Galo cantou, perdoou e sai com balde de água fria (crónica)
Nenhuma equipa quer ir para a pausa do campeonato com um sabor amargo, ainda por cima se isso significar o prolongamento de uma má fase — duas derrotas seguidas no caso do Gil Vicente e três para o Marítimo —, pelo que imperava a fome de retomar o bom caminho para encarar o interregno com maior tranquilidade… e mais sorrisos.
Nesse sentido, tanto os minhotos como os madeirenses, em igualdade pontual antes do apito inicial, precisavam de vencer para expurgar fantasmas.
De volta a casa depois de ter dado uma boa réplica na Luz, apesar de ter saído da capital sem pontos (1-3), a turma de Luís Pinto protagonizou uma primeira parte muito bem conseguida.
Desde cedo a tomar conta das operações do jogo, com domínio territorial, chegou à vantagem com um golo madrugador de Murilo. Após jogada exemplarmente desenhada no corredor esquerdo, com Lausen e Gil Martins em bom plano, o extremo brasileiro, que ainda não tinha faturado esta época — foi o melhor marcador da equipa na temporada passada, com 11 tentos —, fez o gosto ao pé com um remate colocado de pé esquerdo.
A vantagem não abrandou o ritmo dos gilistas, bem pelo contrário. Seguiram-se várias aproximações à baliza à guarda de Fran Vieites e chegou mesmo a haver festejos com novo tiro certeiro do número 77, mas o lance foi prontamente invalidado por posição irregular do canhoto. O VAR confirmou a decisão do assistente: 39 centímetros em fora de jogo.
O leão do Almirante, até aqui completamente inofensivo e a demonstrar grandes fragilidades com e sem bola, acordou apenas na reta final da primeira metade, com duas oportunidades que colocaram em sentido a retaguarda barcelense.
Nessa senda de crescimento, o conjunto de Mitchell van der Gaag entrou a todo o gás na etapa complementar, com o ex-gilista Maxime Dominguez a assustar Lucão, obrigando-o a aplicar-se.
Porém, a tentativa de reentrar no jogo não foi duradoura e o Gil rapidamente tornou a ameaçar dilatar a vantagem. Vieites, em estreia absoluta no futebol luso, manteve os maritimistas vivos com um par de intervenções e esse oxigénio deu ânimo à equipa, que melhorou substancialmente face à exibição cinzenta nos primeiros 40 minutos, sobretudo.
Ainda assim, a produção ofensiva parecia insuficiente para beliscar o triunfo dos minhotos... até que apareceu o herói Ayuma. Lançado no decorrer do segundo tempo, o médio nigeriano recebeu na área depois de uma falha da defesa gilista e fuzilou Lucão já nos descontos, deitando um balde de água gelada sobre as bancadas do Cidade de Barcelos e resgatando um ponto para os insulares.
Ninguém sai com os três pontos, mas quem parte mais sorridente para o interregno é certamente a turma madeirense, cuja quarta derrota seguida parecia inevitável. Continuam os dois colados na tabela, embora o conjunto de Luís Pinto tenha menos um jogo realizado.
O brasileiro foi o principal agitador do ataque minhoto e, além do golo madrugador que assinou e do tento invalidado que ainda levou os adeptos a gritar, criou muitos desequilíbrios no corredor direito. Sempre um perigo à solta para as defesas adversárias, o canhoto é uma das figuras do plantel e promete repetir a profícua época passada, em que teve papel crucial no notável sexto lugar.
As notas dos jogadores do Gil Vicente: Lucão (5); Ricardo Esgaio (6), Elimbi (6), Buatu (5), David Moreira (5); Santi García (6), Andreas Lausen (6), Diogo Prioste (6); Murilo (7), Héctor Hernández (5) e Gil Martins (6). Mohamed Kaba (5), Joelson Fernandes (—), Antonio Espigares (—) e Martín Fernández (—).
Com apenas 21 anos, o médio nigeriano que se estreia em território luso esta temporada, ele que chegou no mercado de verão proveniente dos croatas do NK Istra, já deixa a sua marca nos verde-rubros. Ainda não foi aposta inicial de Mitchell van der Gaag, mas tem deixado excelentes indicadores sempre que entra. O golo que apontou deixa o universo maritimista com água na boca.
As notas dos jogadores do Marítimo: Fran Vieites (6); Igor Julião (5), Gábor Szalai (5), Romain Correia (6), Paulo Henrique (5); Maxime Dominguez (6), Vladan Danilovic (4), Rodrigo Andrade (5), Martín Tejón (5); Raphael Guzzo (5); Adrián Butzke (5). Israel Ayuma (7), Nilton Varela (5), Maurice Boakye (6), Ibrahim Alani (5) e Mons Bassouamina (5).
Luís Pinto (treinador do Gil Vicente)
Se quisesse ser politicamente correto, diria que a justiça no futebol existe pelo resultado. Ao analisar o jogo, a vitória não seria por 1-0, nem 2-0, mas sim por outros números. O Marítimo acreditou até ao fim e acabou por ter felicidade numa das aproximações que teve.
Mitchell van der Gaag (treinador do Marítimo)
Foi um jogo difícil. Já sabíamos, porque o Gil é uma equipa muito forte, com boas dinâmicas. Tem várias opções. Tivemos dificuldades sobretudo pelo nosso lado esquerdo. Faltava energia. A sorte foi ter ficado só 1-0 e depois houve a paragem; mudámos para uma linha de cinco e recuperámos bem. Na segunda parte, houve um Marítimo diferente. Não desistimos e lutámos por um bom resultado, quebrámos a série de derrotas antes da pausa.