Viktor Gyokeres sagrou-se campeão inglês com o Arsenal na época de estreia
Viktor Gyokeres sagrou-se campeão inglês com o Arsenal na época de estreia - Foto: IMAGO

História incrível: Gyokeres e o regresso especial a Budapeste 70 anos após a fuga do avô

Avançado do Arsenal joga final da Champions diante do PSG

A final da Liga dos Campeões de 2026 em Budapeste terá um significado especial para Viktor Gyokeres. 70 anos depois de o avô, Istvan, ter fugido da Hungria, o avançado do Arsenal regressa à terra das raízes familiares para disputar o jogo mais importante da carreira.

A história remonta a 1956, quando Istvan, então um adolescente de 18 anos, abandonou a sua aldeia de Turje em segredo, no meio da noite. Deixou para trás apenas uma carta de despedida para os pais, na qual incluía um nome de código, «Cavaleiro Negro», para comunicar através de uma estação de rádio ilegal e evitar ser detetado.

70 depois, o cenário é radicalmente diferente. Enquanto a partida de Istvan foi solitária e anónima, milhões de pessoas assistirão ao neto em campo, envergando o mesmo apelido que constava nos documentos do avô em 1956: Gyokeres.

Para o avançado sueco, esta final da Liga dos Campeões na capital húngara representa um regresso a casa, como o próprio descreveu numa publicação nas redes sociais após a vitória sobre o Atlético de Madrid nas meias-finais: «De volta às raízes».

A coragem de Istvan foi fundamental para o futuro da família. Após fugir da Hungria, estabeleceu-se na Suécia, onde conheceu a avó de Viktor, Kicki. Tiveram quatro filhos, incluindo Stefan, o pai do jogador do Arsenal. Sem essa decisão arriscada, Gyokeres não estaria hoje a liderar o ataque do seu clube nem da seleção sueca.

É muito romântico dizer que ele partiu apenas por causa da revolução. Na verdade, ele era muito aventureiro. Foram as duas coisas: a política e a sua própria mentalidade

A fuga de Istvan ocorreu durante a Revolução Húngara de 1956, um levantamento nacional contra o domínio soviético que foi violentamente reprimido. Cerca de 200 mil pessoas fugiram do país, muitas delas jovens. No entanto, segundo Eszter Gergye, prima em segundo grau de Viktor, a decisão de Istvan não foi motivada apenas pela política.

«É muito romântico dizer que ele partiu apenas por causa da revolução. Na verdade, ele era muito aventureiro. Foram as duas coisas: a política e a sua própria mentalidade», explica em declarações ao Telegraph Sport. «Não creio que ele gostasse do modo de vida na Hungria. Gostava da música da Europa Ocidental e adorava o estilo de vida. Tenho a certeza de que teria escapado de qualquer maneira, com ou sem revolução», acrescenta.

A prova da partida secreta foi descoberta por Eszter Gergye muitos anos mais tarde, ao encontrar a carta original escrita a lápis por Istvan: «Ele explicava por que estava a partir e pedia desculpa, mas sentia que tinha de o fazer. Disse: ‘Vou contactar-vos através da rádio Europa Livre e usarei o nome ‘Cavaleiro Negro’ para saberem que sou eu’. Fez o meu avô prometer que cuidaria da mãe deles.»

A decisão de fugir era extremamente perigosa. «Era arriscado e ele sabia disso. Ele podia ter sido morto, podia ter sido baleado. Podia ter sido preso. Era perigoso», sublinhou Gergye.

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Istvan conseguiu atravessar a fronteira com a Áustria e seguiu para a Suécia, que tinha aberto as suas fronteiras a refugiados húngaros. Estima-se que mais de 7000 húngaros se tenham estabelecido no país escandinavo até ao final de 1958.

Eszter Gergye descreve o tio-avô como alguém que se destacava pela audácia: «O que o diferenciava do irmão e da irmã era o seu espírito aventureiro. Ele ousou e era muito teimoso. Se queria algo, fazia-o. É assim que me lembro dele. Também me lembro de ele fumar sempre cigarros Marlboro vermelhos.»

Futebol sempre lhe corre nas veias

Depois de se estabelecer na Suécia, Istvan, que fora um futebolista entusiasta na Hungria, tornou-se treinador de uma equipa feminina. Casou-se quatro vezes, tendo tido Stefan, pai de Viktor, com a sua primeira esposa. Curiosamente, a sua quarta mulher foi um amor de adolescência de Turje, que reencontrou décadas mais tarde, numa reunião de antigos alunos do liceu, 45 ou 50 anos após a sua partida.

Viktor Gyokeres, avançado do Arsenal, poderá sagrar-se campeão europeu esta semana, um feito que seria mais um capítulo emocionante na extraordinária história da sua família, com raízes na Suécia e na Hungria. Uma vitória sobre o PSG em Budapeste coroaria uma primeira época fabulosa para o jogador, que já conquistou a Premier League.

Ele é muito parecido com o pai. É um Gyokeres típico. Assemelha-se muito à parte húngara da família, ao lado Gyokeres

A ligação de Viktor à Hungria vem do avô, Istvan, que faleceu em 2015, precisamente quando o neto dava os primeiros passos no futebol profissional sueco. A relação entre os dois não era particularmente próxima, em parte porque, nessa altura, Istvan já podia regressar livremente à Hungria, onde gostava de visitar a cidade de Heviz, famosa pelo seu lago termal. No entanto, Viktor recorda-se de o avô o ter visto jogar quando era criança.

Gergye, que se tornou a quarta mulher de Istvan após este a ter levado para a Suécia, só esteve com Viktor uma vez, quando ele tinha três anos, mas mantém contacto regular com Stefan, o pai do jogador. Sobre o avançado do Arsenal, Gergye destaca as semelhanças familiares.

«Ele é muito parecido com o pai. É um Gyokeres típico. Assemelha-se muito à parte húngara da família, ao lado Gyokeres», garante.

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