Roman Petushkov: a lenda paralímpica russa, ganhou seis medalhas de ouro em Sochi2014
Roman Petushkov: a lenda paralímpica russa, ganhou seis medalhas de ouro em Sochi2014

Fim do exílio da Rússia causa polémica e boicote nos Jogos Paralímpicos

Desde 2014 que não se ouvia o hino russo e bielorrusso, mas isso pode mudar durante os próximos nove dias. Seis atletas russos e quatro bielorrussos presentes nos Paralímpicos representarão os seus países, com símbolos e bandeira. Os protestos não se fizeram esperar e os boicotes, esta sexta-feira, serão muitos na cerimónia de abertura com a Ucrânia a erguer a sua voz e recordar que já morreram mais de 600 atletas na guerra

A Rússia está prestes a terminar o seu longo exílio dos eventos desportivos mundiais, com os seus atletas a competirem sob a bandeira nacional nos Jogos Paralímpicos de Inverno pela primeira vez desde 2014, apesar da guerra com a Ucrânia continuar. A decisão está a gerar enorme controvérsia e ameaça ofuscar a competição, que arranca já esta sexta-feira com a cerimónia de abertura, que se realiza pela primeira vez num local classificado como Património Mundial da UNESCO, Arena de Verona, e terá o primeiro DJ do Mundo com uma mão biónica a animar a festa.

Em protesto contra a participação de atletas da Rússia, e da sua aliada Bielorrússia, a Ucrânia e várias outras nações, incluindo Chéquia, Estónia, Letónia, Lituânia, Polónia e Finlândia, anunciaram um boicote à cerimónia, mais um polo de tensão que se soma às preocupações já existentes com perturbações nas viagens devido à guerra entre os EUA-Israel e o Irão.

Arena de Verona

Ao contrário do que aconteceu nos recentes Jogos Olímpicos de Inverno em Milão-Cortina, onde os seus compatriotas competiram como neutros, os seis atletas russos e quatro bielorrussos presentes nos Paralímpicos representarão os seus países. Isto significa que poderão exibir as suas bandeiras nacionais e, em caso de vitória, ouvir os seus hinos.

Esta mudança surge depois de o Comité Paralímpico Internacional (CPI) ter levantado, no ano passado, a proibição parcial de atletas dos dois países. No entanto, a decisão final não coube ao CPI, que não rege as seis modalidades em disputa. As federações individuais, como a Federação Internacional de Esqui e Snowboard (FIS), recusaram-se a levantar as suas próprias sanções. Contudo, a Rússia e a Bielorrússia recorreram com sucesso para o Tribunal Arbitral do Desporto (TAD) contra a decisão da FIS.

Como resultado, os 10 atletas em questão receberam convites da comissão bipartida para estarem em Milão-Cortina, marcando o regresso da bandeira russa aos Jogos Paralímpicos após 12 anos. Recorde-se que a Rússia foi alvo de uma proibição total em 2016 e de uma proibição parcial nas duas edições seguintes, devido a um escândalo de doping patrocinado pelo Estado.

O CPI justifica a alteração alegando que a sanção original, de 2022 não se deveu à invasão da Ucrânia, mas sim ao uso do desporto paralímpico para promover a campanha militar, o que violava os seus regulamentos, e que existem menos provas dessa propaganda. Na altura, após uma tentativa inicial de permitir a participação como neutros, o CPI impôs uma proibição total para «preservar a integridade dos Jogos e a segurança de todos os participantes», citando a ameaça de um boicote generalizado e uma situação «insustentável» na aldeia dos atletas.

A decisão de reintegrar os atletas, ainda que controversa, reflete a vontade da maioria dos membros do CPI, que em setembro votaram contra uma suspensão total ou parcial da Rússia e da Bielorrússia. Alguns membros consideraram injusto penalizar atletas pelas ações dos respetivos governos, enquanto outros apontaram a inconsistência na aplicação de sanções desportivas a outros países acusados de violar o direito internacional.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, classificou a decisão como «terrível». Por sua vez, o atleta de skeleton Vladyslav Heraskevych, desqualificado dos Jogos Olímpicos por usar um capacete com imagens de atletas mortos na invasão, afirmou que a medida levou muitos dos paratletas do seu país a não quererem sequer fazer parte do evento.

A decisão de várias equipas de boicotar a cerimónia de abertura dos Jogos Paralímpicos, em solidariedade com a Ucrânia, está a intensificar o debate sobre a reintegração de atletas russos nas competições internacionais. A Alemanha anunciou que a sua equipa não participará no Desfile das Nações, optando por uma aparição numa transmissão pré-gravada.

Em resposta, um alto funcionário do desporto russo acusou as equipas que boicotam a cerimónia de estarem a politizar o movimento paralímpico. Por sua vez, o IPC expressou a sua «desilusão» com a ausência das equipas, esperando que o foco se desvie em breve para o desempenho dos 660 atletas que competem na 50.ª edição do evento.

Abertura das federações

A controvérsia surge num momento em que várias federações ponderam aliviar as restrições impostas à Rússia e à Bielorrússia. Kirsty Coventry, presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), sugeriu essa possibilidade ao defender a neutralidade no desporto. «O nosso jogo é o desporto. Isso significa manter o desporto um terreno neutro. Um lugar onde cada atleta pode competir livremente, sem ser retido pela política ou pelas divisões dos seus governos», afirmou, sendo aplaudida pelos dirigentes russos.

Mais de 600 atletas mortos
A oposição da Ucrânia a estas medidas de felibilização para os russos permanece firme. Segundo o seu ministro do Desporto, a Rússia já matou mais de 650 atletas e treinadores ucranianos e danificou 814 instalações desportivas. O movimento Global Athlete reforça esta posição.

Algumas organizações, como a World Athletics, mantêm proibições totais, mas outras já começaram a flexibilizar, como a Federação Internacional de Judo que já permitiu que atletas russos competissem sob a sua bandeira nacional, depois do COI aconselhou a que os atletas jovens russos pudessem voltar a competir em eventos internacionais com os símbolos nacionais.

A oposição da Ucrânia a estas medidas permanece firme. Segundo o seu ministro do Desporto, a Rússia já matou mais de 650 atletas e treinadores ucranianos e danificou 814 instalações desportivas. O movimento Global Athlete reforça esta posição.

«Agora é o momento de o desporto mostrar liderança, não fraqueza. A comunidade desportiva global deve unir-se e exigir que o COI aumente as sanções sobre a Rússia, não que as alivie. A Rússia só deve ser autorizada a regressar quando a guerra terminar e se retirar da Ucrânia», defende o grupo.