«Estou preparado para a adrenalina»
Totalmente preparado para voltar ao ativo. Assim está Tozé Marreco, que nesta entrevista a A BOLA fala do seu percurso enquanto treinador e assume estar aberto a novos projetos, não excluindo o estrangeiro.
— Está inativo desde que deixou o Farense, no final da época passada. Como têm sido estes tempos? Tem acompanhado muito futebol?
— Muito, mesmo. Tenho aproveitado para conhecer outras realidades, em vários países, e para roubar ideias. Porque, no fundo, nós, treinadores, fazemos isso, roubamos ideias uns aos outros, faz parte.Tenho tido a oportunidade de assistir a jogos de campeonatos diferentes, analisar dinâmicas, defensivas e ofensivas. Têm sido meses bastante enriquecedores. Claro que com maior incidência no nosso campeonato, mas também a ver outras ligas, tanto na Europa como em África.
— Essa aprendizagem terá impacto direto quando aceitar o próximo projeto?
— Não será muito diferente do que foi até agora, na preparação das unidades de treino, por exemplo. Mas há pormenores que percebi que tenho e quero melhorar. Isso tem de ser uma constante na vida. Perceber o que temos de alterar para melhorarmos. Sinto-me preparado para voltar ao trabalho. Estou pronto para a adrenalina.
— O telefone tem tocado?
— O telefone tocou, sim, mas tem sido uma questão de timing. Não achei que fosse o melhor para abraçar determinados projetos.
— Foram convites de Portugal ou também do estrangeiro?
— Tive de Portugal e do estrangeiro, sim. Achei que não era o momento certo para aceitar. Posso dizer que até tive duas situações que estiveram prestes a serem consumadas, mas que acabaram por não acontecer. Eram ambas do estrangeiro, sim.
— Académica (sub-17), Oliveira do Hospital, Tondela, Gil Vicente e Farense. Foi este o percurso até agora. Falemos do Farense, que foi o último clube que treinou. Que balanço?
— Não nos mantivemos na Liga por uma vitória, isso é factual. Entrámos numa equipa que à 7.ª jornada tinha zero pontos. Logicamente que andámos sempre a remar contra a maré, tinha mesmo de ser assim mediante a situação. Tivemos de ser treinadores e também psicólogos, se quisermos dizer assim. Um bocadinho das duas coisas. Foi muito tudo, tivemos de construir tudo do zero e alterar muitas coisas. Foi bastante desafiador termos de arranjar constantemente soluções. Aceitei o desafio porque uma das poucas qualidades que tenho [risos] é a coragem. Por isso saí do conforto dos sub-17 [Académica] para ir para o Campeonato de Portugal com o objetivo a ser o de não descer de divisão e depois assumo a Liga 3 com 12 mil euros de orçamento [Oliveira do Hospital]. Por isso é que vou para o Tondela e assumo o barco sem podermos inscrever jogadores. Preparámos a equipa e depois o Luís Pinto e toda a estrutura, com muito mérito, conseguiram a subida de divisão. Por isso é que vou para o Gil Vicente com a corda na garganta, como se costuma dizer, e vou à luta. Tem tudo que ver com os meus princípios de vida. Essa, no Farense, não correu bem, infelizmente, por golos.
O mais feliz com a 'pausa' foi... o filho
Ser treinador de futebol e ter filhos menores nem sempre é fácil. A profissão leva a que os momentos com a família sejam mais escassos, pelo que, quando há uma breve pausa, tudo se faz para viver o mlehor tempo possível com quem mais se ama. Foi o que aproveitou para fazer Tozé Marreco durante estes tempos. O mais pequeno lá de casa agradeceu, confessa o progenitor.
«Agradeceu e muito [risos]. Divertimo-nos muito a jogar futebol lá em casa e a passear. Ele tem mais jeito para o futebol do que eu tinha. Mas isso também não é difícil [risos]. Fora de brincadeiras, claro que sim, nesse sentido estes meses têm sido absolutamente fantásticos», confessa o técnico, que conta 38 anos de idade.
«Trabalho no Gil Vicente? Orgulha-nos»
Tozé Marreco chegou ao Gil Vicente na reta final da época 2023/2024 e ainda foi a tempo de salvar os gilistas da descida de divisão. Num espaço muito curto de tempo realizou (mais) um trabalho altamente meritório e garantiu o principal objetivo para o qual tinha sido contratado. E a marca fica.
«Orgulha-nos. Foi, de facto, um trabalho que nos orgulha muito, a mim e à minha equipa técnica. O Gil Vicente estava numa situação bastante delicada, com um grupo absolutamente destruído psicologicamente, sem confiança. Chegámos, depois de uma goleada frente ao Sporting, e alterámos o sistema tático de uma semana para a outra. E a verdade é que conseguimos. Foi uma luta que me deu muito gozo, porque é um clube incrível, que criou condições muito boas», analisa o treinador.
Mas a verdade é que, ao contrário de todas as expectativas, a saída do clube foi uma realidade na pré-temporada seguinte. Algo que é agora explicado na primeira pessoa: «Houve uma discrepância de ideias entre a direção desportiva e o treinador. Eu não poderia ser responsável por decisões que não eram minhas.»
E o contexto agora descrito esteve na base da decisão de Marreco. «Sim, fui eu que decidi pedir para sair. Respeito sempre as hierarquias de um clube. Mostrei aquilo que deviam ser as decisões e o caminho a tomar», explicou.
Do orgulho pelo trabalho que desenvolveu em todos os projetos que abraçou à motivação para o que se seguir. Tozé Marreco sente-se pronto para o próximo passo.