«Eusébio só há um, nunca quis que me comparassem ao King»
O 90+3 voltou a abrir portas a uma das grandes figuras do futebol português — e desta vez foi Pedro Pauleta quem se sentou no estúdio para um episódio de memórias, emoções, revelações inéditas e bastidores que atravessam décadas de carreira. Entre Açores, Paris, seleções jovens, Euro 2004 e o último jogo com a equipa das quinas, o Ciclone mostra por que razão continua a ser uma das vozes mais respeitadas do futebol nacional.
Num ambiente descontraído, conduzido como sempre por Ricardo Quinteiro, Afonso Couto e José Miguel Saraiva, Pauleta vai ao passado sem filtros, e traz à superfície histórias que ajudam a contar não só a sua vida, mas também um pedaço da história do futebol português.
Açores, Estoril e a ambição simples: «Poupava 90% do ordenado para comprar uma casa»
Poucos ídolos começam a vida com uma mentalidade tão pragmática. Pauleta abre o episódio com um retrato que podia ser de qualquer jovem trabalhador… mas de um que viria a ser lenda: «No Estoril, poupava 90% do ordenado. O meu sonho era comprar uma casa nos Açores.»
Conduzia um Renault 5, levava almoços de casa, e contava cêntimos — tudo para alcançar um objetivo que não tinha nada de glamoroso, mas tudo de simbólico. Entre histórias da tropa, episódios insólitos de viagens inter-ilhas e a célebre cláusula de 50 mil euros, percebe-se que o jogador que viria a ser símbolo de França nasceu da humildade e da disciplina.
Salamanca, o BMW prometido e o jogo que mudou a carreira
A passagem pela Segunda Divisão espanhola ganha contornos quase cinematográficos. O presidente do Salamanca prometeu-lhe um BMW se marcasse 15 golos — e Pauleta disparou. Conta ainda o jogo decisivo com o Toledo, onde ganhou a titularidade à lei do mais forte, e confessa que teve vários convites para regressar a Portugal: Benfica, Sporting, Udinese… Mas a vida empurrava-o para Espanha — e depois para muito mais longe.
Corunha, Bordéus e a construção de um ídolo que fez vibrar um país inteiro… à distância
No Deportivo, conhece Djalminha, que compara a Messi. Mas é em Bordéus que se transforma num fenómeno: «Em França os meus golos eram uma motivação para os emigrantes portugueses. Para eles era como se fosse um deles a marcar.»
Durante dois anos seguidos, foi eleito melhor jogador da liga francesa, muito antes de o PSG se tornar a potência milionária que é hoje.
PSG, o Parc des Princes e o peso de ser símbolo numa cidade gigante
Pauleta mostra a camisola do PSG que levou ao estúdio e fala como quem nunca deixou Paris para trás: «Paris adorou-me e eu adorei Paris. Não há estádio como o Parc des Princes.»
Conta histórias de adeptos que viajavam milhares de quilómetros só para o ver — literalmente: uma adepta percorreu 1000 km numa final da Taça da Liga só para o ver jogar.
Fala ainda do seu golo mais icónico — considerado por muitos o melhor da história do PSG.
Vitinha, Bernardo, Bruno: um diretor desportivo invisível
A relação de Pauleta com o PSG continuou depois de pendurar as botas.E trouxe momentos surpreendentes: «Vi o Vitinha nos sub-15 e adorei. Fiz força para que fosse para o PSG.»
Mas a frase mais explosiva surge logo a seguir: «Não perdoo o presidente do PSG por não ter contratado o Bernardo Silva.»
Tentou também levar Bruno Fernandes. Não conseguiu nenhum. E ainda hoje lamenta.
O respeito eterno: «Eusébio só há um»
Chega o momento mais sagrado do episódio: o dia em que ultrapassou Eusébio na Seleção. «Nunca quis que me comparassem ao Eusébio. Eusébio só há um.»
Recorda o telefonema emocionante, a forma como se sentiu pequeno perante o King, e o peso histórico desse dia.
O tema volta minutos depois com Ronaldo: «Disse ao Cristiano: bateste o recorde mais difícil da tua carreira.» E acrescenta com humor: «O recorde verdadeiro continua a ser o meu.»
Euro 2004: dor física, dor emocional, e um adeus que ainda pesa
Nunca tinha contado isto com tanto detalhe: «Não me perdoo pela forma como joguei no Euro 2004.»
Revela que treinou e jogou com dores insuportáveis, que teve de cortar a bota para conseguir entrar em campo, e que escondeu tudo… até ao fim.
«Vim a chorar de Alcochete para a Luz no dia da final.»
O último jogo, com Figo ao lado: «Chorei muito no balneário»
A despedida no Mundial 2006 ainda o emociona.
«Chorei muito quando eu e o Figo dissemos à equipa que íamos abandonar a Seleção.»
E a frase que resume tudo: «O meu pai representou Portugal na guerra. Eu representei-o a jogar futebol.»
Mundial 2026: «Enquanto for à Seleção, Ronaldo tem de ser titular»
Pauleta é firme: «Enquanto for convocado, Ronaldo tem que ser titular.»
E acrescenta: «O mais importante é que o grupo esteja unido — jogadores e toda a estrutura.»
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