Mundial
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Há um buraco enorme no meio da Seleção
Falar depois é fácil, dir-me-ão vocês. A questão é que já não é de hoje e foi referido inúmeras vezes antes. Até aqui. Não se trata sequer de desestabilizar o que já está desestabilizado, além do pouco que isso diz a quem tem de manter a imparcialidade sobre qualquer que seja o tema, sendo-lhe este mais ou menos querido. A crítica construtiva não tem momentos próprios, é uma obrigação e a opinião, para aqueles que não o sabem e muito protestam sem sabê-lo, um género jornalístico.
A conclusão que se tira — mesmo depois de uma Liga das Nações conquistada com mérito, mas perante adversários que, pela sua força, fazem naturalmente baixar os momentos de ataque posicional da Seleção e a transformam numa equipa de transição — Portugal pouco ou nada evoluiu no modelo desde que Roberto Martínez assumiu o comando. Se, no plano futebolístico, a razão pela qual foi contratado está diretamente relacionada com a qualidade do futebol ofensivo, para que a Seleção pudesse dar um passo à frente em relação ao seu passado ainda recente, é aqui precisamente que pouco tem mudado.
Não vou escrever sobre as idas à praia, nem da mulher de César que tem de ser e parecer séria, ou da suposta falta de atitude que sempre se atira para a fogueira da discussão. Nem sequer da adaptação ao clima alegadamente feita há quase três meses, nos jogos com México e Estados Unidos. Dou o benefício da dúvida de que possa haver justificações científicas para tal. Já me parece mais improvável que se consiga explicar o 1x4x0x6 persistente durante todo o desafio. Que ninguém desde o banco foi capaz de corrigir.
Portugal desistiu das entrelinhas, esqueceu-se de que existiam, ainda que tenha tentado pressionar os meios-espaços, ou seja os canais entre os defesas — lateral e central, e entre centrais — através de Bruno Fernandes, Cristiano, Bernardo e João Neves, por vezes. A ver o jogo de frente, com o passe vertical a ser bastante arriscado para a defesa ou para Vitinha, o Congo tinha o jogo controlado. Bastava ser paciente e não entrar em grandes aventuras.
De que valeu desenhar um triângulo teórico (sem Bernardo) ou um quadrado (com Bernardo) no meio-campo quando estes jogadores passaram a maior parte do tempo bastante longe uns dos outros. Incapazes de combinar, de criar rotações posicionais. Sem ninguém nas entrelinhas e perante um meio-campo muito povoado por parte do rival, o passe vertical tornou-se um risco demasiado elevado. O transporte também. Tomás não arriscou. Renato Veiga não tem sequer esse argumento. A posse foi tão alta em percentagem quanto estéril.
Quando montava o cerco, ou o desenhava pelo menos, Portugal congelava. Tentava apenas combinações para libertar o extremo pela direita, a fim de este pudesse cruzar, mas na área já todos esperavam o passe — o mesmo na esquerda, com Neto e depois Rafael Leão a partir para o 1x1. Só uma vez os africanos se deixaram surpreender com o cruzamento para trás, porém aí a fome cega de Ronaldo impediu o golo feito a Bruno Fernandes. Faltavam movimentos de rotura para surpreender ou arrastar marcações, todos procuravam colocar-se a jeito para a finalização e, obviamente, todos estavam marcados. E se atacas mal posicionalmente também defendes mal. Até as bolas paradas parecem demasiado simples e inócuas para quem tem um especialista para o efeito.
Chegamos a Cristiano Ronaldo. O capitão não é solução e claro que só isso o transforma num problema. Não é o único, todos o sabemos. E não é deste Mundial. É-o há muito tempo. Os golos antes ainda compensavam a passividade defensiva, agora não marca e condiciona todo o ataque. Mentalmente, com os colegas a quererem servi-lo mesmo quando há melhores opções, mas também figurando qual corpo estranho de todo o processo ofensivo. Passou a falhar golos fáceis. Vários por infelicidade. Outros porque o corpo já não lhe permite chegar lá tão rápido (e, como tal, equilibrado) como antes. Ao passe, ao remate.
Martínez viu isto e entendeu que mesmo com João Neves, Bruno Fernandes, Neto, Bernardo Silva e os laterais a aparecerem nas alas, Portugal tinha um problema de largura. E lá o vazio se estendeu até ao banco. Ronaldo, mesmo mal, ficou em campo. «Não fazia sentido tirá-lo de campo a ele, o melhor marcador da história, quando estávamos à procura de golos», justificou o selecionador, dizendo o que toda a gente sabe: está em campo por gratidão e não pelo que está a jogar. Porque não marca há dez partidas em fases finais de grandes torneios. Os números são duros. Impositivos.
Seria lógico sim, usando a mesma expressão que Martínez, fazer entrar um avançado diferente no 11. Gonçalo Ramos não atravessa grande momento, mas enquadra-se mais no futebol associativo que se pretende jogar e atribui maior responsabilidade na rotação posicional e na fase de criação aos criativos. Além do que pode acrescentar numa pressão estruturada, que com Ronaldo não existe. Há também Guedes, ainda mais móvel, a precisar de algum espaço para explodir, e que pode fazer sentido ao lado de Ramos em algumas fases. João Félix também pode jogar aí, privilegiando os apoios frontais, mas Martínez, ainda que não se tenha apercebido, precisa dele para o que lhe falta atrás, nas entrelinhas. Não percebê-lo é grave.
Portugal irá qualificar-se, ainda mais neste cenário em que se apuram terceiros classificados. Não acontecer seria o maior escândalo da nossa história. É provável que melhore também — não na perspetiva de Cristiano, mas na do resto do ataque — quando aparecer o espaço que as melhores equipas libertam porque arriscam mais. No entanto, aumenta a dependência da transição ofensiva.
P.S. Nesta altura parece já ser um segredo mal guardado e não deixa de ser preocupante. Este triângulo que se vai inverter para tudo ficar na mesma, de Jorge Jesus no lugar de Roberto Martínez na Seleção e de Martínez no lugar de Jesus no Al Nassr, está mais uma vez à medida de Ronaldo. E da Federação, pelos milhões que recebe em patrocínios. O futebol ficará uma vez mais em segundo plano?