de futebol. Eu gosto muito da formação e quero que a formação seja um pilar, mas temos a consciência, não estamos a iludir ninguém, de que a formação, por si só, não vai conseguir abastecer a equipa principal.
V Sports e... um plano B
— E sobre as soluções que a V Sports pode trazer?
— Temos a informação de que a V Sports quer mais. Estamos dispostos a sentarmo-nos com eles para perceber o que é que querem e de que forma querem. Nós também temos as nossas condições, não queremos que a V Sports entre de qualquer forma…
— Traça alguma linha vermelha?
— Não é uma questão de ter linhas vermelhas. Temos, sim, linhas de negociação com a V Sports. Entendemos que até é bom para a V Sports e para o seu modelo de negócio. Relembro que uma das razões que foi dada aos sócios do Vitória para a sua entrada era de que a V Sports se queria aproximar de Portugal por entender que a formação portuguesa estava ao nível das melhores da Europa. Tiveram — não sei se lhe chamo sorte ou capacidade — de se aproximarem de um dos melhores clubes formadores do país.
— E sobre as linhas de negociação?
— Posso dar-lhe algumas: o Vitória manter a liderança do projeto desportivo; as operações de jogadores têm de deixar rasto; tem de haver um relatório desportivo sobre os atletas; queremos análises financeiras, comissões, riscos, alternativas; tem de haver uma aprovação formal quando se compra ou vende um jogador; a parceria tem de servir a formação do Vitória; o benefício financeiro tem de ser demonstrável aos sócios e acionistas; queremos transparência, mas sem ingenuidade comercial. Ou seja, neste último ponto entendemos, sim, que é necessário publicar as operações com as partes, comissões, valores líquidos, transações... No entanto, há outros pormenores que acho que não faz sentido divulgar, como os ordenados dos jogadores. Os sócios, no final, quando apresentarmos contas, vão perceber que estamos a gerir o Vitória dentro daquilo que o clube consegue.
— E caso a V Sports não queira falar?
— Se a V Sports não quiser entrar e consentir a entrada de um outro parceiro, temos um plano B, que é um grupo que está presente na Europa, que já tem participações minoritárias noutras sociedades anónimas. Aderiram muito bem à ideia de entrarem no Vitória. Passaríamos a ser o maior ativo do portefólio desse grupo. Convém, no entanto, esclarecer aos sócios sobre isto: não vão entrar sem o consentimento da V Sports, e eles sabem.
— Isso é imperativo?
— Sim, porque está no memorando de acordo assinado com o Vitória. Nada disto acontecerá se a V Sports entender assumir-se como um parceiro, e nada disto — o que quer que seja — acontecerá sem a aprovação ou conhecimento dos sócios do Vitória.
— Pode revelar o nome do parceiro?
— Não tenho autorização.
— Qual é o projeto e a visão que tem para a nova academia?
— Nessa questão existe um major player que se chama Câmara Municipal de Guimarães, com quem contamos para nos ajudar.
— E o seu plano B pode ter alguma influência? Já se comprometeu com isso?
— Pode, temos vindo a discutir uma série de matérias, mas a mais importante é o facto de que, apesar de o departamento financeiro do Vitória nos ter dado os esclarecimentos possíveis e que tinha naquele momento, temos de ser nós a ver a realidade em que o Vitória se encontra, para depois podermos passar-lhe o feedback correto. Acredito que, vencendo, não vai aparecer só um plano B. Estou convencido de que mais grupos e outras pessoas quererão juntar-se a nós. Tenho a certeza.