Inédito e incrível: Paulinho não vai à Seleção por ser... bom, competente e fiável
Roberto Martínez é um homem de convicções, ou pelo menos de explicações que parecem saídas de um manual de diplomacia aplicada. A lista para o México e Estados Unidos é o último ensaio antes do espetáculo final das escolhas para o Mundial e o selecionador decidiu baralhar as cartas de forma a deixar meio país a coçar a cabeça.
O comboio da Seleção, esse transporte mítico onde os lugares são mais caros que um T1 no Chiado, já partiu. E há quem tenha ficado a vê-lo passar, enquanto outros entraram pela janela.
Comecemos pelo estaleiro de luxo. Ronaldo, Rúben Dias e Semedo ficam de fora por questões físicas — nada de novo, a idade e o calendário não perdoam. Mais curiosa é a ausência de Bernardo Silva, uma «decisão técnica baseada na informação clínica». É aquela linguagem de hospital que serve para dizer que o City mandou e a FPF obedeceu. Já Palhinha é o mistério da noite: sem justificação, como se se tivesse evaporado da Cidade do Futebol. E Raphael Guerreiro? Bom, esse foi riscado com a caneta vermelha da desonra. Quem vira as costas à Liga das Nações não entra no quartel de Martínez.
Nas entradas surpresa, Martínez sacou da cartola nomes que cheiram a futuro, mas que também serão... experiências de laboratório. Rodrigo Mora, o pequeno génio, é a lufada de ar fresco, mas estará lesionado e falhará os duelos das Américas; Mateus Fernandes, Samu Costa e Tomás Araújo são as apostas de quem quer mostrar que está atento, mas no fundo sabe que dificilmente prepararão a mala para o Mundial.
Mas o momento mais circense desta convocatória é a gestão de Paulinho. A explicação de Martínez é de uma ginástica mental digna de ouro olímpico: Paulinho é tão parecido com Ronaldo e Ramos que... não precisa de ir. Ou seja, o avançado do Toluca é vítima da própria competência. É a primeira vez que ser bom e fiável é o passaporte direto... para o sofá. Ao mesmo tempo, Martínez assina a certidão de óbito às esperanças de André Silva ou Fábio Silva e, de caminho, avisa o país: para o Mundial, só levamos dois matadores. Se um se constipa, rezamos a Fátima.
Martínez é otimista por natureza, mas esta lista é perigoso equilibrismo. Entre os que não podem, os que não querem e os que «não valem a pena», o selecionador vai para as Américas testar o que resta. Esperemos que o comboio não descarrile antes do Mundial. É que, no futebol como na vida, a justiça é relativa, mas o golo é absoluto. E sem pontas de lança, o brilho das surpresas pode rapidamente transformar-se em saudade dos injustiçados.
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