FC Porto bem lutou, mas não foi além do empate (1-1) na receção ao Nottingham Forest - Foto: Rogério Ferreira/KAPTA+
FC Porto bem lutou, mas não foi além do empate (1-1) na receção ao Nottingham Forest - Foto: Rogério Ferreira/KAPTA+

Há mais vida para além da Liga Europa, não é? (crónica)

O 'fogo amigo' disparado por Martim Fernandes acabou por travar aquilo que parecia encaminhar-se para um triunfo concludente do FC Porto. Depois do empate, o equilíbrio imperou e nem mesmo a entrada de habituais titulares nas duas equipas desatou uma dúvida que só será desfeita em Nottingham…

Cada jogo, como cada pessoa, é ele e as suas circunstâncias. E as circunstâncias que envolviam este FC Porto-Nottingham Forest eram variadas e de cariz muito diferente. A mais glamorosa, sem dúvida, prendia-se com o facto de estarem a defrontar-se, numa prova da UEFA, dois ex-bicampeões europeus; a menos interessante, prender-se-ia com o facto de estarem frente a frente equipas com objetivos opostos nas respetivas Ligas, o FC Porto a jogar para o título e o Forest a tentar a todo o custo a permanência na Premier League.

Como, na próxima jornada dos respetivos campeonatos, os dragões vão à Amoreira defrontar um tradicionalmente difícil Estoril, e o clube que, um dia, o mítico Brian Clough levou ao topo do mundo recebe o Aston Villa, tanto Francesco Farioli como Vítor Pereira trataram de gerir os efetivos, em vez de colocarem a carne toda no assador (que grande frase de Quinito, também ele ex-treinador do FC Porto), o que tornou o perfil das equipas inevitavelmente híbrido.

Não admira, pois, que as substituições, viessem a trazer maior identidade às equipas, numa altura em que havia pouca vontade de correr riscos e se sentia o desejo, em cada um dos conjuntos, de poupar forças para as batalhas que se seguem; até porque este jogo, sendo uma primeira-mão, nunca seria definitivo.

Poupanças

Com o FC Porto com o seu habitual 4x3x3, desta feita com as poupanças de Pepê, Varela, Kiwior, Alberto Costa e até Deniz Gul, e os ingleses a deixarem no banco alguns dos seus pesos-pesados (Igor Jesus, Sangaré, Milenkovic), armando-se num 4x3x3 que não passou da teoria, revelando-se, na prática, um 5x4x1, o jogo começou por dar azul-e-branco e logo aos 46 segundos (!!!) Moffi, isoladíssimo perante Ortega, não foi capaz de desfeitear o guarda-redes alemão, com Sainz, na recarga, a seguir-lhe o exemplo; estavam lançados os dados para a parte inicial da partida e adivinhava-se que o golo dos dragões iria aparecer cedo.

E assim foi. Depois de, aos sete minutos, após uma excelente triangulação, Borja Sainz ter rematado à figura de Ortega, finalmente aos onze, William Gomes, após outra excelente jogada que envolveu Pablo Rosario e Gabri Veiga, deu verdade ao marcador colocando o FC Porto na frente. Parecia tratar-se na antecâmara de um passeio para os dragões, que tiraria carga dramática à viagem a Nottingham. Nos primeiros minutos a equipa de Farioli comandou as operações, e a defesa do Forest mostrava mais furos do que os causados pelas setas de Robin dos Bosques nos soldados do xerife de Nottingham

Fogo amigo

Mas o futebol é, de facto, um 'bicho' complicado. Estava o FC Porto lançado e confiante quando, dois minutos depois de William Gomes ter feito balançar as redes de Ortega, Martim Fernandes teve um lance para os 'apanhados', foi imprudente ao atrasar a bola para o seu guarda-redes, enquadrada com a baliza, e cometeu o pecado capital de fazê-lo sem olhar para Diogo Costa. Consequência? Um empate caído do céu para o Forest, e o jogo a mudar radicalmente. O FC Porto sentiu muitíssimo o golpe e a equipa de Vítor Pereira aproveitou para se estabilizar e acertar melhor as marcações. A pressão que Fofana, Pablo Rosario e Gabri Veiga faziam a meia campo deixou de ser tão eficaz, os ingleses passaram a ter espaço entre linhas (McAtee demasiado à vontade) e o que estava desequilibrado, equilibrou-se. Para tornar as coisas ainda mais complicadas para o técnico portista, como um azar nunca vem só, Martim Fernandes lesionou-se (19) e Farioli teve de 'queimar' um tempo de substituição indesejado. Quer isto dizer que depois de uma entrada em força, a partir do empate, fruto de 'fogo amigo', o equilíbrio reinou no Dragão.

Mais qualidade

A segunda parte começou por trazer as trocas de Murillo por Milenkovic e de Woods por Igor de Jesus, com benefício para o Forest, embora sem alterações táticas. Aliás, não as houve ao longo dos 90 minutos em nenhum dos lados…Com William Gomes a ser o jogador mais perigoso - sempre em iniciativas individuais - aos 49 minutos rematou pouco ao lado e aos 68 obrigou Ortega à defesa da noite -, Farioli decidiu dar uma chicotada no jogo quase à hora de jogo (59) e lançou de uma vez Pepê, Froholdt e Gul. Diga-se que, se Froholdt teve um remate muito perigoso aos 79 minutos, quem acelerou o jogo do FC Porto foi Pepê, que quis romper com os jogos de pares estabelecidos, e deu uma melhor dinâmica aos dragões. Vítor Pereira, respondeu de imediato (60), com mais dois 'habitués' - Williams e Hutchinson e cinco minutos depois o VAR anulou, por falta sobre Diogo Costa, o que seria o 1-2 (injusto) para o Forest. Mas, provavelmente, do ponto de vista da batalha dos bancos o minuto 74 foi o mais relevante, com vantagem para Vítor Pereira: o técnico do Forest mandou a jogo Sangaré, e Farioli, Varela.

A vantagem foi para o treinador bicampeão no FC Porto porque o antigo alvo do Benfica disciplinou o jogo da sua equipa, mandou no meio-campo e acabou por se estabelecer como patrão do Forest. Finalmente, o argentino Dominguez, que tem um estilo semelhante ao compatriota campeão do mundo Mac Allister, teve quem falasse a mesma linguagem; enquanto isso, Varela não foi decisivo, e o jogo acabou por terminar com nenhuma das equipa a querer correr riscos. Na segunda mão, em Nottingham, logo se verá. O resultado, por ter acontecido no Dragão, não foi agradável para o FC Porto, mas a equipa de Farioli tem um trunfo, que deve jogar em Inglaterra: é melhor do que o conjunto orientado por Vítor Pereira, e possui argumentos para seguir em frente na Liga Europa.

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